TOKONOMA


(23/12/1999)

Evaristo Eduardo de Miranda

Eu vim a este mundo para um julgamento,

A fim de que aqueles que não viam vejam,

E aqueles que viam se tornem cegos.

(Jo 9,39)

Nas casas tradicionais do Japão existe um lugar sagrado, especial. Em geral ele fica na sala, onde são recebidas as visitas. Trata-se de um alvéolo, de um canto ou nicho, destinado a acolher o que a família possui de mais precioso: obras de arte, antigas armaduras de samurais, objetos raros, desenhos eróticos, bonsais, estampas, estátuas, quadros… é o tokonoma. Mas, ao contrário do que imaginaríamos no Ocidente, o verdadeiro tokonoma, é fechado por uma cortina de seda impenetrável, que nunca é aberta. Assim, o essencial fica invisível aos olhos. As visitas chegam, são recebidas com pompa e cortesia. Conduzidas diante do tokonoma, contemplam, sonham e deixam até escapar alguma emoção, diante do tesouro que não se vê.

Ninguém retira a cortina para os hóspedes. A eles é oferecido uma das coisas mais expressivas que possa parecer: uma ausência. Ou mais exatamente, como diz meu carríssimo amigo Gilles Lapouge, com quem tenho percorrido esses dédalos do indisível: trata-se de uma presença manifesta por uma ausência. As obras de arte estão ali, abrigadas pela seda, mas ficam para sempre desconhecidas, impenetráveis, inimagináveis.

Dizem que alguns tokonomas são pura invenção do dono da casa. Diante das visitas, ele faz todo um teatro de palavrório, reverências e sinais de espanto face à cortina de seda, quando na realidade, por detrás, não há nada. O alvéolo estaria desabitado. Alguns talvez se indignem com esta atitude considerada uma hipocrisia. Mas é um gigantesco engano. O mais fantástico dos tokonomas é o tokonoma vazio. Não há nenhuma malandragem ou prática enganosa nesse tipo de atitude, por parte de um verdadeiro anfitrião. Pelo contrário, quanto menos o objeto existe, mais ele é. De ser pura ausência, ele satura tudo de uma presença absoluta. Por ser nada, ele se torna tudo.

Isso choca-se de frente com toda a tradição Ocidental de exibir suas conquistas e maravilhas em museus, salões de arte, exposições ou páginas de internet. Ou, como nas mansões, nos carros e nas coleções individuais dos “emergentes”, forma renovada de designar os parvenus ou nouveaux riches. Esses empórios do fausto e da conquista, armazenam e exibem. Como as jóias penduradas nos pescoços das visitantes, presentes para verem e serem vistas, em sua grotesca materialidade. Algo parecido ocorre com a pantagruélica festa de consumo materialista que abocanha, a cada final de ano, o sentido profundo do Natal, e a qual conseguimos sobreviver, mais uma vez. Talvez por isso, o verdadeiro Natal se torne mais presente e necessário, na ausência neopagã dos presentes bem empacotados.

Enquanto o Japão fala que o real é invisível, ausente, intocável, inimaginável, leve e clandestino, nessas ocasiões e locais, o Ocidente pretende o contrário. Ele aponta a beleza como algo a ser acumulado, conquistado, comido, engolido e digerido, também com os olhos. Para nós, em nosso raciocínio simples e tosco, o que não está, não existe. Gostamos de materialidade, cores, volumes, luzes, coisas bem pesadas, brilhantes, que valem o quanto pesam e que o dinheiro pode comprar. De alguma forma, recusamos que a beleza seja indizível.

Mas existe uma exceção gloriosa na história do Ocidente. Um dos objetos mais nobres de toda sua história e que nós nos preparamos para festejar em 2001, em Campinas: a hóstia consagrada, a carne sofredora de Deus. Ela segue a lei dos tokonomas japoneses. Reside no fundo de um tabernáculo, onde ninguém pode vê-la ou toca-la. Em sua Noite de Transcendência, ela responde às nossas Trevas de imanência. E por isso, nós inclinamos as cabeças e fechamos os olhos, no momento de sua elevação no altar. Sua luz cósmica, infinita e fulgurante nos cegaria. Muito além da fonte da missão e da vida solidária, das torres de Babel ilusórias que nossa pretensa solidariedade humana tenta recriar em torno à ceia do Senhor, a beleza eucarística transborda do vazio, de um lugar que nunca poderá ser ocupado. Há não ser pelo infinito, pois a beleza excede todo e qualquer objeto, ultrapassa qualquer forma. Sua ausência também cega os homens.

Quem experimenta, sabe. É o que dizem todos os místicos. No Carmelo de Barão Geraldo, as monjas carmelitas contemplativas transbordam de vida, na experiência do Vazio. Diante de uma placa de bronze, perdida em meio à relva de um cemitério, uma amiga – como tantos outros – contempla o esplendor do seu tokonoma, neste início de 2.000. Quem reserva em sua vida um lugar para o Mistério, vive no extra-ordinário. Fora do delírio da onipotência ou da ilusão da onisciência. Dentro da poética convivência dos viventes. E disso nós temos provas, cotidianas, na riqueza dos caminhos indecifráveis de nossas vidas e de nossa Igreja.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Tokonoma. A Tribuna, Campinas – SP, 2000.

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