SEARA ALHEIA


(26/4/2005)

Evaristo Eduardo de Miranda

A morte de João Paulo II mobilizou ateus, gnósticos, judeus e protestantes. Eles deram opiniões sobre quem foi esse Papa, como deveria ser o sucessor e seu programa de governo. Declarando ou escondendo sua ignorância em matéria eclesial, nada os impediu de falar, escrever, criticar e associar seu pensamento ao destino da Igreja. Estamos felizes com tanta crítica e opinião, vinda de quem vive em searas alheias, em outro mundo. Mesmo se parte desses irmãos não admite a Igreja opinando sobre assuntos que julgam da competência exclusiva do Estado como casamento, controle de natalidade, aborto, pesquisa com embriões, eutanásia etc.

Na nomeação do cardeal Ratzinger, muitos deles traçaram cenários sombrios. Na coroação, Bento XVI disse: “Queridos amigos. Meu verdadeiro programa de governo é não fazer minha vontade, não seguir minhas próprias ideias, mas de me colocar, junto a toda a Igreja, à escuta da palavra e da vontade do Senhor e me deixar dirigir por Ele”. E não pelo mundo.

As bem-aventuranças são um paradoxo: felizes os infelizes (Mt 5). O Papa e os católicos não agem para reconciliar-se com o mundo e seus modismos, mas para por o reino dos céus neste mundo. O discípulo em marcha não é consolado pelo mundo mas pela inteligência do reino de Deus. A Igreja não existe para nos alienar, distrair ou ajustar ao mundo, como faz às vezes a psicologia, mas para nos subtrair. O verdadeiro cristão faz o luto do mundo e se abre à inteligência do reino. Caminhar para o reino de Deus é inventá-lo, acolhendo as críticas justas e injustas. Somos todos irmãos. É nossa liberdade e responsabilidade. É o cerne do mistério pascal: quando o coração chora o que perdeu, o espírito já sorri do que encontrou.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Seara alheia. A Tribuna, Campinas – SP, v. 96, p. 7, 2005.

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