RECONCILIAÇÃO


(29/3/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

Pela autoria da parábola do filho pródigo, Charles Peguy dizia que trocava toda sua obra literária. Esse texto maravilhoso tem sofrido muito com as traduções. Seu título poderia ser: um rebento se torna filho (Lucas 15, 11-32 e cf. Mateus 21, 33-46). A parábola começa anunciando que um homem (anthropos) tem dois rebentos (teknon) e não filhos como em tantas traduções. O rebento não é próprio da espécie humana e evoca broto, fruto, produto. O humano tem duas criaturas produzidas, como Adão com Caim e Abel, como o senhor da vinha, como em tantos processos de fertilização assistida ou fecundação artificial.

Nessa parábola não há pai, filho ou irmãos. As palavras pai, filho (e irmãos) não aparecem inicialmente para qualificar os personagens da parábola, salvo nas traduções traições. Mesmo se o mais novo (rebento) chama o pai de pai, o texto não o trata de filho e sim de: o mais moço, o mais novo. O outro irmão será tratado de: o mais velho, o primogênito. A palavra filho demora para surgir, apesar da boa vontade dos tradutores.

O pai é evocado quando o mais novo pede sua parte da herança. Ele volta a evocar o pai (meu pai) diante dos porcos, vivendo e comendo como eles (imagine-se a força da imagem no contexto judaico do tempo de Jesus e do animal imundo por excelência que representava o porco) ao lembrar de seus operários e do que comiam. Evoca o pai (meu pai) ao decidir ir ter com ele. E diante do pai, conclui que não merece ser chamado “teu filho”.

O filho é evocado pelo pai pela primeira vez quando retorna. Após ter deixado o estado de fusão, após a separação. Eu vim trazer a separação, entre pai e filho, entre filho e pai (Lc 12,49-53; Mt 10,34-36). Após destruir os vínculos materiais da herança, o filho mais novo volta, e assume o seu lugar, não como rebento, como produto, mas como filho, sujeito e não assujeitado. Este meu filho (que aqui está) estava morto e voltou à vida.”

O irmão é evocado quando o primogênito (que ali sempre esteve e dali nunca saiu, fundido e confundido), submisso, conformado, obediente e constrangido, pergunta ouvindo a música: o que é isso? O que é a sinfonia, a harmonia e os cânticos. Um dos rapazes (servos) lhe diz: Teu irmão chegou. O mais velho não reconhece o irmão, recusa-se a reconhecer o irmão e diz ao pai: Esse teu filho que aí está. Mas o pai, como pai verdadeiro, restabelece a fraternidade diz: Esse teu irmão que aí está. Onde está o nosso irmão? É difícil ver o outro, principalmente quando é diferente, pobre, deficiente ou morto.

A parábola termina com pai, filho e irmãos reconciliados. Alguns exegetas destacam o filho pródigo, outros o pai misericordioso. O texto nos fala do pai, do filho e dos irmãos reconciliados. Colocados em acordo, em harmonia (como a sinfonia do texto), lado a lado, juntos, como os cílios, recon-ciliados. Unidos, iniciados e aliados.

A morte é uma passagem, um retorno para a casa de Deus, um Pai de infinita misericórdia. Na casa do Pai não existe choro, dor ou sofrimento. Ali, acabam-se as realidades e dimensões deste mundo. Não existem desigualdades, ameaças, violências ou injustiças. Deus não nos espera com um livro de contabilidade ou um porrete nas mãos. O filho pródigo recebe anel, sandálias novas, roupas limpas e uma festa é dada em sua honra. Deus não nos compensa, nem recompensa. Ele vai muito além de tudo que possamos ter feito por Ele. A páscoa, a passagem pela morte, é uma mudança de situação. Não só por deixar este mundo, mas porque podemos deixar definitivamente o engano, o tropeço, a impiedade, o ódio, o orgulho e tantas coisas que nos separam de Deus, da condição de filhos de Deus e de nossos irmãos. Entramos plenamente na comunhão dos santos.

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