SÉRVIOS E GAFANHOTOS


(12/4/1999)

Evaristo Eduardo de Miranda

Desgraças nunca chegam sozinhas. No seio do drama vivido pelo Kosovo, geram-se outras tragédias inimagináveis, inclusive ecológicas. Como nas pragas do Egito, os gafanhotos também preparam suas tropas para intervir no conflito. Trata-se do terrível gafanhoto italiano. Seu nome científico é Calliptamus italicus, fácil de reconhecer por suas enormes patas traseiras Da Albânia ao Cazaquistão, passando por países como a Geórgia, ainda recentemente ele cobrou um preço elevado por seus ataques: destruiu lavouras, arruinou camponeses, desequilibrou o balanço alimentar e as economias locais, além de ter causado muito impacto ambiental, devido aos tratamentos com pesticidas. É como se a estrada pagasse um pedágio para cada veículo de passagem.

Nos Balcãs começa a primavera. Os ovos desses gafanhotos, colocados aos milhões nos campos cultivados durante o verão passado, deveriam estar sendo destruídos pelo trabalho de aração da terra. Trata-se de um equilíbrio secular entre o homem, a agricultura e o meio ambiente. Normalmente, apenas uma pequena parte desses ovos chega a dar origem a grupos de gafanhotos. Algo parecido ocorre na região da Chapada dos Parecis, no Mato Grosso, com um outro gafanhoto-praga, o Rhammatocereus schistocercoides. Apesar dos alarmes de ecologistas mal informados que acreditavam que os ataques desse gafanhoto era fruto da expansão da fronteira agrícola, a pesquisa científica verificou que o maior inimigo dessa praga na região, ainda é a agricultura, sobretudo a moderna.

Mas este ano é diferente nos Balcãs. O silêncio reina na até então densamente povoada zona rural de Kosovo. Nem os tratores, nem os animais estão arando. Eles transportam pessoas aos milhares e são deixados estacionados na fronteira. O solo que deveria cobrir-se de plantações de cereais e leguminosas repousa, sacudido por explosões esporádicas. Nesse ambiente favorável ao inseto, a eclosão dos ovos do gafanhoto italiano será muito grande. Ao nascer, eles encontrarão muitas ervas daninhas para comer. Os inseticidas, que também reduziam sua população, não estarão sendo aplicados em culturas hoje inexistentes. Será um verão de alta fertilidade para as fêmeas e o número de ovos e posturas vai crescer exponencialmente.

Em conflito ou em paz, a primavera do ano 2000 chegará com muitos problemas para as populações do Kosovo, inclusive para os sérvios que por lá permanecem. Para quem estuda a biologia e a ecologia de gafanhotos não é difícil prever uma pululação ou uma explosão de bandos e nuvens desses gafanhotos, com todo seu arsenal de destruição. Os inimigos naturais não estarão em medida de enfrentar um crescimento de gafanhotos dessa magnitude. Tudo isso já ocorreu na Albânia, há alguns anos atrás, quando o fim da ditadura do camarada Ever Hoxa e a guerra civil levaram ao abandono temporário das áreas agrícolas e a redução das superfícies plantadas. Tudo indica que a história vai repetir-se, como um castigo dos deuses à irracionalidade dos humanos.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Praga Prevista – Sérvios e Gafanhotos. Jornal do Cormercio, Recife – PE, p. 10, 1999.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Praga Prevista – Sérvios e Gafanhotos. Jornal de Vinheido, Vinhedo – SP, p. 26, 1999.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Praga Prevista – Sérvios e Gafanhotos. Todo Dia, Americana – SP, p. 2, 1999.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Sérvios e Gafanhotos. Tribuna de Itapira, Itapira – SP, p. 2, 1999.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Sérvios e Gafanhotos. O Correio de Atibaia/SP, Atibaia – SP, p. 2, 1999.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Sérvios e Gafanhotos. Gazeta Mercantil, CPS, Jundiaí, Sorocaba – SP, p. 2, 1999.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Sérvios e Gafanhotos. Correio Popular, Campinas – SP, p. 3, 1999.

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