TEMPO DE LUZ


(23/10/1996)

Evaristo Eduardo de Miranda

Quem perde um ente querido ou encontra-se na eminência de perdê-lo, vive com intensidade a consciência da morte e do fim. Os finados chegaram ao fim e foram ceifados no seu tempo. O feno é a erva ceifada e seca. Ela serve de alimento aos animais em períodos difíceis de inverno ou seca. Na Bíblia, o homem é comparado frequentemente com a erva do campo (Is 40,6-8). Finar e fenar são palavras com origens parecidas. Feno vem do grego phaíno e quer dizer brilhar, aparecer. Por isso epifania evoca manifestação, luz do alto que nos veio visitar. A reluzente lâmina da morte não apaga os finados, apenas os igualiza diante das leis da natureza.

A foice simboliza os ciclos das colheitas e da renovação. Na colheita corta-se o caule que, como um cordão umbilical, liga o fruto à dependência da terra alimentadora. A colheita é o grão condenado à morte para servir de alimento, sustentando a vida, ou para germinar como semente. Sinal da progressão temporal e individual, a foice da morte brilha na noite de nossas vidas, como lua crescente que nunca declina. O poeta árabe Ibn-al-Motazz, designa a lua crescente como “a foice de ouro no campo das estrelas”.

Por isso os católicos acendem velas ao lado de seus mortos: para lembrar que eles não se apagaram. Os santos nos lembram que, durante a vida, cortaram com a foice da consciência as ilusões do mundo e seus próprios egoísmos. Seus exemplos de vida os fazem brilhar, na lembrança dos que amaram e os amaram (Hb 13,7). A claridade de seus exemplos brilha como estrelas e ajuda os vivos a atravessar períodos desfavoráveis, alimentando-os de sua luz, de seu feno de luz – estocado nos corações. Neles, a luz trêmula da vela do batismo brilhou com toda a sua hesitação e beleza. Eles não viveram apagados, fizeram um trabalho de luz. Sua memória é um facho, um feixe de luz. Finados é um dia de acender velas e de buscar a harmonia interior.

No dia de finados é bom visitar os cemitérios, limpar e ajeitar os túmulos, acender uma vela na igreja ou em casa, pronunciar uma oração, fazer um minuto de silêncio (pelo menos!) e meditar… As crianças órfãs crescem com a memória viva de seus pais, mortos. Os adultos, com o passar dos anos, do tempo, vão colecionando os seus mortos. A partir de certa idade, todos passam a ter seus mortos. Na velhice, todos se tornam órfãos. A ritualizar os mortos é terapêutico. Eles são a presença de uma ausência e não ausência de uma presença. A prática desses ritos profanos e sagrados dá outra perspectiva ao tempo. Existe um tempo para tudo (Ec 3,1-2).

Para os cristãos, os mortos no seio da Igreja saem da comunidade eclesial terrena para a comunidade celestial transcendente. Saem de nossas mãos para serem acolhidos pelas mãos misericordiosas do Pai. No rito das exéquias, familiares e amigos entregam seus falecidos em melhores mãos do que as suas. Na morte e no sepultamento, o cristão compartilha a páscoa do Cristo. Ao velar e enterrar seus mortos, os cristãos revivem fisicamente a sexta feira e o sábado santo enquanto aguardam, com esperança, o domingo da ressurreição. O ritual das exéquias trata poeticamente e simbolicamente do tema da perda e da restauração da individualidade, na ótica da fé.

Na sociedade atual, a morte tornou-se assunto inconveniente. Até para o maior interessado, o agonizante, a quem muitas vezes oculta-se a real gravidade de sua situação. Cada vez mais, a agonia final acaba sendo vivida longe da família e dos amigos, dentro de uma unidade de terapia intensiva hospitalar, marca de anonimato e solidão. Os funerais estão sendo realizados mais rapidamente e de forma vazia e despojada. Hoje em dia tem-se a impressão de participar de um delito. Os mortos são escondidos, como se fossem uma vergonha ou um incômodo. Os velórios já são realizados no próprio cemitério. Em poucas horas. Quase sem nenhum ritual. Da forma mais discreta e antisséptica possível. Como se o defunto fosse foco de um perigoso contágio e devesse ser eliminado o quanto antes.

As honras fúnebres variam entre as culturas, mas sempre existem e deveriam ser cultivadas. Se uma cultura perde a capacidade de honrar seus mortos é porque já não sabe honrar os vivos. Os mortos são honrados das mais variadas maneiras: presença ao funeral, coroas de flores, elogios fúnebres, orações, beleza do ritual, poesias, arquitetura do túmulo, assinaturas nos livros de condolências, epitáfios, pessoas presentes, aplausos… e nos finados. Como sementes de humanidade, os mortos estão plantados e disseminados nos mais diversos lugares. Os cristãos regam essas sementes com suas lágrimas e esperam sua germinação na ressurreição.

Honrar é um gesto que nobilita quem recebe e quem oferece. A sabedoria popular afirma o óbvio: uma das únicas certezas absolutas de nossa vida é a de morrermos. Só não morre, quem não nasceu. Mas a eternidade começa aqui e agora. Nossa vida não é uma antessala da morte. O passar dos anos anuncia o prometido a todos e para sempre: a possibilidade de evolução pessoal a cada ano, o reinício perpétuo, a morte e o renascimento nesta vida. Isso pode realizar-se em cada um, em nossos familiares e amigos. Os finados nos lembram: não se trata mais de viver somente a inevitável passagem do tempo, as idades e o envelhecimento. O tempo – quarta dimensão do humano – pode ser um tempo de consciência, um tempo de graça, de iluminação, vida plena e salvação (kairós).

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