SÃO SÉCULOS DE INCLUSÃO DOS PORTADORES DE DEFICIÊNCIAS E SUA ESCOLA AINDA NÃO COMEÇOU?


(16/6/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

1 – Somos todos portadores de deficiência

Há alguns anos, tornei-me portador de uma deficiência. Passei a usar óculos. Agora, pertenço ao grupo dos deficientes visuais que, como os óculos, apresentam vários graus. Na tradição judeu-cristã, a pessoa abençoada torna-se deficiente ao longo de sua vida. Aquele a quem Deus agracia com uma longa vida – 80, 90 ou mais de 100 anos – vai tornando-se aos poucos um deficiente sensorial, motor e mental. A deficiência está inscrita em nossas vidas. Com o passar dos anos perde-se a acuidade dos sentidos, a mobilidade e a força física enquanto declina nossa memória e agilidade mental.

Nascemos extremamente deficientes e carentes. Se uma morte repentina ou acidental não colher a vida do jovem ou adulto, a entrada na velhice é uma experiência viva de portar sucessivas e ampliadas deficiências. É uma nova escola, um processo pelo qual a pessoa se desglorifica neste mundo para receber a glória dos céus. Deixa de lado tudo que não está destinado à eternidade. Esse desapego inclui também o corpo com todos os seus recursos e possibilidades. Assim como as prostitutas, os deficientes nos precedem no reino dos céus. Os deficientes são os mais capacitados, mesmo se subestimados por si próprios, por suas famílias, pela escola e pela sociedade.

2 – A eficiência dos deficientes

Deus escolhe para confiar suas missões divinas, pessoas aparentemente limitadas ou desqualificadas. Moisés, que deve falar ao faraó, era gago. Jacó, que vai conduzir seu povo, “coxeava da coxa”. Davi, que será sagrado rei, era o menor e mais frágil dos filhos de Jessé. Nessa escolha real, o profeta Samuel afirma: “Aqui não se trata do que os homens vêem: os homens vêem aquilo que salta à vista, mas o Senhor vê o coração (1Sm 16,7). Se muitos homens vêem os portadores de deficiências com preconceitos negativos, a tradição espiritual sabe que eles podem encontrar na família uma matriz acolhedora, que fará tudo, para garantir o seu desenvolvimento em plenitude como pessoas humanas. “Porventura o homem ou a mulher podem esquecer sua criança e não amar o filho de sua carne?” (Is 49,15).

Entender a diferença e o diferente como uma fonte de diversidade e riqueza é o oposto do modelo deficitário proposto no passado, pela sociedade e pelo sistema educacional. Estamos passando do preconceito negativo, da indiferença, do cuidado “caritativo” para o respeito da integridade e alteridade do Outro. Caminhamos de uma cultura da deficiência, como algo limitante e limitativo, para a riqueza de uma cultura da diversidade, que valoriza as diversas formas de ser, pensar, conhecer e agir em sociedade. Uma sociedade que respeita os princípios de humanidade.

O Tribunal de Nuremberg julgou e condenou os médicos nazistas que praticaram o eugenismo. Ainda sob o impacto do Holocausto nos campos de concentração nazistas, a sentença do Tribunal foi acompanhada de uma declaração em que se proclamava a indivisibilidade da pessoa humana. Não existem graus de humanidade. Não existem pessoas mais humanas ou menos humanas. Nem sub-homens, nem super-homens, inferiores ou superiores. O princípio de humanidade é um só e irredutível: o mendigo é tão humano quanto o príncipe. Um deficiente mental é tão humano quanto um prêmio Nobel de Física. Ninguém pode definir ou decidir se a vida de outra pessoa vale ou não a pena de ser vivida ou se é inferior ou superior a de outra pessoa. Ninguém tem autoridade para dizer o que o outro pode aprender, estudar ou desenvolver. Ninguém pode definir as capacidades do outro num sentido deficitário, reducionista e aniquilante. Há quatro mil anos, a tradição judeu-cristã afirma o primado da pessoa e sua irredutibilidade. Seu direito a vida em plenitude.

3 – A educação inclusiva é um processo de transformação

No centro desse movimento está a inclusão escolar. Não se trata de adaptar curriculum ou ensino ao deficiente, mas de construir um curriculum e um modelo pedagógico onde todos aprendem. Juntos. Um curriculum da vida cotidiana. A inclusão não deve ser um processo centrado na deficiência, no portador de alguma deficiência, mas na qualidade do ambiente. A inclusão implica em transformar – para melhor – família, escola, igreja e sociedade. Não basta aceitar o deficiente na escola, para ficar sentado no fundo da classe brincando com lápis coloridos enquanto os colegas estudam história, geografia e gramática. Não se trata de exigir da família a adaptação de sua criança à escola, com reforço extraescolar, acompanhamentos especializados etc.

A inclusão é um processo de transformação centrado na família, na escola e na sociedade, e não na deficiência. Trata-se de melhorar os contextos, os ambientes, as relações para que um biotipo não se torne um sócio-tipo. A inteligência se constrói e não é um processo cumulativo. São inteligências múltiplas a serem exercidas por todos. O cérebro é um músculo! Para superar os modelos de ensino deficitários é necessário planejar-se para o futuro e não para o atraso. Portadores de deficiência não são problemas, nem têm problemas e sim, circunstâncias. Essas circunstâncias devem ser levadas em conta, valorizadas positivamente. A inclusão é um processo para transformar a escola. Parte do princípio de que todas as pessoas aprendem (educabilidade). Existem diversas formas de aprender e de ensinar. O desafio é saber ensinar, em conjunto, sem exclusão. Profissionais da educação precisam reciclar-se, atualizar-se, conhecer os princípios e o arcabouço teórico e prático da inclusão. Ela acredita na capacidade de mudança, na reprofissionalização dos docentes, na sua educatividade.

4 – Globalização e alteridade. Babel e Pentecostes

Babel é um episódio bíblico conhecido. É uma daquelas raras e estranhas situações em que Deus aparece falando no plural. Diante de um mundo singular, uniforme, não inclusivo, sem alteridade, Deus se apresenta plural: “Vamos, desçamos e confundamos a língua deles, que não se entendam mais entre si! Dali o Senhor os dispersou sobre toda a superfície da terra e eles cessaram de construir a cidade. Por isso, foi dado a ela o nome de Babel, pois foi ali que o Senhor confundiu a língua de toda a terra, e foi dali que o Senhor dispersou os homens sobre toda a terra.” (Gn 11,7-9).

Essa parábola traduz a tentação que o homem experimenta de garantir a unidade da humanidade por um imperialismo político religioso. Poderia ser aplicado a muitas cidades, ao longo da história da humanidade, de Roma a Nova Iorque, passando por Pequim. A globalização deve ser rejeitada como dominação universal. Ela anula identidades, escraviza mentes e corpos e leva à fusão e a confusão. Essas divisões, como a Babel dos Fóruns Internacionais – recente e simetricamente celebrados – não podem ser superadas pela uniformidade, nem pela força.

Um modelo de superação está no livro dos Atos dos Apóstolos, principalmente em sua primeira parte (do capítulo 1 ao 12). “Ora, em Jerusalém, residiam judeus piedosos, vindos de todas as nações que existem sob o céu. Ao rumor que se propagava, a multidão se reuniu e ficou toda confusa, pois cada um os ouvia falar em sua própria língua. Perplexos e maravilhados eles diziam: Todos esses que falam não são galileus? Como é que cada um de nós os ouve em sua língua materna?” (At 2,5-8). Foi na Quinquagésima, em Pentecostes, na festa judaica de Shavuot (semanas), no início do verão, face ao dom das colheitas. Quarenta e nove dias após Páscoa (7 x 7), num sinal de plenitude, jubileu e de outro mundo. O dom de Deus, do Santo Espírito, se exprime como uma explosão de linguagem!

O dom do Espírito restabelece a unidade lingüística e não sua uniformidade: todos se entendiam, cada um em sua própria língua! Deficientes e eficientes. Mudos e falantes. Sábios e humildes. Verdadeira humanidade, verdadeira fraternidade. Esta globalização, este universalismo, esta catolicidade, preserva e exalta a identidade, a separação, a diferenciação e a alteridade. Ela deveria ser a pedra fundamental e o motor da inclusão. Num todo (holos), num catolicismo (kat-holi-kós = universal) que é mais que a soma das diversas partes e a transcende. A Igreja e os colégios católicos devem prefigurar essa unidade na diversidade. Essa é a dimensão universal da inculturação e da missão apostólica dos cristãos, bem além de qualquer proselitismo. Esse é o espírito da globalização que precisamos, queremos e defendemos no processo de inclusão, familiar, escolar e social.

5 – Conclusão: maravilhas a caminho

As mudanças inclusivas devem ocorrer já. Já! Não necessitam de grandes meios. E sim de mentes criativas e espíritos generosos. Escolas da periferia, com vidros, janelas e carteiras quebradas, baixos salários, praticam a inclusão. Confia-se na competência dos portadores de deficiência quando o ambiente lhes é favorável: trabalho solidário e cooperativo, formação de grupos heterogêneos, busca de soluções conjuntas entre a família e a escola. Mudam os modos de funcionamento familiares e escolares, com sonhos, criatividade e apoio mútuo, dividindo responsabilidades. A inclusão cultiva o modelo cooperativo e não competitivo. A liderança e o pioneirismo nesse campo têm vindo das escolas leigas e não confessionais. Mais uma vez, os pagãos parecem estar em posição de dar lições de moral e ética para os crentes, como o faraó deu ao patriarca Abrão (Gn 12,18-20). Apesar do sorriso descrente de alguma Sara, a promessa da fecundidade está de pé (Gn 18,12). A anunciação é para todos, diretores, assessores, coordenadores e professores: ser capaz de conceber, de criar e inovar pelo Espírito, pelo Sopro Sagrado.

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