TABOR


(11/5/2006)

Evaristo Eduardo de Miranda

A liturgia pascal bizantina diz: no Monte Tabor, não foi Jesus quem se transfigurou. Foram as escamas que caíram dos olhos dos apóstolos. E eles viram, enfim, diante de quem estavam. Jesus era sempre Jesus. Eles é que não o enxergavam plenamente. Ao descer do Monte Tabor, a capa de argila retomou seu lugar e seus olhos deixaram de ver o extra-ordinário para voltar a enxergar o ordinário. Mas seus destinos estavam centrados.

Em hebraico, a palavra Tabor significa umbigo e na sua raiz está o bem e o bom, tob. Para deixar-se ver, Jesus não subiu na montanha do sermão, nem na do coração, das Oliveiras, do ódio (Sinai), do lagar do azeite (Getsemani), do crânio (Gólgota) etc. Ele subiu na montanha central do umbigo.

O umbigo é uma marca indelével no centro de todo ser humano. Ele evoca o vínculo com a placenta matriciadora, no centro da matriz abdominal. O umbigo é o lugar do nosso primeiro ferimento formal, do primeiro corte, da primeira cisão com a fonte de vida maternal. Ele é um símbolo de separação e convergência, de afastamento e retorno as origens e também de irradiação nas quatro direções, a partir de um centro único.

A famosa representação de Leonardo da Vinci da figura humana perfeitamente inserida num círculo e num quadrado tem como centro exato do conjunto o umbigo. É no monte Tabor, no umbigo ou no eixo da roda que Jesus manifestou – através da transfiguração – a sua origem divina e a sua união matricial e íntima com o Pai. O umbigo é o erótico lugar das teofanias, do encontro consigo e com Deus. “Teu umbigo é uma taça em meia lua: não lhe falte o licor” (Ct 7,3).

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Monte Tabor. A Tribuna, Campinas – SP, v. 97, p. 11, 2006.

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