TEMPO DE PLANTAR


(20/7/2008)

Evaristo Eduardo de Miranda

Setembro marca do fim do inverno. Chegam as chuvas. Acaba o período seco, a poeira e as queimadas. Os agricultores plantam suas terras. Eles não plantam grãos e sim, sementes. Um grão de arroz ou de feijão, mesmo quebrado ou partido, serve de alimento. Pode ser cozido e comido. Mas não presta para o plantio. A semeadura pede sementes, selecionadas. Também era assim no tempo de Jesus.

O evangelho de Mateus relembra uma parábola, um mashal, um exemplo de Jesus, como se diz em hebraico. O verbo mashal evoca dominar. A parábola é uma arte de dominar uma situação ao fazer um relato à maneira de uma alegoria, de uma anedota, para apreender melhor a situação e a posição de cada um. O mashal é um exemplo terrestre veiculando um significado celeste. As trinta e duas meshalim ou parábolas dos evangelhos constituem um gênero literário sem paralelo.

Na parábola do joio e do trigo, após o plantio da boa semente, vieram uns inimigos e semearam ervas daninhas no mesmo terreno. Quando as plantas cresceram juntas, alguém propôs de arrancar as ervas más. Para o Senhor das terras, o tempo não era de colheita. Para o bem e a proteção da boa planta, era melhor deixá-la ao lado da má. E as deixou crescerem juntas. Na colheita, elas seriam separadas, e teriam destinos diferentes (Mt 13,24-43).

O mundo não pensa assim. Para muitos, a Igreja deveria ser um local destinado a gente santa e sadia. Pecadores deveriam ser expulsos. O Papa e seus bispos são tolerantes demais. Existe muita seita que pensa e age assim, exercendo seus critérios humanos de santidade e expulsando fiéis por terem participado de um baile de carnaval. Para outros, a Igreja está repleta de pecadores, infiéis e idólatras. O Papa e seus bispos são intolerantes e dogmáticos. É um antro de pedófilos, inquisidores e hipócritas. A Igreja deve ser denunciada e atacada impiedosamente, em todo o tempo e lugar.

A Igreja não é um hospital para gente sadia. Nem um refúgio de bandidos. Ela tenta imitar Jesus e acolhe a todos sem distinção. Para curar suas feridas e torná-los cada dia melhor. Ela reconhece seus erros. Pede perdão. Não confundo o pecado com o pecador. Quanto pecado e quanta santidade na história milenar da Igreja católica! Quanto pecado e quanta santidade em horas ou minutos de nossa vida.

O ser humano é complexo. Não é possível classificar o mundo entre bons e maus. Todos têm essas duas dimensões e tantas outras. Jesus não expulsou Judas, nem Pedro, de seu rebanho. A vida em comunidade de fé levou Pedro a crescer na bondade e a superar seus limites e iniquidades. Jesus recusa julgar, como no episódio da mulher adúltera (Jo 8,11).

O tempo não é o do julgamento. A linha divisória entre o bem e o mal, entre a salvação e a condenação não passa entre classes sociais, nem divide raças, religiões, pobres e ricos ou partidos políticos. Ela atravessa os corações humanos. Ainda não é chegado o tempo da colheita. O tempo é de primavera. As chuvas da misericórdia infinita de Deus abençoam e tornam a terra fértil. É sempre hora de plantar a boa semente. Cuidemos para que nenhum grão fique fora do celeiro do Senhor.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Tempo de plantar. A Tribuna, Campinas – SP, p. 13, 2008.

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