REFLEXÕES SOBRE A MORTE E O MORRER EM TEMPOS GLOBAIS


(5/8/1994)

Evaristo Eduardo de Miranda

Eu quero estar na morte com os pobres

Que não tiveram tempo de estudá-la

Castigados por aqueles que possuem os céus.

Eu tenho a minha morte pronta como uma veste

Esperando-me com a cor que eu amo

No tamanho que eu busquei em vão

E com a amplidão que eu necessito.

Pablo Neruda

Canto Geral

Nunca na história uma sociedade escondeu e se escondeu tanto da morte como na atualidade ocidental. Morrer assumiu um caráter totalmente acidental e um tanto vergonhoso. Morreu porque corria muito, porque era obeso, porque sofria do coração ou porque o câncer não tem cura. Como se a pessoa fosse magra, calma ou se o câncer tivesse cura ela não morreria. Morre-se sempre de algo e não por estar vivo. Nossa sociedade moderna ‚ capaz de recuar a data da morte, mas não sabe como tratar e integrar essa intrusa que no final vence toda e qualquer tecnologia. A morte, certeza absoluta na vida de todos, ‚ apresentada como acidental e não natural.

Numa sociedade em que o acúmulo de bens, em que o ter domina sobre o ser, a morte soa como uma contradição inaceitável. A consciência da morte pessoal relativiza profundamente num individuo o consumismo e a carreira desabalada em busca de bens materiais ou ilusórios. O morto não compra. Não há propaganda no mundo capaz de fazer um morto comprar. Esse péssimo consumidor deve ser evacuado o mais rápido e antissepticamente possível. Do hospital para o crematório em poucas horas. Existe uma espécie de vergonha de ter-se um cadáver em família. Melhor não passar em casa. Melhor os vizinhos só saberem depois. Os mortos ainda não aderiram à modernidade.

O morrer é tão natural quanto cultural. Imaginamos nossa morte através da morte dos outros, dentro de nossa cultura e sociedade. A compreensão da morte, por definição, impede qualquer possibilidade de experiência reflexiva, ao contrário de toda a vida humana. Ninguém morre duas ou três vezes num mês para avaliar e refletir sobre a experiência e tirar lições. Por isso a morte dos outros, em qualquer contexto ou circunstância, ‚ sempre uma ocasião para refletirmos sobre a nossa própria morte e sobre outras mortes que ocorreram em nossa vida. O nível de exclusão da tem tica da morte ‚ tal na sociedade moderna que o assunto não pode figurar em conversas ou discussões sem despertar estranheza ou mal estar.

Nesse contexto e na ausência de prática religiosa de qualquer natureza, ao evacuar a morte, o cadáver, o velório, o enterro e o luto, abre-se um difícil caminho para os vivos que devem superar a perda de um ente querido.

Nos velórios de hoje em dia o despojamento de símbolos ‚ total- nem mesmo um crucifixo ou velas acesas – a ausência de amigos e familiares em número expressivo, o mutismo da espera do enterro e uma serie de outras ausências de alegorias tornam essa passagem um momento ainda mais triste. No livro Metapsicologia, em um de seus últimos escritos “Luto e Melancolia” (Trauer und Melancholie), Freud explica porque o luto não é um estado patológico. O ser amado desapareceu e não pode mais ser objeto de amor. O homem de modo geral não abandona facilmente uma posição libidinal, mesmo quando um substituto lhe faz um sinal, às vezes já na sala do velório. No trabalho de luto é primordial a visão do morto para a realização de que o ser amado realmente morreu.

Essas imagens do morto – no caixão irão se contrapor a todas as imagens da pessoa ainda em vida. Quantas pessoas não entraram em estado melancólico e por toda vida choram a perda de um ente querido, porque não puderam ou quiseram ver morto. Hoje, muitas famílias impedem as crianças e até os jovens de verem seus avós e parentes falecidos no velório. Para eles sobrará o duro encargo de realizar uma morte sem imagem. O velório cumpre entre outras esta função. Quem não é capaz de ver um morto não é capaz de ver sua vida mortal. A secularização quer jogar no lixo práticas de sabedoria elaboradas ao longo de milênios como se fossem crendices inúteis ou anacronismos religiosos. É até com certa tolerância que devemos encarar o trabalho de maquiagem‚ feito em cadáveres, principalmente quando foram timas de acidentes graves. Essa é uma forma de garantir aos familiares e aos amigos a possibilidade de rever e re-conhecer um ente querido, mesmo se através de um vidro colocado na tampa do esquife, que de outra maneira seria apresentado num caixão fechado.

No lento caminho do luto, o objeto desaparecido deverá migrar do afeto para a lembrança. O amor será dirigido a outro (s) objeto (s). Um cadáver não pode ser objeto de amor, de carinho, de atenção ou de ternura. Essa força de amor deverá progressivamente ser dirigida a outro conteúdo. Por isso, a presença física e a visão do morto são essenciais.

Quantas pessoas se reaproximam durante um velório; quantas amizades ganham um novo impulso; quantos contatos perdidos são restabelecidos. Nos velórios tradicionais, onde se serviam verdadeiros banquetes para os acompanhantes, cenas de excepcional alegria acabavam envolvendo os participantes, como fruto dessa redistribuição do amor. Cenas que se repetiam após o enterro na prática de servir uma sopa ou alguma refeição aos que haviam participado das cerimônias.

A morte é um mistério impenetrável. Mesmo para os que morrem na esperança da Ressurreição e da Vida Eterna. Por isso, as celebrações de corpo presente e os ritos dos defuntos ajudam a todos. Tudo que se possa dizer sobre o que advém ao espírito humano imediatamente após a morte é sempre conjectura, fortemente imbuída de conteúdos psicológicos e culturais. Mas se a visão é limitada, a percepção é cósmica. Nada do que envolve os ritos da morte deve ser evacuado ou escondido. Ninguém pode, nem deveria ser poupado de nada nos ritos funerários. Participar desses ritos é mais do que um direito, trata-se de uma necessidade de saúde psíquica.

Como a vida, a morte também é um processo. Nos anos sessenta passamos da morte cardíaca para a morte cerebral. Mas as unhas, a barba, os cabelos dos mortos continuam crescendo. Às vezes de forma impressionante e visível ao longo de um velório. Devemos orar pelos mortos e por suas almas. Os ritos religiosos de todos os horizontes, os da Igreja Católica em particular, reúnem uma sabedoria de milhares de anos. Eles ajudam – através das orações, dos gestos, dos símbolos utilizados, do incenso e da aspersão da água benta – no encaminhamento do espírito do morto e dos vivos. Qualquer que seja a tradição religiosa, os rituais da morte, do velório, do enterro e do luto colocam a família em contato com as realidades positivas do evento e fazem parte de um processo. Uma dessas dimensões é a abertura para a Graça celeste, que nesses momentos envolve as pessoas, revaloriza a vida e a vida em Deus.

Outra função do velório é a de se realizar a realidade, o peso biológico do morto ou de um cadáver. Estar ao lado do morto, passar uma noite em claro tomando muito café, relembrar centenas de imagens tão distantes da atitude atual do morto, entrar pela madrugada exausto, enfrentar inclusive odores estranhos, enxugar lágrimas próprias e dos outros, ouvir sinceras e falsas condolências, contar e recontar como a morte ocorreu, repetir como mantras infindáveis orações e ladainhas etc., tudo isso pesa e chega a exaurir as energias dos presentes.

Ao amanhecer começa-se a desejar a partida daquele corpo embaraçante e extremamente reduzido, frente à dimensão cósmica do ente querido. Nessas situações, a chegada do carro do funeral ou dos funcionários para proceder ao enterro é vista quase com alívio. Na ausência de velório prolongado, a chegada do carro do funeral desencadeia um surto de desespero e de recusa por parte dos vivos que não tiveram tempo de realizar a imensa distância que existe entre o ente querido e seu corpo biológico. Às vezes cenas terríveis são vividas no fechamento do caixão ou na sua retirada do local. Quanta sabedoria não existe na tradição popular de esperar no mínimo vinte quatro horas antes de enterrar alguém.

Outra tendência atual é a de deixar a incumbência do enterro e de seu acompanhamento a uma minoria das minorias enquanto a grande parte, cheia de afazeres e compromissos, abandona rapidamente o local com um ar compenetrado diante das tarefas que os convocam. Alguns chegam a reclamar do morto ter morrido durante a semana e não num sábado ou domingo onde as coisas seriam mais simples, apesar de que…

Nas cidades acompanhar o enterro de carro até o cemitério é um evento de conjunto e de ação, em ruptura com a relativa estagnação anterior do velório, mesmo se cada vez mais raro. Os enterros não saem mais das casas, nem das capelas, nem dos hospitais. Os velórios são realizados quase sempre no próprio cemitério. O acompanhamento até o “campo santo” é repleto de momentos especiais: desde a distribuição das pessoas nos carros – que nunca‚ neutra – até as inevitáveis reflexões próprias ao trajeto. Nas ruas a passagem de um enterro sempre suscita um mínimo de respeito e surpresa: o trânsito cede passagem, as pessoas param, abaixam os olhos, algumas fazem o sinal da cruz ao som da sirene do carro funerário.

Chegados ao cemitério é necessário acompanhar o enterro a pé‚ sob o sol e erguer, depositar sobre um carrinho ou carregar numa alternância de portadores um caixão que sempre pesa muito mais do que se imagina. Carregar pela última vez quem sempre nos carregou ou talvez nunca o fez. Caminhar pelas ruelas dessa estranha cidade de túmulos. Sepulturas que exprimem a diversidade e a polifonia do imaginário de cada família frente à morte de seus entes queridos.

Eventualmente uma espera a mais numa capela ardente, ou no velório do cemitério ou ao lado da sepultura. Acontecem últimas orações e despedidas do defunto, providências burocráticas, fechamento definitivo do caixão e mais um acompanhamento até a campa, a espera pela abertura e pelo fechamento do túmulo pelos pedreiros, após a deposição do caixão. Tudo pesa. Há momentos em que a pessoa começa a desejar se livrar do incômodo e do peso real, que representa um cadáver. Chega-se conscientemente ao “está na hora de enterrá-lo”. Aquele corpo físico deve ser deixado. Isso feito sem pressa, com a devida temporização é de grande auxílio no trabalho de luto dos familiares e entes queridos.

Só Deus sabe o quanto o Dr. Tancredo Neves, primeiro presidente civil depois de um longo período de exceção e tragicamente morto antes de tomar posse, nos ajudou ao morrer devagarinho. Só Deus sabe o quanto aquele pedreiro humilde de S. João del Rey, ao lacrar lentamente, muito lentamente e com especial esmero, o túmulo do presidente – diante de todas as câmeras de TV – manteve o povo ainda em espera. Quando tudo parecia acabado, ele fez chegar ao ápice o desejo de todos de acabar logo com aquilo.

Os rituais da morte são um dever para com o morto e um direito dos vivos. É paradoxal que o dever e o direito a esses ritos, na defesa dos quais historicamente muita gente já morreu, esteja sendo abandonado no naufrágio das consciências nesta sociedade moderna. Os ritos ligados a morte são um dever e um direito inscrito nas consciências, como marcos do homem e de sua humanidade no tempo e na Eternidade.

Uma das primeiras indagações de Deus ao homem no texto bíblico do Gênesis foi: – Onde está o teu irmão? O sangue do teu irmão clama por mim desde a terra! Com essas palavras o cardeal-arcebispo D. Paulo Evaristo Arns, iniciava em abril de 1973, sob forte controle policial, uma missa na catedral de S. Paulo. O povo em silêncio se congregava pela intenção de um jovem estudante, militante político, assassinado sob a tortura. Além do crime, a família sequer pode enterrar o cadáver! Cristo pode ser descido da cruz para os braços de sua mãe. Seus amigos puderam lhe dar sepultura.

Houve dias no Brasil e na América Latina em que esse direito, exercido por Maria, João e Nicodemos desapareceu e foi negado a muitas mães, amigos e familiares. Tempos terríveis, ainda em vigor em muitos países da Ásia e da África. Tempos que podem se repetir em qualquer lugar. O direito familiar de enterrar seus mortos sempre foi sagrado em todas as civilizações. De morte natural ou provocada, as famílias sempre puderam enterrar seus mortos, salvo em situações excepcionais de grandes mortes coletivas devido a epidemias ou guerras, ou no caso de perseguições políticas. Conhecemos o episódio de Antígona, tragédia teatral imortalizada como uma das obras primas de Sófocles.

Essa irmã de Édipo enfrentou o tirano Creonte para dar sepultura a seu irmão Polinice, que morrera lutando para conquistar um direito de governar a cidade que lhe fora negado e usurpado pelo irmão Eteocles. A lei religiosa inscrita na sua consciência superava a lei escrita pela prepotência de Creonte que organizara honras funerárias a Eteocles e tratava seu irmão Polinice como um estrangeiro traidor. Antígona, repleta de feminilidade, dá sepultura a seu irmão e paga com a vida esse gesto!

As listas dos desaparecidos políticos no Brasil e na América Latina existem também para mostrar como o brilho do metal civilizatório se ofusca com tremenda facilidade quando deixa de ser polido pela razão e pelo comedimento. Ao mesmo tempo em que o gesto de dar sepultura em alguns países da Europa, como a Holanda, por exemplo, ganha novas audácias. Depois de medidas tão antissépticas com relação aos mortos, caminha-se quase para outros extremos. A legislação vem sendo relaxada para que, em determinados casos, as pessoas possam enterrar ou espalhar as cinzas de seus mortos em seus próprios jardins.

Depois do enterro há o luto. Nas áreas rurais, os familiares ainda portam o luto de um ente querido. No passado, nem o rádio das casas era ligado alto quando havia uma morte na rua. Existiam vestimentas, ritos, períodos e atitudes exigidas no luto de todos que o revestiam. Desde a missa de sétimo dia, à missa de trinta dias, às novenas pela alma do falecido etc. Perguntas escatológicas nos assaltavam. Ao ver alguém de luto nas ruas como não lembrar que determinada pessoa morrera. Como diz Freud, é difícil explicar o luto em bases econômicas. É notável que o desprazer da dor apareça como normal n o caso do luto. Mas o fato é que o Eu, após acabar o trabalho de luto, retorna livre e sem inibições. Um luto não realizado leva à melancolia e pode terminar na esquizofrenia.

Sem morte o haveria vida. Os indivíduos envelhecem e morrem para que a espécie continue. A contradição entre indivíduo e espécie é uma das leis da natureza. O confronto entre o amor e a morte é a lei divina. A. Schopenhauer, em sua metafísica do amor e a metafísica da morte, acusa os que se amam por ignorarem a falta de sentido de um mundo material e finito. A revolta metafísica nasce da força do amor frente a um mundo despersonalizado, marcado por objetivos e hábitos coletivos, indiferente às individualidades. Uma pessoa pode parecer inútil, desconhecida, isolada e sem existência nesse complexo universo. Para alguém que a ama, ela é absolutamente essencial e indispensável. Os verdadeiros amantes se amam para sempre, mesmo sabendo que é por uma vida. Nas relações amorosas germinam sementes de heranças eternas. A morte só é realmente problema para aqueles que tiveram a audácia de amar alguma coisa sobre a terra.

Sempre difícil aceitar a perda de um ente querido. Mas sem a morte não haveria herança. Tudo o que recebemos de nossos pais e avós são ensinamentos e valores. Quando eles morrem esses ensinamentos, testemunhos e valores se tornam nossa herança. Às vezes, como S. Pedro, na cerimônia do lava-pés, dizemos não. Não, você não vai me lavar os pés. Não, você não vai morrer. Eu não aceito! Mas se não aceitarmos, não teremos parte no banquete celeste. Jesus deixa claro que eles tirarão grande proveito de sua morte. Não o proveito visto como lucro bancário, mas a herança de sua ressurreição.

Em termos materiais, Jesus não deixou sequer uma veste de herança. Sua herança foi de outra ordem. A herança são os fatos da vida que transcendem a morte. Até hoje, no caso das grandes tradições religiosas, todos os filhos espirituais se beneficiam da herança deixada por seus fundadores. Aceitar a morte do outro é entrar no gozo de sua herança. Essa reflexão deve ser engajada diante da morte de toda e qualquer pessoas conhecida, mais ou menos querida. Que herança ela me deixa? Isso quando a herança existe, pois muitas pessoas não deixam sequer um fato, um filho ou uma lembrança com força suficiente para transcender sua morte na vida de alguém. Pelo contrário, alguns são objetos de um esquecimento quase que voluntário por parte dos que ficam dadas suas vidas, por vezes cruel e equivocada. A pessoa morre e é esquecida.

Sempre existiu uma forte interligação entre a morte e a herança de bens materiais. Hoje em dia, como no passado, as heranças de bens materiais podem ser causa de transtorno e de divisão entre os familiares. Essas disputas desonram os falecidos e ofuscam o acesso a sua herança espiritual. Em algumas etnias africanas, a herança de bens materiais é matrilinear e segue regras complexas. Em última instância herda-se das tias do lado materno. Esse sistema distancia ao máximo, em termos de laços familiares, o beneficiado pela herança do seu provedor.

Nessas condições, inclusive, não muito interesse em deixar bens para um parente tão distante. Além disso, nos rituais funerários o beneficiado se vê obrigado a ostentar uma pompa na medida da parte herdada. Isso leva a que a herança, e em geral até mais do que esta, seja totalmente dispensada e consumida nos ritos funerários. Em síntese é muito raro sobrar algo de material e substancial da herança no final desse processo.

Diante de indagações sobre esses mecanismos e práticas, os africanos de uma etnia do sul do Sahara perguntavam também sobre o nosso processo de transmissão de bens. Informados que aqui os filhos herdavam diretamente os bens dos pais, eles acham isso extremamente complicado. Perguntavam como poder-se-ia realizar uma partilha justa entre filhos diferentes, se preocupavam em saber se isso não gerava disputas entre entes queridos, se as famílias não se dividiam etc.

Com o avanço da medicina, do saneamento e das condições de vida em geral, a idade em que se morre recua constantemente, enquanto aumenta a expectativa de vida. Esses fatos contribuem para mudar a expectativa e a função da herança de bens materiais com a morte dos pais. Quando os filhos herdam, ao contrário do passado, essa herança pode significar pouco ou quase nada em suas vidas. Isso porque frequentemente já estão casados, com suas vidas mais ou menos definidas e construídas no momento em que intervém uma hipotética herança. Nesse sentido, também os pais que se preocupam em deixar “um futuro” para seus filhos deveriam perceber que seria mais importante – como sempre foi – ajudá-los a construir um presente.

Enfim, o acesso à herança dos outros, coloca a cada um a questão de saber que herança será deixada por cada um quando de sua morte em termos afetivos e espirituais, e não somente materiais. Que fatos de nossa vida nos transcenderão em nossa morte? Que ensinamentos e gestos de nossa vida, marcados por nossa pessoa de forma indelével, continuarão ecoando no coração dos que ficam?

Uma pequena estória, verdadeira, pode ajudar na busca de resposta a essas perguntas envolvendo a transcendência de nossas vidas. Um amigo, juiz de direito, viveu na França às vésperas da revolução cultural que foi o Maio de 1968. Pelo Quartier Latin ouvia Jean Paul Sartre falando nas praças e esquinas para estudantes e trabalhadores. Numa de suas falas filosóficas Sartre mencionava que tudo morre, inclusive o amor. Nisso foi interpelado por uma jovem que lhe disse: – Menos o amor cristão! Ele a contestou com um sonoro: – Esse amor eu desconheço! E foi logo aplaudido pela plateia.

Cerca de 20 anos depois, esse mesmo amigo acompanhava sua esposa numa visita ao túmulo de uma irmã de caridade no cemitério de Montparnasse. Ela é muito venerada pelo exemplo que deixou em sua vida de amor e santidade no século XIX. Com sua filmadora, ele captava todo o carinho expresso em flores, vasinhos, pequenos bilhetes e cartas de agradecimento por graças alcançadas por sua intercessão junto a Deus. As flores recobriam com um profuso colorido toda a extensão do seu túmulo. Numa tomada de imagem, ao fazer um zoom, ele percebeu com surpresa, que na ruela de trás estava o túmulo de Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Ele foi até lá. Sobre o túmulo, com ar de abandono, havia apenas uma folha de palma completamente ressequida. Olhando para o túmulo da irmã, todo florido, ele se dirigiu ao de Sartre dizendo: – Olha lá o amor cristão!

Nossa vida pode transcender nossa morte em diversas medidas. Alguns deixam associadas a seus túmulos as palavras dedicadas a Dom Quixote na lápide de sua sepultura: “Aqui jaz o fidalgo forte, que a tanto extremo chegou, que a Morte não triunfou de sua Vida com sua morte.” Mas para o morto, existe alguma herança? Para Epicuro, filósofo injustamente caluniado pela Igreja no passado, a morte não era nada. Quando existimos a morte não está presente e quando ela está presente nós não existimos. Nesse sentido, segundo Epicuro, a morte não deveria significar nada para os vivos porque, para eles, ela não tem existência e também ela não ‚ nada para os mortos porque eles não existem mais. Agregando sempre que um filósofo não teme a inexistência. Ora, se alguns aceitam a morte como um processo normal e natural de degradação biológica, a maioria não aceita de reduzir o homem a uma usina bioquímica aperfeiçoada cujo destino é o nada. André Malraux dizia: “O problema não é que devamos morrer, mas que eu vou morrer”.

Como indica Michel Hubault, no livro “A Vida além da vida”, todas as culturas e religiões buscaram decifrar o enigma do além morte e muitas de suas intuições foram grandiosas. Mas a maneira de “viver” a morte e de conceber o além sempre foram bons indicadores para discernir a ideia que o homem se faz dele mesmo. Mais do que isso, existe quase sempre um ligação profunda, misteriosa entre os modos de viver das pessoas e seus modos de morrer. São rios, mas não inúmeros, os modos de morrer, em geral bastante ligados ao modo de viver de cada um. Sabemos que morreremos, mas não sabemos, fora da perspectiva do suicídio, nem quando, nem como. Dos vários modos de morrer, muitos podem ser evitados e outros buscados por cada um como fruto do seu modo de vida.

Existem os extremos: a morte absurda e a morte desejada. Entre dois seres que se amam a morte pode arrancá-los bruscamente um do outro. A morte chega para terminar com a intensa felicidade que comungavam. Quem foi gratificado pelo amor pode sentir, pela morte, a perda e a separação no nível do mais absoluto absurdo. Qual seria a solução? Amar menos? Não amar para evitar o sofrimento? Sem o amor a vida já seria a morte! Parece difícil aceitar a proposta do Buda a Visakkha Migaramata para consolá-lo da morte de sua filhinha querida: “As inumeráveis formas dos sofrimentos, das dores e das queixas deste mundo vêm simplesmente de que nós temos alguma coisa que nos é cara. Se você não tem nada que te seja caro, nenhum sofrimento poderá te atingir”. A morte tem algo de ininteligível para os que amam.

Num outro extremo, os que foram decepcionados em suas aspirações, em seus desejos e impulsos amorosos podem vir a desejar explicitamente a chegada da morte. Muitos aspiram deixar esse mundo, talvez como uma forma mimética de desejar tê-lo vivido realmente. Como no Soneto LXVI de Shakespeare: “Cansado de viver, eu clamo pela morte repousante.

Existem outras formas de desejar a morte. De forma consciente, no terrível sofrimento de uma doença incurável, o paciente paga seu tributo de paciência. Com dignidade, alguns reivindicam o direito de morrer. O desamparo da ciência diante de certos tipos de câncer tem feito crescer o debate sobre a eutanásia. Um paciente terminal de câncer no pulmão vai perdendo sua capacidade respiratória. A asfixia progride com horríveis sofrimentos. Como dizem os médicos, o pior é que o doente não tem a sorte de poder morrer de outra coisa. Nessas situações, o doente interpela o médico pedindo: – Se você não é um assassino, mate-me por favor! Deve-se matar por amor nessas situações? Léon de Schwartzenberg e Pierre Viansson-Pont‚ no livro “Mudar a Morte” já defendiam, em 1977 que, salvo inconsciência do paciente, sim.

Estar conectado a uma máquina, sob cuidados intensivos, é justificado quando serve para o doente sobreviver a um grave problema de saúde, auxiliado temporariamente em alguma função vital deficiente. A utilidade desse artifício é discutível se seu único objetivo for o de prolongar a vida de um doente em fase terminal. Os católicos questionam a validade desse recurso, são contra a obstinação terapêutica e pela interrupção de tratamentos desproporcionais, sem diminuição dos cuidados necessários para diminuir o sofrimento.

Defensores da eutanásia argumentam que ela é um direito para morrer-se com dignidade. Para os católicos, a dignidade é o estatuto incondicional do ser humano. Cada pessoa tem dignidade porque é única e insubstituível. Todo ser humano é digno, independentemente de sua condição: jovem ou idoso, deficiente ou não, consciente ou inconsciente, doente ou saudável. Morrer com dignidade implica em ser respeitado e não submetido à eutanásia.

Existem dois tipos de suicídio: o voluntário e o involuntário. Sobre o primeiro, única questão realmente fundamental, segundo a ideia de Albert Camus, muito tem sido dito e escrito. A vivência religiosa parece exercer uma forte inibição sobre o suicídio, que não é um ato de fraqueza, nem de coragem, mas certamente de desespero na maioria das vezes. Biblicamente, como indica o padre Léo Pessini, nem o Antigo (com seis exemplos) nem o Novo Testamento (com um exemplo, o de Judas) proíbem ou condenam o suicídio. Os primeiros cristãos se mataram por razões religiosas. Só bem mais tarde a Igreja Católica definiu o suicídio como algo moralmente mau e pecaminoso. Por vezes o suicídio é fruto de uma equivocada internalização do mal. Os suicidas seguem um raciocínio no qual o mal não está nas relações, não está na sociedade, nem está nos outros e suas circunstancias. Ele está exclusivamente neles mesmos, como algo quase genético. Seguindo esse raciocínio, eles mesmos seriam a causa de seu próprio sofrimento. Ao eliminarem-se eliminariam o mal.

Um pouco nessa linha, outros suicidas buscam uma forma de redenção para uma vida equivocada, fracassada, que fez sofrer ou decepcionou a muitos entes queridos ou ainda para a qual não existe mais nenhum horizonte ou esperança aparente. No Brasil, indígenas tem caminhado para essa saída fatal diante da falta absoluta de qualquer perspectiva digna para o futuro de sua etnia, território e língua. É certamente o suicídio involuntário o que mais aflige nosso país atualmente.

Talvez nunca tantas pessoas caminharam para um suicídio involuntário como as que vivem nas grandes aglomerações urbanas. Ao dirigir seus carros como loucos, ao comer excessivamente ou praticando regimes de emagrecimento que matam a pessoa por anorexia, fumando, bebendo, usando drogas e tóxicos. O pior é quando, nessa trajetória, levam ou deixam vítimas inocentes. Mantém em grandes sofrimentos familiares e amigos que vêm a pessoa destruir progressivamente seu corpo e seu tecido de relações. Ninguém tem o direito de dispor dessa forma de seu corpo, degradando-o e destruindo-o, mas a graus diversos, mergulhadas na inconsciência, na enfermidade psíquica, as pessoas caminham a passos largos e por formas diversas nessa trilha do suicídio involuntário.

Esses casos não podem ser confundidos com os de pessoas que conscientemente fazem de suas vidas um desafio à morte: esportes radicais e perigosos, profissões arriscadas e atitudes de extrema coragem em diversas circunstâncias. São os heróis, no sentido tradicional da palavra. Fazem o que nós não fazemos: brincam com o destino e desafiam a morte. Nós os admiramos e em algum lugar temos inveja desses seres extra-ordinários. No fundo, talvez desejamos, inconscientemente, que eles quebrem a cara, que eles se dêem mal. Não é possível desafiar a morte impunemente e nos ridicularizar em nossos receios e prudências tão humanas como eles fazem. Em nosso relacionamento pessoal com a morte os heróis são uma afronta. Quando eles literalmente “quebram a cara”, o pranto de todos é enorme: perdemos nosso herói. Mas esse pranto acaba sendo maior que o esperado. Em existe um remorso inconsciente, já que de alguma forma desejou-se a morte do herói. Isso explica um pouco esses movimentos de massa, de tristeza consciente e remorso inconsciente, que se assistiram no Brasil quando da morte do automobilista Ayrton Senna, por exemplo, e outros heróis populares.

Para alguns a morte chega de forma repentina. A maior parte das mortes registradas com pessoas entre 10 e 40 anos de idade nas cidades do Brasil tem causas violentas: acidentes de trânsito, acidentes de trabalho, crimes. Ninguém está indene desse rapto que pode representar, se é que se pode dizer, a morte fora de hora, a morte acidental. A surpresa da morte inesperada desespera os vivos. Estes tendem a especular sobre o destino do morto surpreendido, ele também, por uma morte imprevista. Nunc et in hora mortis nostre. Agora e na hora de nossa morte.

Na realidade, toda hora é hora para se morrer, da mesma forma que toda hora é hora para se viver. A morte pode ser imprevisível, mas não imprevista para quem dialoga com essa realidade e com ela funda as principais decisões de sua vida. Estar ciente. Estar preparado ou disponível. Sempre. Tanto nossos entes queridos podem ser pessoalmente chamados para o encontro com o Infinito, como cada um de nós. Não querer morrer, recusar e ignorar a realidade da morte é ainda a atitude e o modo de viver de muitos. Pessoas que buscam adiar ao máximo o fim de suas vidas, talvez porque não realizaram nada ou quase nada do que deveriam realizar: o encontro pleno com seu Eu profundo, com sua humanidade única, com seu arquétipo, com o Ser.

Avançam nesse sentido os que ao longo da vida aprendem a se despojar do apego aos bens materiais e intelectuais. Muitos também fazem o caminho contrário: lutam para o acúmulo de bens e saber. Para esses, a morte é algo absurdo e “impraticável”. Como deixar tudo o que foi entesourado de forma tão individual e acumulativa. Para quem busca uma individualização na posse de bens materiais a proposta da sociedade de consumo é perfeita. Ela propõe uma ilusória escolha pessoal, e por vezes “exclusiva”, de bens de consumo, na realidade bens destinados ao consumo de massa.

O sistema produtivo necessita de comportamentos de consumo massificados. Comportamentos conscientes e extremamente personificados não se coadunam com o consumismo e com a venda em serie e por modismos. Principalmente quando a pessoa busca sua personificação em decisões conscientes. Elas tornam cada um de seus atos, atos significativos. Para o indivíduo despojado, que faz um luto permanente das ilusões temporais, não surpresa a temer.

S. Francisco a chamava de Irmã Morte. A irmã morte é preparada no caminho do desapego e da consciência pela espada do amor. Eu amo você porque você é seu e não porque você é meu. Para quem está centrado em si mesmo, e não nos outros ou em bens externos, a morte vem com naturalidade através da maturidade. Ritos, símbolos e alegorias religiosas preparam, amadurecem e enriquecem cada um desde a infância. Sem morbidez, nem necrofilia.

Duas posições equivocadas devem ser superadas. Os que não atribuem nenhuma realidade ao pós-morte tendem a negar a importância dos ritos e símbolos que cercam a morte. Tendem a eliminá-los de sua vida familiar, com grande perda para os que devem realizar o trabalho de luto. Do outro lado, estão aqueles que por possuírem crenças religiosas e certezas espirituais quanto ao pós-morte, também acabam esquecendo a importância das alegorias, dos tempos e dos ritos que devem reger as cerimonias de despedida de um ente querido.

Ressuscitamos e morremos todos os dias no caminho da nossa vida. Mas no último dia, na hora do chamado, oxalá nossa entrega possa ser total e sem hesitação, fruto da vivência da morte dos outros. Quem sabe agiremos como os apóstolos no episódio evangélico que antecedeu a transfiguração do Cristo. Pedro, Tiago e João são chamados por Jesus (Mc 9,2-9). Eles o seguem, sem indagar para onde, se a hora é certa, se a opção é valida etc. Nesses momentos de total intuição e lucidez devemos seguir e atender ao Chamado. Não mais nada para esconder. Não há como se esconder. Preparamo-nos para receber e deixar uma herança. É um grande “negócio” nesta sociedade secularizada, trocar a ilusão da imortalidade, trazida pelo consumismo materialista, pelas intuições de eternidade.

Dans l’attente de Daniel

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