TER E SER CORPO


(17/7/1999)

Evaristo Eduardo de Miranda

Nossa época sente-se estimulada a explorar o mistério da corporeidade, assim como outras exploraram o da espiritualidade. São muitos caminhos e possibilidades. A verdadeira iniciação corporal deveria levar a viver o Espírito com o corpo. A compreensão do simbolismo do corpo, na tradição judaico-cristã, pode ser um instrumento para compreender melhor seu dinamismo, sua inteireza e seus caminhos únicos de comunicação com o divino, segundo o que o Mistério der a conhecer a cada um, segundo o estado evolutivo de cada um. Não o fazemos porque temos um corpo, mas porque somos corpo.

Na perspectiva judaico-cristã, apesar dos séculos de desvios, enganos e absurdos corporais, a reapropriação do corpo não é uma operação redutiva, porém integrativa e potencializadora. Numa relação equilibrada com o corpo, este não é um bem de consumo a mais, como é proposto por tantos movimentos e vias alternativas. O bem estar do homem, seu estar bem, depende de um ser bem, ser mais. A reapropriação do corpo é um processo de hominização. Também exige uma investigação antropológica, no sentido mais amplo do termo. Quem pratica meditação, yoga, busca estabelecer esses vínculos abrangentes do ser com o corpo, vive seu corpo. Quem treina numa academia, faz exercícios regulares e até intensos, mantém a máquina em dia, cuida do seu corpo. Existe uma diferença fundamental entre viver o corpo e cuidar do corpo, mesmo se essas realidades não são totalmente excludentes.

Para viver o corpo é preciso superar o absurdo corporal. Etimologicamente, absurdo, ab surdus, significa estar surdo, e aqui, estar surdo à sacralidade do corpo. Feito a imagem e semelhança de Deus, o corpo humano é postulado desde o princípio do texto bíblico como um território do sagrado (Gn 1,26). Não se trata apenas de um monte órgãos, vísceras, fluídos e funções. Na tradição judaica e cristã, todas as partes do corpo humano são hipostasiadas e dotadas de atributos psíquicos. Cada parte do corpo humano leva em si mesma uma consciência do verdadeiro Eu e de sua unidade. Em cada corpo uma Pessoa, única e irrepetível, ícone divino, criado ao som do Verbo e na ressonância do seu Nome. Não ficar como surdos.

O corpo sofre nos dias de hoje uma violenta dessacralização, tratado como mercadoria e objeto de consumo. Esse processo leva à anarquia corporal. A anarquia corporal não evoca nenhum baile funk ou o desfile de algumas escolas de samba. Etimologicamente, anarquia, an arché, sem arquétipo. Microcosmo e macrocosmo, na experiência existencial humana unem-se o céu e a terra. O homem é por natureza, ontologicamente, imagem divina e cosmológica e as verdadeiras tradições religiosas são caminhos para chegar-se a plenitude dessa revelação.

Privado da força e da energia de seus “arquétipos”, o homem vive na confusão, na desordem, na negação dos princípios fundadores, na separação do divino, na anarquia (an arché), sem arquétipo. Cortar o homem de seus arquétipos é condená-lo a uma crônica enfermidade física e metafísica. Nossa vida é regida por leis ontológicas e todo ser vivo é a incarnação de seus arquétipos. Todos são chamados a conhecer e reconhecer essas leis, inscritas na tábua de nossos corações e na linguagem sutil de nossos corpos.

Nisso reside a verdadeira sabedoria para superar a anarquia e o absurdo corporal: descobrir a riqueza do que vem de dentro para fora, ao contrário do conhecimento exterior penoso, que vem de fora para dentro (como no caso da medicina). O corpo é um sacramento do amor de Deus.

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