SE DEUS AJUDAR, VOCE SERÁ UM DEFICIENTE


(19/10/2004)

Evaristo Eduardo de Miranda

Há alguns anos, tornei-me portador de uma deficiência. Passei a usar óculos. Agora, pertenço ao grupo dos deficientes visuais que, como os óculos, apresentam vários graus. Na tradição judeucristã, a pessoa abençoada torna-se deficiente ao longo de sua vida. Aquele a quem Deus agracia com uma longa vida – 70, 90 ou mais de 100 anos – vai tornando-se aos poucos um deficiente sensorial, motor e mental. A deficiência está inscrita em nossas vidas. Com o passar dos anos perde-se a acuidade dos sentidos, a mobilidade e a força física enquanto declina nossa memória e agilidade mental.

Nascemos extremamente deficientes e carentes. Se uma morte repentina ou acidental não colher a vida do jovem ou adulto, a entrada na velhice é uma experiência viva de portar sucessivas e ampliadas deficiências. É uma nova escola, um processo pelo qual a pessoa desglorifica-se neste mundo para receber a glória dos céus. Deixa de lado tudo que não está destinado à eternidade. Esse desapego inclui também o corpo, com todos os seus recursos e possibilidades. Assim como as prostitutas, os deficientes nos precedem no reino dos céus. Os deficientes são os mais capacitados, mesmo se subestimados por si próprios, por suas famílias, pela escola e pela sociedade.

Deus escolhe, para confiar suas missões divinas, pessoas aparentemente limitadas ou desqualificadas. Moisés, que deve falar ao faraó, era gago. Jacó, que vai conduzir seu povo, “coxeava da coxa”. Davi, que será sagrado rei, era o menor e mais frágil dos filhos de Jessé. Nessa escolha real, o profeta Samuel afirma: “Aqui não se trata do que os homens vêem: os homens vêem aquilo que salta à vista, mas o Senhor vê o coração.”(I Samuel 16,7). Se muitos homens vêem os portadores de deficiências com preconceitos negativos, a tradição espiritual sabe que eles podem encontrar na família uma matriz acolhedora, que fará tudo, para garantir o seu desenvolvimento em plenitude como pessoas humanas. “Porventura o homem ou a mulher podem esquecer sua criança e não amar o filho de sua carne?” (Isaías 49,15)

Entender a diferença e o diferente como uma fonte de diversidade e riqueza é o oposto do modelo deficitário proposto no passado, pela sociedade e pelo sistema educacional. Estamos passando do preconceito negativo, da indiferença, do cuidado “caritativo” para o respeito da integridade e alteridade do Outro. Caminhamos de uma cultura da deficiência, como algo limitante e limitativo, para a riqueza de uma cultura da diversidade, que valoriza as diversas formas de ser, pensar, conhecer e agir em sociedade.

No centro desse movimento está a inclusão escolar. Não se trata de adaptar curriculum ou ensino ao deficiente, mas de construir um curriculum e um modelo pedagógico onde todos aprendem. Juntos. Um curriculum da vida cotidiana. A inclusão não deve ser um processo centrado na deficiência, no portador de alguma deficiência, mas na qualidade do ambiente. A inclusão implica em transformar – para melhor – família, escola, igreja e sociedade. Não basta aceitar o deficiente na escola, para ficar sentado no fundo da classe brincando com lápis coloridos enquanto os colegas estudam história, geografia e gramática. Não se trata de exigir da família a adaptação de sua criança à escola, com reforço extraescolar, acompanhamentos especializados etc.

A inclusão é um processo de transformação centrado na família, na escola e na sociedade, e não na deficiência. Como melhorar os contextos, os ambientes, as relações para que um biotipo não se torne um sociotipo? A inteligência se constrói e não é um processo cumulativo. São inteligências múltiplas a serem exercidas por todos. O cérebro é um músculo! Para superar os modelos de ensino deficitários é necessário planejar-se para o futuro e não para o atraso. Portadores de deficiência não são problemas, nem têm problemas e sim, circunstâncias. Essas circunstâncias devem ser levadas em conta, valorizadas positivamente. A inclusão é um processo para transformar a escola. Parte do princípio de que todas as pessoas aprendem (educabilidade). Existem diversas formas de aprender e de ensinar. O desafio é saber ensinar, em conjunto, sem exclusão. Profissionais da educação precisam reciclar-se, atualizar-se, conhecer os princípios e o arcabouço teórico e prático da inclusão. Ela acredita na capacidade de mudança, na reprofissionalização dos docentes, na sua educatividade.

As mudanças devem ocorrer já. Já. Não necessitam de grandes meios. Escolas da periferia, com vidros, janelas e carteiras quebradas, baixos salários, praticam a inclusão. Confia-se na competência dos portadores de deficiência quando o ambiente lhes é favorável: trabalho solidário e cooperativo, formação de grupos heterogêneos, busca de soluções conjuntas entre a família e a escola. Mudam os modos de funcionamento familiares e escolares, com criatividade e apoio mútuo, dividindo responsabilidades. Tudo isso vale para a catequese paroquial. A inclusão cultiva o modelo cooperativo e não competitivo. A liderança e o pioneirismo têm vindo das escolas leigas e não confessionais. Mais uma vez, os pagãos parecem estar em posição de dar lições de moral e ética para os crentes, como o faraó deu ao patriarca Abrão (Gn 12,18-20). Apesar do riso de alguma Sara, a promessa da fecundidade está de pé. A anunciação é para todos: ser capaz de conceber pelo Espírito.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Se Deus ajudar, você será um deficiente. A Tribuna, Campinas – SP, v. 93, p. 10 – 11, 2002.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *