SER INTEIROS


(29/3/1993)

Evaristo Eduardo de Miranda

Em que medida Deus nos quer puros, luminosos ou santos? Antes de tudo Ele nos quer inteiros e nos ama como somos. Muitos católicos, e particularmente as pessoas das seitas pentecostais ou sob o jugo de falsa moral ou doutrina espiritual, buscam e vivem terríveis ideais de mortificação. Deus estaria lhes exigindo um comportamento de busca absoluta da “pureza”. Tudo o que não for claro, luminoso e radiante em seus espíritos e corações deve ser extirpado e jogado fora. As vezes também, acontecimentos inesperados em nossas vidas, tragédias pessoais e familiares, acidentes etc são vividos, inconscientemente, como frutos de nossa culpa. Não, essas exigências, nada evangélicas, ao invés de salvar, levam a um caminho de extrema miséria, mutilações e infinitos sofrimentos longe do amor de Deus.

Deus nos acolhe e nos ama como somos. Em primeiro lugar Ele nos quer inteiros. Com nossos lados claros e escuros, com nossos êxitos e fracassos, nossas coragens e nossos medos, nossas ambigüidades e certezas, nossos maus cheiros e perfumes, nossa fé e nossas dúvidas. Ele não nos ama de forma calculista ou antisséptica, mas integral e sem condicionantes: tristes e alegres, certos e errados, corajosos e preguiçosos, masculinos e femininos, ambivalentes e polivalentes. Se um filho, toda vez que apresenta ao pai seus problemas e dificuldades, é duramente reprimido, qual será sua atitude? Omitirá cada vez mais os aspectos criticados e recusados em sua vida. Buscará cada vez menos o diálogo com o pai. Até por uma ilusória tentativa de não “perder” o pai, de não decepcioná-lo ou ser rejeitado. Não podemos ser assim com Deus nosso Pai.

Essa mesma e triste dinâmica acontece entre amigos e casais. O que não pode ser verbalizado, discutido ou falado é omitido e fica escondido. O silêncio torna-se uma pendência, um peso a suportar, um pesar. Transforma-se num freio e bloqueia outras trocas e diálogos. Essa falsa preservação, embalsama e congela, gerando vidas e relações mumificadas. Afasta-nos de Deus e dos irmãos quando nossa salvação é confiar Nele.

Por isso, o que não conseguimos dizer ao outro, à esposa, aos amigos, a nós mesmos, devemos dizer a Deus. Começando por um ato de revisão e culminando no sacramento da confissão. Basta considerar o quanto hoje em dia é difícil encontrar alguém disposto a morrer por uma causa nobre ou mesmo na defesa de um justo ou inocente. Ninguém arrisca sua vida, nem por um justo ou inocente! Ora Jesus morreu pelos pecadores, pelos culpados e pelos injustos. Esse Cristo, do paradoxal perdão, nos ama como filhos e irmãos. Talvez por isso um dos mais belos e preciosos sacramentos da Igreja é o do perdão e da confissão. A confissão abre ao católico a possibilidade de se colocar inteiro diante de Deus, com seus lados claros e escuros. E não de forma mutilante, que leva a esquizofrenia, em que o indivíduo nega sua própria realidade.

Em certas religiões ou crenças, a pessoa se nega e renega no que tem de mais íntimo. Como se pudesse cortar ou mutilar uma parte de si sem nenhum prejuízo. Buscam explicações no passado, em outras encarnações, no demônio e, diante do enigma, transformam a própria pessoa vítima do absurdo e do destino. As coisas não são assim para os cristãos.

Sem nenhum voluntarismo, nem negando outros caminhos, na Igreja Católica somos convidados a dialogar com nossos lados escuros, através da confissão e do perdão a nossos irmãos (Jo 8,1-11). Como Jesus tentado no deserto, sentamos e dialogamos com nosso lado tenebroso (Mt 4,1-11; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13). Somos convidados a encarar de frente nossas fraquezas e as de nossos irmãos. Somos levados até a acariciá-las. Na confissão o indivíduo se apresenta e se assume inteiro diante de si mesmo e de Deus (Mt 3,6). Aceitamo-nos como somos, mas não nos acomodamos no que somos. Podemos assim, buscar a harmonização de nossas diversas dimensões, inclusive das formas mais paradoxais. Pela confissão, diante de Deus, tudo pode ser digerido, transformado e harmonizado dentro de nós. Mesmo os eventos mais traumáticos, pois através deles, Deus também fala conosco e nos chama para as coisas essenciais.

Diante do padre, hesitando ou balbuciando, falando ou liberando um jorro de palavras, verbalizamos conscientemente nossa realidade. Por isso, pela confissão “auricular”, o católico pode e deve evoluir, aperfeiçoar-se e santificar-se (Jo 20,23; Mt 16,19). A verbalização ajuda a desatar os nós e as tramas arquivadas no inconsciente. O caminho é confuso, mas o primeiro passo é o da aceitação de si mesmo, a aceitação dos fatos da vida e da vontade de melhorar. A revisão de vida é fundamental no ato da confissão. Muitas vezes quando pensávamos avançar, estávamos recuando. Outras vezes, quando tudo parecia parado, aí é que avançávamos. O arrependimento deve levar quem confessa, se pertinente, a reparar o dano que causou – dimensão número um do arrependimento, como Zaqueu (Lc 19,8). Mas também deve levar a superação progressiva das faltas e pecados pelo crescimento interno, pela consciência e conhecimento de si, pela harmonização de todas nossas dimensões (Lc 7,36-50) e pela misteriosa ação da Graça.

Nas igrejas o sacramento da confissão e do perdão tem perdido terreno. Muitos católicos viam naquilo um negócio, um tribunal ou um simples rito para poder comungar. É uma pena. Seu valor é inestimável. Na confissão Deus opera miraculosamente em domínios insuspeitáveis de nossa vida terrena. Nos ajuda a superar dificuldades e abismos onde a vida, por vezes, nos lança violentamente. Contra os radicalismos e complexos, o ato de confessar leva o desafio, a cada um, de trazer à luz todo o seu eu. Trazer à luz é também elucidar. Sem omissões, nem negações. Reconhecer-se inteiro diante do Deus que é Trindade, diversidade e unidade. Sacrifícios, mortificações são ainda o caminho do ego, do eu, do ser que se crê poderoso. Engano, não lute mais consigo mesmo. Nosso Deus não luta com Ele mesmo, como em certas concepções protestantes ou islâmicas de um solitário senhor em luta com o demônio. Como diz um amigo: felizmente nós temos a Trindade. Ela se mira e se reflete, como num espelho de diamante. Em nossa viagem interior somos convidados a ir ter com o que há de mais escuro e esquecido – ou reprimido – dentro de nós mesmos (Lc 15,17). E nesse caminho a confissão é algo maravilhoso.

Pela confissão obtemos avanços e resultados inesperados. Liberamos energias positivas acumuladas e subtilizadas. Desatamos nós. Depositamos nossas cargas e encargos. Lançamo-nos aos braços de Deus como um bebe no seio da mãe. Cobrimo-nos da Graça de Deus. Dou testemunho pessoal, com o risco que se corre hoje em dia nessas coisas, que pela confissão, muito além das conquistas pela razão, obtive Graças inesperadas. Absolutamente inesperadas ou calculadas. Deus nos sacramentos, misteriosamente, sempre derrama seu Espírito (Lc 15,7).

Certos ou errados, na confiança de seu Amor, busquemos o perdão e a prece. Para quem ama, todo tempo é tempo de quaresma e de salvação interior. O perdão dado e santificado pelo padre é possibilidade de ressurreição pascal. Muitas dimensões preciosas de cada um vão sendo sepultadas e enterradas ao longo do nosso dia-a-dia. Muitas morrem e apodrecem. Chegam até a cheirar mal. Mas quem vive e crê Nele, ainda que esteja morto viverá. Deus nos dá a Vida e nos traz à Luz, mas para isso temos nosso livre arbítrio. É preciso falar e clamar. Saber e querer. Perdoar e ser perdoado. A Graça de Deus não só nos perdoa mas também nos restaura. Nosso vaso, partido nas quedas terríveis desta vida, é refeito nas mãos de Deus. Não colado, cheio de emendas. Deus nos dá um vaso novo, respeitando nossa natureza. E se alguma cicatriz nos resta, aprendemos a acariciá-la. Lembrando o corte que a causou e que também tudo passa, menos o nosso Deus. Por isso devemos sair de nossas cavernas e grutas pessoais, de nossos abismos e purgatórios, cientes de que somos maiores do que tudo que possa haver acontecido. No amor de Deus, o que estava morto volta a vida (Lc 15,32). Os esqueletos recobrem-se de nervos e músculos. Novos seres levantam-se e andam (Ez 37,1-10). O Sopro da Vida areja tudo, e faz nascer e renascer.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A confissão como caminho de libertação. A Tribuna, Campinas – SP, v. 90, p. 6 – 7, 1999.

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