SABER RETIRAR-SE


(13/8/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

Tive filhas gêmeas. Uma bênção de Deus. Uma riqueza. No começo me preocupei muito. Sobretudo em como estar presente durante suas vidas e caminhada. Num mundo onde tudo muda tão rápido e onde os desafios são inéditos, a gente fica se perguntando se está realmente capacitado para educar os filhos. Li. Observei. Escutei. Parte da resposta veio do exemplo de um carpinteiro. Mas no início fui apreensão, susto e medo.

A vida, e nós podemos tê-la em abundância, é algo imenso. Os filhos são uma das maneiras privilegiadas para se participar um pouco mais dessa plenitude. Um mínimo de atenção e todo pai vai descobrindo a personalidade única de cada filho. No meu caso, com as gêmeas, isso foi tão flagrante, apesar ou por causa da situação gemelar.

A riqueza e a autonomia da personalidade de cada uma foram mudando minhas apreensões. Até agora, pelo menos, verifico que efetivamente elas me educaram muito mais do que eu as eduquei. Com elas aprendi e sigo aprendendo a ser mais coerente, a não mentir nem de brincadeira, a ser mais atento, mais organizado, mais decidido sobre minhas prioridades, relativizando muita coisa e em particular o tempo e o espaço do trabalho. Revalorizei o relacionamento com minha mulher e venho descobrindo minhas dimensões femininas. Tenho lido mais, sobre coisas que nunca imaginei. Aprendi e compreendi. Mas sobretudo me surpreendi, em atitudes e situações nunca imaginadas. Elas me trouxeram mais vida e uma até nova espiritualidade, mais mística e rica.

Essa força e autonomia da infância alterou a responsabilidade paternal que eu me atribuía: a de estar presente na vida de meus filhos. A gente se sente mais jardineiro e menos dono das plantas. Pelo contrário, cada vez mais sinto a dificuldade de ausentar-me. Saber retirar-me. Deixar o filho ir na sua direção, para si. Retirar-se é mais do que nunca fazer por ele o que ele pode fazer sozinho, como recomenda a pedagogia. Coisa em si já muito difícil. É um misto de intuição, com desapego, contemplação e atenção.

Foi nesse pensamento, de desapego com algo que a gente tende a se achar meio dono, que comecei a revalorizar e redescobrir, como pai, um outro pai: São José. Para mim, de alguma forma, ele era a imagem de um pai estranho. Meio fracassado. No fundo eu tinha uma idéia de um homem um pouco traído e vítima de uma condição contra a qual não pode fazer nada, senão aceitar. Hoje ele é para mim um modelo de pai. O pai que soube retirar-se. Com certeza é muito mais fácil estar presente na vida de um filho do que retirar-se. Inclusive existem pais sempre presentes e dominadores na vida de filhos que já passaram dos 30 e 40 anos… alguns os perseguem mesmo depois de suas mortes.

Se retirar não significa abandonar. José foi um pai diligente. Agiu com coragem, presença e eficiência quando necessário: assistiu Maria no parto, organizou a fuga e a vida no Egito, o retorno a Palestina etc. Mas diante do crescimento e da vida própria do filho soube se retirar. Com um desapego de dar inveja. Num silêncio e numa discrição tão sutil, ele desaparece sem ser notado, até dos textos evangélicos. Esse pai soube retirar-se diante da autonomia da vida e, em particular, face às dimensões da vida do seu filho. Abdicou de muita coisa. Inclusive de uma certa condição de paternidade: um paradigma para nós, Igreja, e um paradoxo para os não crentes.

Esse abdicar da paternidade, da propriedade, da posse e do poder – sobre o qual psicologia moderna já se debruçou tanto – nos revela um homem extremamente centrado na sua essência. Em caso de adultério, o marido podia levar a mulher aos tribunais e ela poderia ser apedrejada. Mas nos dizeres do Evangelho José era o vir justus (vir: varão, viril, virtude, força). “Iosseph, seu homem, é um justo. Não desejando sua desgraça resolve deixá-la secretamente (Mt 1,19).” Essa retirada ele não cumprirá. Ao sonhar, ele entende que o que nela é gerado é do sopro sagrado (Mt 1,20). Ele manteve com sua mulher, até pela via da dúvida e do conflito, uma relação de espaço ao feminino particularmente radical e de serviço.

Um homem com quem Deus só falava por sonhos! Pelo menos quatro falas e quatro sonhos (Mt 1,20; 2,13; 2,19 e 2,22) são relatados em Mateus. Ele vive atento, em harmonia e diálogo com seu ser profundo. Em José, essa extraordinária capacidade de lembrar, interpretar e agir segundo seus próprios sonhos, diz muito sobre sua alma, sua interioridade e seu equilíbrio psicológico. Seu nome hebraico, Iosseph, significa “Ele acrescentará”.

Não reivindico nenhuma exegese particular sobre a figura de José, resgatado de forma polissêmica pela Igreja e movimentos religiosos ao longo dos séculos. Me permito, como pai, uma leitura da condição vivida por José e nós, homens pais. Suas atitudes, descritas no Evangelho, são próximas de muitos aspectos da nossa condição paterna e a interpelam.

Às vezes, em fins de semana ou em passeios com amigos, acontece das mulheres voltarem num carro e os homens em outro. Me imagino chegar em casa pensando que meu filho está com minha mulher, e ela o contrário, e não encontrá-lo. Diante do seu desaparecimento nossa angústia seria imensa. Interromper o curso de nossas vidas. Buscá-lo desesperadamente por três dias em outra cidade… Se ao encontrá-lo, se ele me dissesse – do alto dos seus 12 anos – que estava cuidando de sua vida, nem sei que eu faria. Ele levaria uma bronca inimaginável. A cultura judaica assegurava ao pai a propriedade dos filhos, acertando seus casamentos (Gn 24,3) e podendo até condená-los a morte (Gn 38,24), mas José e Maria se calaram!

Muitas vezes acentua-se o resto do texto: Maria guardando tudo no seu coração. Parece um silêncio tático. Como pai, vejo nesse calar algo emblemático: a capacidade deles, de se retirarem. De ficar em silêncio.

De reconhecerem que aquela pessoa não lhes pertence. De que eles continuam participando de Algo grandioso e surpreendente. De uma existência ordinária, eles passaram para uma vida poeticamente extra-ordinária.

Eu tenho dificuldade em imaginá-los entendendo e dimensionando tudo, como num script conhecido de uma peça de teatro (Lc 2,50). Se eles não entendiam, tinham a sabedoria de calar-se. As vezes eu me surpreendo com as considerações de minhas filhas sobre a vida, o mundo, nossa família etc. Todos pais vivem isso e ficam impressionados de como as crianças relacionam fatos, de forma inteligente e as vezes precoce. Mas gostaria de destacar outras falas das crianças: são palavras e observações mais raras mas muito extraordinárias! Diante delas o máximo a fazer é calar-se. Não dá mesmo para comentar, nem para ruminar. É calar-se! É algo tão surpreendente, nos ultrapassa e afere a autonomia da vida e da Criação. Não é fácil calar-se diante dos filhos. Talvez também seja chegado o momento de calar-me. Apenas uma palavra final sobre S. José e a boa morte…

No catolicismo S. José é o Padroeiro da Boa Morte. Pela tradição eclesial, ele teria morrido antes de Jesus e Maria. Provavelmente, então, morreu tendo os dois em sua cabeceira. Nada desagradável. Difícil imaginar morte em melhor companhia: de um lado Jesus e do outro Maria. Daí a Boa Morte. Mas ele é mesmo o Padroeiro da Boa Morte, dada a sua vida de desapego. Morre bem quem está desapegado de tudo que não está destinado a eternidade. Está pronto para partir, livre de qualquer amarra. O desapego de São José na paternidade e no matrimônio – e até da condição de personagem – o faz um exemplo de caminho para a boa morte. Morte que de certa forma os filhos – docemente e em família – também nos anunciam e nos ajudam a aceitar, como parte da plenitude da Vida.

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