TOMAR A CRUZ E ACOMPANHAR


(5/5/1997)

Evaristo Eduardo de Miranda

Eu farei caminho contigo, onde quer que vás… Jesus lhe diz:

As raposas têm covis, os pássaros do céu, ninhos;

mas o filho do humano não tem onde repousar a cabeça. (Lc 9,57-58)

Jesus nunca convidou ninguém para seguí-lo. O tão comentado “seguimento de Jesus” parece inspirado numa leitura equivocada do texto evangélico. A escrita é somente metade do texto. A outra metade é quem lê. E essa outra metade, ao longo de dois mil anos de tradução e tradição, muitas vezes perdeu a polissemia do texto e do contexto.

Os chamamentos do Cristo, sua convocação de discípulos, são frequentemente apresentados sob o império da ordem: segue-me! Na realidade não se trata de seguir, mas de caminhar, fazer caminho com eu. Não se trata do seguir um líder ou capitão de coluna, como em tantas traduções da Bíblia em português. Jesus não ordena submissão, mas convida ao companheirismo.

Seguir evoca submissão. Isso não existe no verbo grego akoloutheo, a palavra keleuthos significa caminho, estrada, rota, trajeto, viagem. Quem vai junto com alguém pela mesma estrada o acompanha, mesma raiz de acólito. Em português acolitar, acompanhar. O verbo grego se opõe a outros verbos que significam caminhar na frente, ir adiante, conduzir (ègumai) ou ainda mostrar o caminho, guiar (archomai)…

Ao longo dos séculos o acompanhamento de um igual no caminho derivou para idéia de submissão, de séquito, de seguimento no sentido de um dignitário acompanhado de seu séquito. Entre acompanhar e seguir a diferença é significativa e as conseqüências espirituais e psicológicas muito importantes.

Ao contrário do seguimento temeroso e submisso, acompanhar vai bem para os dois sujeitos. Duas pessoas caminham juntas. O acompanhar, o fazer caminho em conjunto, evoca a igualdade na dignidade e na liberdade, e não na servidão ou na submissão dos que aceitam um jugo comum. Acompanhar fala do lugar de um com relação ao outro. Como no mito fundador da mulher tirada do lado do homem, no livro do Gênese. Para um casal isso significa que, graças à caminhada de dois seres diferenciados e livres, o um ao lado do outro poderão transformar-se no um com o outro, isso se souberem encontrar um justo caminho na relação. Esse estar juntos, como estar ao lado (acólito) tem algo de sagrado, na estrada e no leito conjugal (coito) (akóloutos e akoitis – Platão). O posicionamento de Jesus na caminhada é como o Deus se situa em relação a Moisés: eu estarei ao teu lado. Caminharei com você. Dois sujeitos, sem sujeição. O bom pastor não anda na frente das ovelhas, anda no meio, ao lado, vai para trás buscar uma desgarrada. Ele não desembesta na dianteira e as ovelhas que se virem. Essa não é a imagem do bom pastor.

O seguir tradicionalmente significa outra coisa, apesar de todo pretenso embelezamento exegético ou retórico entorno do seguimento do Cristo. No seguir, alguém saiu na frente, primeiro. O segundo seguiu. Não é o seu movimento, nem o seu sentido próprio, mas o do primeiro que determina o caminho. A pessoa se entrega a um outro, como um servidor, mudo e servil. Um objeto. E quanto àquele que te torna o lugar do único falante, tão freqüente nos casais, nas amizades, nas comunidades e entre irmãos religiosos? E quanto àquele que tolera que o outro não fale? Poderia ser ele mais sujeito que o primeiro? É claro que não. Nesse caso o Eu não está com o Tu. A estrada está vazia. Nunca há ninguém num caminho onde um é mais que o outro.

Por isso, quem se engaja na via da palavra (filho do humano) se engaja fora de qualquer envelope e casa. Deixa tua casa, tua parentela, teu país e teus deuses e vai para você! É assim que Deus convoca Abraão a caminhar para si. E a promessa a Abraão não foi de um abrigo, nem um lugar, mas “a terra que eu te farei ver”. Jesus não promete segurança, nem estabilidade. Ele nos faz ver. Ver nossa condição de seres prontos a alienação, programados para ter medo, servir e prestar contas. Programados para desempenhar, para competir e incorporar os desejos alheios e os projetos externos. Em Lucas 9, 23, Jesus é claro: Se alguém quiser vir atrás de mim que se negue a si mesmo, tome sua cruz todo dia e faça caminho comigo. Trata-se de um convite a renunciar o desejo de seguir, de vir atrás. Trata-se de um convite a dizer não (arneomai) a esse desejo de escravo, de submissão e alienação. Esse é o convite de Jesus ao desejoso. E não um chamado a submissão e a alienação.

A exegese tradicional virou muitas vezes esse texto no sentido do esmagamento do sujeito. Para seguir alguém é necessário se anular, não existir mais. Nessa linha isso parece bem: desaparecer para que somente aquele que se segue exista. Um convite de negação da autonomia humana. Nada menos compatível com o evangelho da vida plena.

O chamado é para tomar a cruz, levantar sua cruz (airô) no sentido de alçar, erguer do chão, suspender e também levar, arrebatar (tomar uma cidade, uma fortificação) ou suprimir. Quando se toma ou se alça alguma coisa adquiri-se o manuseio, o domínio! A cruz, símbolo da maior derrota, da mais mortal passividade, o ouvinte é convidado a tomar, levantar. Toma o lugar onde você está submetido passivamente à morte. Toma a tua morte nas tuas mãos. Seja o carregador, soberano, triunfante do teu destino de criatura mortal condenada à morte.

O sujeito toma a própria morte na primeira pessoa. Ele toma o destino da criatura, e ao fazê-lo, (dele) escapa. O sujeito instaura a si mesmo. O homem vai da morte para a vida. Espiritualmente é assim e não o contrário, como se pensa. A morte é o primeiro estágio de um processo de diferenciação, vivificação, espiritualização. Jesus recusa a regressão infantil na tentação, o ser carregado nos braços, alimentado e servido. O sujeito chega à vida após o chamado, a recusa desse chamado, a manifestação de seu estado de morto entre os mortos, sua libertação da animalidade/escravidão e sua partida na direção do serviço livre da palavra.

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