REVESTIR-SE DE BRANCO


(21/12/1996)

Evaristo Eduardo de Miranda

Na passagem do ano é comum as pessoas vestirem-se de branco. As lojas já vestem branco, anunciam as manchetes dos jornais. Qual o significado de vestir uma roupa toda branca, ou apenas uma peça de cor branca, para passar o réveillon? Vestir-se de branco dá sorte? Protege do mau olhado? Traz bons presságios? Ou será uma prática mágica, irracional e sem nenhum valor? Toda passagem de ano marca o fim de um tempo. É mais uma página virada… Mas também evoca um tempo novo, uma nova página, uma folha em branco para ser escrita. O vestir-se de branco, na passagem de ano, pode ser vivido como um pequeno rito, de real valor espiritual.

A prática de vestir-se de branco está presente em inúmeras religiões. Para alguns historiadores, esse costume de réveillon seria essencialmente de origem islâmica. Este seria, aliás, a mais poderosa penetração de um gesto do Islã em nossa cultura. Mas esse costume é encontrado em religiões africanas, mediterrânicas e, sobretudo, no Cristianismo, onde as vestes brancas são símbolo de pureza, iluminação e candura.

A tradição de vestir-se de branco vem do início do Cristianismo. Nas comunidades dos primeiros séculos, os candidatos ao batismo (e à Igreja) eram submetidos à aprovação do povo de Deus. Aprovados e batizados, revestiam-se de branco. Também era assim na Roma antiga. O candidato a cargos públicos, além de apresentar-se como limpo interiormente, também o fazia exteriormente, revestindo-se de branco (candidatando-se). Candidatar-se significa, etimologicamente, vestir-se, apresentar-se de branco. Vestir-se de branco, na passagem do ano, significa candidatar-se a uma vida nova.

O branco é a reunião de todas as cores, a plenitude do arco-íris. Vestir-se de branco demonstra o desejo de assumir todas possibilidades de crescimento interior e espiritual. Mas para dar o pleno poder a esse gesto na passagem de ano, devemos ter consciência de que esse ritual implica em dois momentos ou dois atos muito diferentes: o des-vestir-se e o re-vestir-se.

O ato de desvestir-se é comum a muitos ritos iniciáticos, já que a figura arquetípica da nudez tem um caráter bastante universal. Ele deveria ser um momento para pensarmos na vida e no ano que termina. Durante alguns minutos, ao nos desvestirmos, podemos realizar a nudez – não somente como despojamento – mas como um retorno ao batismo, a infância espiritual. Nos primeiros séculos do Cristianismo – onde não havia qualquer permissivismo -, a nudez era vista como um retorno a inocência original do Paraíso (Gn 2,25). Pela nudez o humano retorna ao Éden, ao paraíso perdido. Ao abandonar os trajes, o “triste adorno” nos dizeres de S. Gregório de Nissa, a pessoa reveste-se do esplendor da inocência. A nudez nos revela como somos.

O desvestir evoca outras coisas: a nudez do Cristo moribundo, a volta às origens, à água original, o retorno ao útero materno de onde saímos nus. O desvestir-se é uma ocasião cotidiana para lembrar nossa condição original de fraqueza e potência. Podemos fazê-lo todos os dias e não somente no dia 31 de dezembro. Mas é sempre melhor uma vez, do que nunca. A nudez relembra também o quanto o corpo é sagrado para o Cristianismo. Apesar de tantos equívocos repressivos dos que, nas igrejas, tiveram e ainda têm medo do corpo. Nudez é sinal de consciência de si, de identidade do ser e de aceitação pessoal. Se o des-vestir-se pode nos levar ao paraíso perdido, o re-vestir-se – segunda parte desse rito – nos aponta o caminho para sempre retornar.

O revestir-se de branco, segundo momento desse pequeno rito pessoal e caseiro, toca numa realidade muito destacada nos tempos atuais: a roupagem, a moda. A roupa marca a distância entre o ser e o parecer. As pessoas associam a roupagem ao papel assumido ou desejado, por cada um, na sociedade. Nunca se teve uma indústria do vestuário tão desenvolvida. A força extraordinária da indústria da moda é dada, em última instância, pelos sonhos irrealizados em cada um. Pelas vestes imagina-se deixar o mundo real e da lei, para entrar no universo dos sonhos e das possibilidades inimagináveis. O vestir-se pode ser um grande teatro de ilusões. Mas os atos simbólicos da Igreja andam longe da moda, dos modismos e de suas ilusões.

As vestes brancas para o cristão lembram o seu batismo, não como alegria passada, mas presente. Desde o apóstolo Paulo, a Igreja trabalha com essa intuição: revestir-se do Cristo (Rm 13,14) é revestir o homem novo (Gl 3,27; Cl 3,10 e Ef 4,24). A essa dimensão deveríamos dirigir nossos pensamentos ao nos revestirmos de branco, antes de sairmos para festas e comemorações. Na passagem do ano desejamos vestir nossa pessoa com a roupa nova do homem novo, como nas etapas finais de um perfumado banho.

Ao vestir-se de branco, na da passagem do ano, tocamos numa riqueza simbólica muito grande, sobretudo se nos ligarmos ao sentido do desvestir-se e revestir-se. Ao contrário de práticas talismânicas, onde pessoas vestem-se de branco em determinados dias ou ocasiões por superstição, podemos fazê-lo com convicção. Quem vive como cristão é chamado a revestir-se de branco, independentemente dos trajes ou com a ajuda deles, todos os dias.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Revestir-se de branco. Diário do Povo, Campinas – SP, p. 02, 1996.

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