TAMARA: O DEDO DE LUZ


(5/2/1997)

Evaristo Eduardo de Miranda

O nome Tamara significa palmeira. Mais exatamente, Tamara evoca a palmeira Phoenix dactylifera, a tamareira. A tâmara é um dos frutos mais saborosos e caros do mundo. Infelizmente em nossos supermercados só chegam tâmaras da Califórnia, tratadas industrialmente e caramelizadas (além de conter alguns conservantes). É difícil achar a verdadeira fruta do deserto, luminosamente transparente à luz. Como um dedo de luz. Em árabe, a palavra tâmara significa realmente dedo de luz (douglat nour), lembrando a forma e a transparência luminosa dos frutos da tamareira. Como a doce menina Tamara, três anos, especial, dedo de luz, na noite de sua família e amigos, fruto precioso da Graça de Deus.

A árvore da tamareira cresce em oásis, no meio dos desertos. Ela gosta de ter “a cabeça no fogo e os pés na água”, nos dizeres dos povos do norte da África e do Oriente Médio. Beleza e grandeza, isso é e será a marca da nossa querida Tamara, como no Cântico dos Cânticos (7,8). Acolhida no oásis do amor de seus entes queridos, em meio a tanta aridez e tristeza mineral das desérticas vidas humanas. Esguia e altiva, a palmeira representa o elevar-se para Deus e a capacidade de produzir frutos em condições adversas. Como nossa terna Tamara, chamado de ascensão para todos, caminho de inocência, seiva de vida alimentada na água fresca dos regatos imaginários do salmista Davi e sonhada pela samaritana no poço de Jacó. À sua sombra, os familiares e amigos abandonarão muitos apetites ilusórios e serão saciados.

Em latim, o nome científico da tâmara, como espécie vegetal, relembra a forma de dedo dos frutos: dactylifera. Os dedos compõem na mão um dos mais belos exemplos de unidade na diferença. Abençoada seja a alteridade da nossa especial Tamara, semente divina plantada na terra dos viventes. Ela crescerá e florescerá em nossas praças. Sinal do toque divino, da mão de Deus em nossos destinos, como benção e graça. O dedo de luz e o dedo de Deus são a mesma coisa! Mas nome latino do gênero da tâmara, Phoenix, evoca também esse pássaro maravilhoso e mitológico, símbolo alquímico da ressurreição, do ressurgimento após as piores provações, a fênix. Capaz de renascer de sua própria essência, de suas cinzas.

São folhas de palma, da tamareira – uma das únicas palmeiras nativas da região palestina – que aclamaram, como glórias vegetais, a entrada do Cristo em Jerusalém, antes de sua Páscoa. Assim, a nossa Tamara é um grito de aclamação e de vida. Proclamação angélica em nossa comunidade. Levada nos braços de seus entes queridos, agitada como um ramo, ela me faz pensar na promessa do profeta Isaías: “Ele não rompe a palha quebradiça, nem apaga a chama vacilante.” Calamum quassatum non conteret, linum fumigans non extinguet…(Isaías 42,3). A chama de cada um, por menor que seja, representa muito para o caminho do outro. Todos nós viemos ao mundo como chamas e, por nossas vidas e mortes, podemos acender, ou melhor, re-acender o fogo vital, uns dos outros. A nossa pequena Tamara é essa centelha que pode incendiar tudo. Acender lembra também o ascender para Deus,

Na natureza a palmeira cresce devagar, bem devagarinho. No começo, ao germinar, ela é ultrapassada pela erva daninha, pelo capim, pela macega. Dá a impressão e o temor que ficará para trás. Mas ela segue crescendo, e aos poucos emerge, e suplanta tudo e todos. Emerge altiva e lançando sua cabeça rumo ao céu, acima do capim apressado, do pasto pisoteado, dos arbustos que florescem um só dia. Assim será a nossa querida Tamara.

O evangelho de Mateus menciona quatro mulheres na genealogia de Jesus: Tamara, Raquel, Rute e Betzabé. Suas vidas fazem sonhar os poetas, muito mais do que os teólogos. Elas nos mostram – por suas vidas – os estranhos caminhos do Deus que vem caminhar conosco ou ainda o perpétuo combate de um homem ansioso de se sentir escolhido e justificado diante de Deus A lenda de Tamara é de uma grande beleza (Gn 38). Ao terminar sua leitura a gente dá graças a Deus dela ter existido. Pela sua coragem, pela sua determinação e orgulho. Mesmo que ela tivesse sido queimada viva pela sociedade, pela doutrina sacerdotal de Israel, mesmo que nós não tivéssemos tido um Messias na sua descendência, a vida lhe daria razão! A vida ficaria do seu lado. Ela é o exemplo das pessoas que contra tudo que se opõe a elas, ousam viver na plenitude, o mais intensamente possível!

Nós damos graças a Deus pela Tamara, pela sua doçura e luz, pelo amor de sua família, por aqueles que guiam suas condutas não pela Lei, pelo Direito, pela Moral, pela Razão, mas pela palavra mesma de Jesus Cristo: “o que fizestes a um destes mais pequenos, foi a mim que o fizestes”. (Mt 25,40)”

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