SEMPRE É TEMPO DE RESSURREIÇÃO


(24/9/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

Ao visitar o cemitério no dia de finados, as pessoas honram a memória de seus falecidos. Os mortos os antecederam na passagem para Deus. Eram amigos e amigas, pai, mãe, avós, esposo, esposa e mesmo filhos e filhas. A visita aos túmulos é feita em clima de oração, respeito e meditação. A morte dessas pessoas queridas lembra a morte de cada um, a inevitável passagem à eternidade. Nos Finados, especialmente, os católicos e a Igreja celebram sua certeza da ressurreição dos mortos.

Jesus, como os profetas, trouxe à vida algumas pessoas falecidas. Mas, a ressurreição celebrada hoje vai além desses episódios. Na pessoa de Jesus, Deus tomou carne mortal para lutar e vencer a morte (2Co 5,14). Na cruz, a morte atacou Jesus, devorou-o como fazia com todos os mortais, mas não pode absorvê-lo porque nele havia Deus! Assim, ela foi morta. Os católicos proclamam na liturgia pascal: morrendo, ele destruiu a morte. Ele provou a morte em benefício de todos (Hb 2,9). A sua ressurreição será a nossa.

Jesus disse: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. Todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá (Jo 11,25). A questão é central e decisiva para os cristãos. Jesus existiu no passado. Para existir hoje, entre nós, isso dependia da sua ressurreição. Se ela fosse uma revificação como a de Lázaro (Jo 11,1-44), do jovem de Naum (Lc 7,11-17) ou da filha de Jairo (Mc 5,22-24.35-43), nada teria mudado. Os Evangelhos deixam claro: a ressurreição de Jesus foi uma passagem para um gênero de vida totalmente novo.

A vida do cristão não está mais sujeita à lei da morte, mas situada numa nova dimensão, uma nova forma de ser homem. Não tema a morte. No dia de Finados não festejamos a morte e sim a ressurreição. Jesus foi o primeiro, o primogênito desse novo gênero futuro aberto para todos. A ressurreição de Jesus Cristo é um acontecimento universal ou não existe, disse S. Paulo.

Nascemos para poder morrer, dizia São Gregório de Nissa. Para completar nosso nascimento e crescimento como filhos de Deus. A morte nos leva a penetrar no coração do mistério pascal cristão. E nossos irmãos falecidos já tiveram esse encontro com Deus.

Na vida um tempo para tudo! Para os católicos, no dia de Finados é bom visitar os cemitérios, limpar e ajeitar os túmulos, plantar flores, acender velas, orar, participar da missa, fazer um instante de silêncio e meditar. Neste mundo, quem amou, criou laços de amizade e viveu em comunidade é uma chama que não se apaga. Seu testemunho de vida fica como luz acesa no coração de quem ficou. É um sinal de ressurreição. Esse é um dos significados das velas acesas nos cemitérios: a luz do irmão não se apagou. Neste mundo devemos fazer um trabalho de luz e não de trevas. Ao acender velas, todos buscam a iluminação interior.

Os cristãos plantam seus mortos como sementes e os regam com lágrimas, na esperança da ressurreição. Os irmãos falecidos florescerão no jardim do Senhor. Esse é um dos significados das flores levadas aos túmulos. Cada um recebe de Deus dons especiais. Durante a vida cultive seus dons, deixe-os florescer e perfumar os irmãos e irmãs. A Igreja católica é o jardim perfumado do Senhor. Ela não condena, mas ama e acolhe. Quem buscou caminhar com Jesus na vida, caminhará com Ele na morte e na eternidade.

A morte é como a travessia do Mar Vermelho (Lc 9,31), uma passagem para a casa do Pai, onde não faltam moradas (Jo 14,12). Jesus provou a morte para benefício de todos nós (Hb 2,9). Na Eternidade entramos em outras dimensões, difíceis de imaginar neste mundo. Lá não há passado ou futuro. Deus é. Seremos e estaremos com Ele e todos que amamos e nos amaram: netos com avós, pais com filhos, gerações passadas e presentes.

A passagem da morte exige conversão. Ninguém se salva sozinho. A salvação não é obra individual. Não é a pessoa quem se salva, por força de vontade. Foi Cristo quem nos salvou. Somos salvos pela graça de Deus, auxiliados pelo corpo místico de Cristo, a Igreja. Na comunhão dos santos, oramos uns pelos outros. Os católicos não rezam para os mortos, mas pelos mortos. Pela conversão plena dos vivos e falecidos, por sua ressurreição.

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