SÃO JOSÉ E O EL NIÑO


(16/3/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

20 de março. Equinócio de outono. E em todo o planeta, de pólo a pólo, dia e noite duram 12 horas. Sinal de equilíbrio nos céus. No hemisfério sul, a passagem do sol pelo Equador marca o fim da estação chuvosa. São as águas de março fechando o verão. Um verão de muitas chuvas. Todas anunciadas com meses de antecedência. Mas a imprevidência dos humanos não evitou os desastres.

Graças aos satélites espaciais e ao desenvolvimento da meteorologia, sabemos com antecedência, como será o clima do ano. Hoje, além da previsão do tempo válida para alguns dias, temos a previsão do clima, feita com meses de antecipação. Isso é possível devido a inércia térmica dos oceanos, particularmente quando ocorre o fenômeno do El Niño, um aquecimento anormal do Pacífico, que afeta todo o planeta. Passível de observação em seus efeitos na pesca em dezembro, ele foi associado pelos pescadores do Perú à data de nascimento do menino Jesus, El Niño.

Tudo ocorreu como previsto: seca no Nordeste, inundações no Sul e Sudeste. Mas a imprevidência foi geral, por parte da população e governantes, diante dos anunciados desvarios do tempo. O Núcleo de Monitoramento Ambiental da Embrapa difundiu pela mídia, e em particular pelo Correio Popular, recomendações aos agricultores para amenizar e até aproveitar, do efeito El Niño. Medidas simples, como datas de plantio adiantadas ou atrasadas conforme a cultura, permitiram até lucrar com o El Niño. Outras medidas simples também poderiam ter sido adotadas nas cidades. Não o foram. As inundações foram trágicas. Mas, sinal de mudança, culpou-se menos a chuva e mais os homens em sua imprevidência. A natureza é cada vez mais previsível. Ler os sinais dos céus, o oráculo do cosmos, é tarefa de todos. E nisso o pai do El Niño foi mestre.

O equinócio coincide com a festa de S. José, o pai do Menino Jesus. No Nordeste, para os sertanejos, trata-se uma data limite. O agricultor sabe que se não chover até o S. José, como na música do Luiz Gonzaga, o plantio está perdido. É hora de retirar-se diante dos ciclos inexoráveis da natureza. E José é mesmo o paradigma do pai que soube retirar-se. Muitos pais preocupam-se em estar presentes na vida dos filhos. José ensina o contrário: como retirar-se da vida dos filhos para que eles possam crescer, ser e viver livres.

Retirar-se não significa abandonar. José foi um pai diligente. Agiu com coragem, presença e eficiência quando necessário: assistiu Maria no parto, organizou a fuga e a vida no Egito, o retorno à Palestina etc. Mas diante do crescimento e da vida própria do filho, ele soube retirar-se. Com um desapego de dar inveja. Num silêncio e discrição tão sutis, ele desaparece sem ser notado, até dos textos evangélicos. Esse pai soube retirar-se diante da autonomia da vida e, em particular, face às dimensões da vida do seu filho. Abdicou de muita coisa. Inclusive de uma certa condição de paternidade: um paradigma para nós, para a Igreja e um paradoxo para alguns.

Esse abdicar da paternidade, da propriedade, da posse e do poder – sobre o qual psicologia já se debruçou tanto – revela um homem extremamente centrado na sua essência. Em caso de adultério, o marido podia levar a mulher aos tribunais e ela poderia ser apedrejada. Nos dizeres do Evangelho, “José, seu homem, é um justo. Não desejando sua desgraça resolve deixá-la secretamente” (Mt 1,19). Essa retirada ele não cumprirá. Ao sonhar, ele entende que o que nela é gerado é do sopro sagrado (Mt 1,20). José manteve com sua mulher, até pela via da dúvida e do conflito, uma relação de serviço e espaço ao feminino, particularmente radical.

Um homem com quem Deus só falava por sonhos! Foram pelo menos quatro falas e quatro sonhos (Mt 1,20; 2,13; 2,19 e 2,22). Ele vivia atento aos sinais, em harmonia e diálogo com seu ser profundo. Em José, essa extraordinária capacidade de lembrar, interpretar e agir segundo seus próprios sonhos, diz muito sobre sua alma, sua interioridade e equilíbrio psicológico. Seu nome hebraico, Iosseph, significa “Ele acrescentará”.

Neste final de verão, festa de S. José, pai do El Niño, que todos esses sinais dos céus nos ajudem a sermos mais previdentes, humildes diante da natureza e dos filhos. Que o padroeiro dos operários ajude-nos a estar presentes e a saber retirar-se, conforme o tempo e o lugar.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. São José e o El Niño. Correio Popular, Campinas – SP, p. 03, 1998.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. São José e o El Niño. Jornal da Indústria e Comércio, Curitiba – PR, p. 02, 1998.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. São José e o El Niño. Diário do Povo, Campinas – SP, p. 02, 1998.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. São José e o El Niño. Gazeta Regional, Jaguariúna – SP, p. 02, 1998.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. São José e o El Niño. O Atibaiense, Atibaia – SP, p. 05, 1998.

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