SANTOS ENJEITADOS

capela

(15/10/2014)

 

Evaristo Eduardo de Miranda

 

Pelas estradas deste Brasil existem tantas capelinhas. Muitas estão localizadas em bifurcações de estradas, nos bívios, onde caminhos e caminhantes se separam. Essa divisão evoca o casco bífido do bode, a dualidade, o homem dividido e, para o povo, o diabo, o divisor. Cruz credo!

Estrategicamente localizadas nas áreas rurais, essas capelinhas servem para os católicos rezarem na despedida e no reencontro nesses locais, nesses pontos de convergência e divergência de caminhos. Outras capelinhas ficam no alto de morros e elevações. Elas coroam o caminho percorrido em direção às alturas e aproximam os católicos dos céus e de Deus.

Capelas são pequenas igrejas, com apenas um altar, geralmente subordinadas a uma paróquia. São ermidas, oratórios, pequenos santuários e locais de devoção, destinados também ao culto fora das igrejas, como em escolas, hospitais, fazendas e no meio da natureza. Algumas têm finalidades muito especiais, como as capelas de santos rejeitados.

Os católicos que deixam sua Igreja e se tornam, por exemplo, evangélicos, são orientados a jogar fora os seus santos de devoção. As igrejas evangélicas não têm santos. Apesar de agora evangélicos, muitos desses antigos católicos não têm coragem de maltratar seus santos, de quebrar suas imagens ou de lançá-las no lixo. Por anos elas estiveram na prateleira de alimentos da cozinha ou sobre um móvel num quarto ou até num altarzinho. É aí que entram em ação as capelas dos santos enjeitados ou rejeitados. Uma especialidade da Igreja católica.

São capelas dedicadas e constituídas essencialmente por santos abandonados, deixados em diversos locais (portas de igrejas, cruzeiros…), como os recém-nascidos que algumas mães abandonam. Esses santos são recolhidos pelos fiéis e reunidos — com muito respeito — nessas capelinhas, nessas espécies de asilos de enjeitados. E ali, como num coração de mãe verdadeira, sempre cabe mais um rejeitado. Em geral, depois de dar um banho nos santos, colar fissuras, unir pedacinhos e recuperá-los do trauma desse abandono, os católicos os retornam aos altares. É frequente existir uma grade protegendo os santos. Isso os tranquiliza dado os traumas que sofreram. Eles têm direito ao descanso e a um monte de velinhas acesas, flores, bilhetinhos e, sobretudo, orações. Os pobres vivem a rejeição, a humilhação e as feridas de muitas agressões. Eles se identificam muito com essas imagens enjeitadas.

Os santos enjeitados ficam numa alegria que só vendo, segundo os católicos que cuidam dessas capelinhas. Alguns até vertem lágrimas. Outros, como retribuição, atendem pedidos e fazem milagres. Dizem. Uma beleza. Viveram o abandono e agora o desafio de retomar seu lugar no território sagrado das capelas. Na praia das Toninhas em Ubatuba (São Paulo), por exemplo, existe uma capelinha centenária de santos rejeitados, há décadas acolhidos pela comunidade. Uma belezinha. Uma atração turística. Mesmo para ateus.

Muitos santos rejeitados, deixados junto a cruzes na beira da estrada e ao relento, ainda sofrem com o sol e a chuva. Outros seguem desamparados, desbotam junto aos cruzeiros de cemitérios ou são lançados em rios, sem barco nem boia. Esse abandono, tão simbólico, dos exemplos de santidade, justificaria a criação de um serviço de acolhida dos santos enjeitados. Um verdadeiro ministério para esses exilados ou marginalizados. Parece besteira? Não é.

Pescadores no rio Paraíba, há quase trezentos anos, pescaram do fundo das águas uma imagem, rejeitada e quebrada. Primeiro acharam o corpo. Depois, milagrosamente, no mesmo local, suas redes recolheram a cabeça. E tiveram uma pesca maravilhosa. Era uma Nossa Senhora enegrecida pela submersão. Eles logo fizeram uma capelinha para venerar a imagem da Mãe de Deus, aparecida entre as águas. Deu no que deu.


 

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . Santos Enjeitados. Jornal de Ciência e Fé, Curitiba – PR, p. 3, 15 de outubro 2014.

 

 

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