TOPÁZIO


(1/1/2004)

Evaristo Eduardo de Miranda

A construção seminário exigia recursos. A diocese mineira cheia de patrimônio histórico, não tinha liquidez financeira. Foram muitos anos de trabalho e de esforços coletivos. Os fiéis contribuíam com magras e insuficientes esmolas. Um poderoso, desejoso de ver a igreja a seus pés sinaliza sua disposição em ajudar. Muito. Também pede um abrandamento no verbo evangélico. Basta de sermões estilo padre Vieira. Basta de denúncias contra ricos e exploradores. Malícia do mal. A igreja não se decide, não responde a esta oferta condicionada.

Um dia, de suas minas de pedras preciosas, o poderoso envia para ajudar na construção do seminário um saco de pedras preciosas. Não um saquinho. Uma saca de café repleta de topázios amarelos. Era uma forma de humilhar. E de não humilhar-se. Um dom interesseiro da riqueza, a quem a igreja repetia e repetia: não te é lícito. Todos reúnem-se para contemplar aquele tesouro dourado e faiscante, saído do ventre da terra.

A igreja poderia recusar aquele monte pedras. Ou vender e recuperar o dinheiro. Lapidá-los e vendê-los mais caro ainda. Ou usá-los para ornar os altares, as imagens. Ou então… Ela reflete e agradece o dom. O que fazer? Sua decisão é inusitada. Ela emprega essas pedras numa espécie de fundação, de alicerce, para o novo seminário.

Os topázios foram usados para pavimentar os treze degraus da entrada do seminário. Quem sobe por aquelas escadas caminha sobre lindos topázios amarelos, cravejados no cimento e cercados de outras pedras, belas e menos valiosas. Muitos passam sem notar. Outros abaixam-se, limpam o pó de alguma pedra maior com a ponta de dedo molhada em saliva. Os topázios estão sendo lapidados por pés descalços e calçados. Cada degrau vale a lembrança de uma estação no caminho do calvário. No alto da escadaria, em tamanhos mais avantajados, os topázios formam cruzes. Tu és Pedro, e sobre essa pedra…

Voltando-se o olhar para cima, vê-se uma linha dupla de palmeiras imperiais tentando rivalizar com as duas torres despojadas da igreja de São Pedro dos Clérigos. Palmeiras e igreja dão continuidade a um outeiro que aparenta ter sido criado para dominar o povoado. Vencem assim as fechas aguçadas das palmeiras do seminário São José. A nudez da pedra na fachada evoca os templos gregos da Sicília. A noite, iluminada, a igreja parece feita de madeira ou de um tipo de cortiça ou ainda um gigantesco topázio. O brasão papal fecha com duas chaves as três janelas da fachada e os três pórticos de entrada. Uma chave do sol e outra da lua. Uma de ouro, outra de prata. Uma do poder material e outra do espiritual. Mais acima, uma concha, uma coquille, em vista ventral, expõe uma unitária vala, cheia de águas batismais ou quem sabe do mar da Galiléia. Zela pela unidade do rebanho. No interior, um enorme galo, um mega alector, coroa um altar de madeira corada, ainda inacabado, como a igreja, como a Igreja. Ao amanhecer, o sol ilumina a fachada, do lado esquerdo, como uma entrada entre montanhas. Às vezes, o galo de madeira canta, asseguram os fiéis. No ocaso, o sol ainda ilumina essa fachada, do lado direito. Os sinos dobram obedientes, acima de todas as pedras, e exclamam a quem tem ouvidos para ouvir: Tu és Pedro.

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