TODA VIDA TEM SENTIDO?


(4/4/2011)

Evaristo Eduardo de Miranda

O que será dessa criança?

Lucas 1,66

Uma criança deficiente, um feto mal formado, um recém-nascido doente de forma crônica ou um bebê que perdeu grande parte de sua capacidade mental e motora em um acidente de parto não correspondem às expectativas e aos critérios sociais de sucesso e de eficiência.

Sua autonomia será limitada, sua comunicação restrita e suas relações sociais mínimas. Essas crianças não terão acesso a uma existência normal, marcada por estudos, profissão, emprego, autonomia financeira e econômica, capacidade de fundar uma família e de tomar decisões independentes em diversos assuntos fundamentais.

Será que sua vida valerá a pena de ser vivida? Qual será o seu futuro? Como poderá ser feliz e realizar-se? Vale a pena deixá-lo vivo? Como no evangelho, as pessoas se interrogam: O que será dessa criança? (Lc 1,66).

Tentar afastar o sofrimento e a infelicidade da vida de um filho é algo que qualquer mãe ou pai fariam. Mas existe um abismo entre afastar a infelicidade e afastar a vida. Certamente a maioria das pessoas que matam seus bebês e suas crianças não o faz de má fé e sim por cegueira. A cegueira de ter uma criança perfeita e de satisfazer uma série de desejos individuais e sociais dos mais contraditórios. Ninguém pode transformar todos os seus desejos em direitos.

Toda vida é única, singular e preciosa. As Sagradas Escrituras estão repletas de referências nesse sentido: Antes que no seio fosses formado, eu já te conhecia. (Jr 1,5); Você tem valor aos meus olhos (Is 43,4) ou ainda Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes (Mt 25, 40). Nossos irmãos fragilizados têm uma vocação particular que dá um sentido às suas vidas.

Toda vida está exposta ao sofrimento, à infelicidade e à morte. Desejar uma vida sem sofrimento é desejar o fim da espécie humana. Antístenes, o filósofo grego mestre de Diógenes, sofria de grave enfermidade. Diante de dores atrozes, um dia ele indagou a seus discípulos: O que me livrará de meus sofrimentos? Diógenes tirou imediatamente um punhal de sua toga e disse:- Isto, mestre. Então, Antístenes respondeu: – Eu disse de meus sofrimentos, não de minha vida.

A verdadeira grandeza do homem é sempre trágica. Como diz F. Hadjadj, a grandeza do homem está em atravessar a infelicidade e os sofrimentos, em testemunhar de uma esperança e de um amor mais fortes do que a morte, de encontrar uma alegria que não se esquiva da cruz, mas que a assume. É a única forma de estar absolutamente do lado da Vida.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Toda Vida tem Sentido? A Tribuna, Campinas – SP, p. 15 – 15, 2011.

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