SAIR DA CLANDESTINIDADE


(27/1/2010)

Evaristo Eduardo de Miranda

Quaresma. Ao final desta travessia de reflexão e conversão está a Páscoa. E na Páscoa de Jesus, surge e desaparece, um personagem bíblico, de uma espiritualidade toda especial: José de Arimatéia. Esse homem rico e justo, membro notável Sinédrio, amigo de Nicodemos, é conhecido na tradição cristã como um discípulo secreto (por medo?) de Jesus de Nazaré. Era nascido ou originário do vilarejo de Ramataim, em grego Arimathaia, de localização incerta. O sentido hebraico da palavra designa a altura (ram) dupla (staim), a Dupla Elevação, provavelmente por tratar-se de uma cidade com dois bairros situados em colinas vizinhas. O nome permite também uma especulação simbólica.

Sua ligação com Jesus era grande e especial. Ele fará um gesto, quando da morte de Jesus, cuja coragem, audácia, benevolência e compaixão vão valer-lhe uma menção unânime (fato raro) em todos os evangelhos (Mt 27,57-59; Mc 15,43-45; Lc 23,50; Jn 19,38). Após a morte de Jesus, no que pesem as terríveis circunstâncias políticas e humanas implicadas, num lance de ousadia e de quem não deixa intimidar-se, José de Arimatéia vai pessoalmente reclamar junto ao prefeito Pôncio Pilatos a liberação do corpo de Jesus, para dar-lhe sepultamento.

Para descrever esse gesto, o evangelho de Marcos usa o termo “tomando coragem” já que a lei romana previa que os crucificados deviam tornar-se presas de abutres, cães e animais selvagens. Pilatos permite, não sem antes estar seguro da realidade da morte de Jesus de Nazaré (Mt 15,44). Sua situação de “nobre conselheiro”, mencionada por Marcos, indica que José de Arimatéia era um homem suficientemente importante socialmente para ter livre acesso a Pilatos. Se esse título, como muitos acreditam indica que ele era membro do Sinédrio, seu gesto toma também um significado adicional de coragem e independência.

José de Arimatéia sabia que a tradição judaica era a de sepultar os mortos no mesmo dia de sua morte (Jo 11,27). No caso de um enforcado, a Lei exigia esse procedimento (Dt 21,23). Estava-se na preparação do sábado da Páscoa. Esse favor pedido a Pilatos por José de Arimatéia tem também um alcance religioso: tratava-se, na liturgia judaica, do shabat da libertação dos hebreus da escravidão, que tem uma importância litúrgica muito particular (Ex 12,16).

“Ele (José de Arimatéia) vem, então, e leva o corpo de Jesus” (Jo 19,38). Dadas as circunstâncias da morte, pode-se apenas imaginar – em silêncio respeitoso – o que implica a realização prática e efetiva dessa frase por esse fariseu piedoso. Descer Jesus da cruz, retirar os cravos das mãos e dos pés, colocá-lo sobre o lençol, envolvê-lo e levá-lo ao túmulo. Ele deve ter concluído sua tarefa, ungido pelo sangue e pelo suor de Jesus. Essa mistura que impregnará esse sudário para toda eternidade. Esse gesto ousado e amoroso talvez relativize e dê outro significado para seu discipulado “secreto” junto a Jesus. O clandestino de um partido ou seita nunca é apreciado, mas o comprometimento público – no mais alto nível – de José de Arimatéia para pôr a salvo o corpo de Jesus, o torna merecedor da menção elogiosa feita pelos quatro evangelistas. Marcos dirá: “Ele também esperava o reino de Deus” (Mc 15,43).

Ele oferece o mausoléu de sua família, uma sepultura cavada no rochedo do Calvário, próximo ao local da crucifixão. Ali, ajudado por Nicodemos, ele sepulta Jesus, seguindo os ritos judaicos. Segundo Marcos, ele comprou essa longa peça de linho na qual os judeus tinham a costume de envolver seus mortos. Nesse início de crepúsculo de véspera do shabat, quando as velas começam a ser acesas nos lares para a celebração, ele desce Jesus da cruz, envolve-o na mortalha de linho e o deposita na sepultura, onde ninguém ainda havia sido posto (Lc 23,53).

Essa precisão, retomada em Mateus (27,60), prova que, aos olhos da Torá, Jesus podia se beneficiar sem problema de uma sepultura normal. Não seria assim se ele tivesse sido condenado à morte por um tribunal rabínico. Os condenados à morte, em virtude da Lei, eram enterrados em um local à parte, especialmente reservado para eles. Vítima dos romanos, Jesus, ainda que crucificado, tem direito a uma sepultura normal e aos ritos previstos pela tradição religiosa do judaísmo. A privação da sepultura era vista como uma grande maldição (Dt 28,26; 1Rs 21,23; 2Rs 9,36; Jr 7,33; 14,16; 19,7; 22,19; 25,31).

Ajudado por outros homens, José de Arimatéia concluiu apressadamente esse ritual de exéquias rolando uma pedra circular até a entrada. Do exterior, pela entrada, era possível ver o lugar onde o corpo havia sido deixado, deitado. Não havia mais tempo para nada. Sobre essa pedra circular que fecha a entrada, vai parar o olhar contemplativo de duas mulheres. Imediatamente José de Arimatéia se retira. É shabat. É o que também podemos fazer diante de tantas cruzes e crucificados, deixando de ser discípulos secretos, nesta Quaresma e nesta Páscoa.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Sair da Clandestinidade. A Tribuna, Campinas – SP, v. 3869, p. 15 – 15, 2010.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *