SEMANA SANTA E ECOLOGIA


(27/2/2008)

Evaristo Eduardo de Miranda

A Semana Santa tem muito a ver com ecologia. Nela os cristãos relembram a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Completando os 40 dias da Quaresma, a Semana Santa é um tempo silencioso, em que as pessoas, em sinal de penitência, abstêm-se de comer carne e impõem-se outros limites. Para aumentar e crescer é necessário aceitar os limites e enfrentar as adversidades.

Não se colocam obstáculos aos cavalos nas competições para que caiam. O objetivo é que, ao ultrapassar o obstáculo, o cavalo se ultra-passe, vá além. Este exemplo resume uma das leis fundamentais do humano: é no húmus das dificuldades, derrotas e fracassos que ocorre a verticalização das árvores humanas. Quem sabe crescer, elevar-se diante do solo dos limites, faz deles um adubo. A Semana Santa é um tempo para viver-se. Nele os limites são reconhecidos e aceitos: limites de saber, no uso de nossa potência tecnológica e econômica. Sem limites, o humano faz da natureza uma vítima. Sabendo respeitar limites, faz dela uma aliada.

O máximo da limitação para os cristãos ocorre no tempo sabático da Sexta-feira Santa, o único dia do ano em que não ocorrem missas em igrejas. É dia de jejum. Para a tradição popular, o diabo anda solto. Andar à noite, nem pensar. Viajar, idem. É arriscadíssimo desrespeitar esse dia santo de guarda, principalmente trabalhando, cortando mato, derrubando árvores ou capinando. Até os animais sabem disso.

Para protegerem seus donos, de uma profanação da Sexta-feira Santa, os animais – como o bíblico burrinho de Balaão – são capazes até de falar, em muitas histórias católicas que andam por aí, como a aventura campineira do Boi Falô. O dia é uma espécie de 1º de Maio católico, mais antigo. Nem padre celebra missa.

O sentido sabático e sagrado da Sexta-feira Santa, de denúncia da violência contra a natureza e a vida, contra a matança dos inocentes da Criação foi plenamente captado e traduzido pelo maestro Tom Jobim em sua composição “Borzeguim”:

Deixa o mato crescer em paz

Deixa o mato crescer

Deixa o mato

Não quero fogo, quero água

(deixa o mato crescer em paz)

Não quero fogo, quero água

(deixa o mato crescer)

Hoje é Sexta-feira da Paixão

Sexta-feira Santa…”

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Quaresma, semana santa e ecologia. A Tribuna, Campinas – SP, v. 99, p. 12, 2008.

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