QUEM VOCÊ É?


(23/11/2003)

Evaristo Eduardo de Miranda

“Eu vou mostrar para ele quem eu sou!” Péssima idéia. Ou ainda, “Mostre a ele quem você é!”. Péssima sugestão. Quem é, não precisa mostrar, nem provar, nada para ninguém. Quem deixaria de ser por injurias, descrenças, calúnias, decepções ou desavenças? Muito menos por desacato. Quem parte para provar a alguém quem ele é está na trilha do fracasso, beira a violência, pode romper definitivamente laços preciosos. Cegado por seu egoísmo e por uma autoimagem inflacionada, pode até cometer um ato grave, irreparável ou irreversível.

A melhor prova do que somos é o testemunho de nossa existência, os gestos de nossa vida e as intenções interiores que animam nosso cotidiano. Mesmo para uma pessoa centrada, a maior das tentações é sempre esta: prove quem você é. Inclusive fazendo o bem. Como é público e notório, o diabo tem feito cursos de reciclagem e de pós-graduação. Não se apresenta mais com chifres, rabo e cheiro de enxofre. Não vem propondo o mal e a maldade. Não, não. Depois de seu MBA, ele age de outra forma. Apresenta-se vestido dentro da moda, sem exageros. Engravatado e perfumado de suaves fragâncias. Ele propõe que a pessoa mostre quem ela é fazendo o bem diante de todos, um gesto público, um sacrifício político, aceitando um cargo ou um encargo.

Foi assim na tentação de Jesus, segundo o relato do evangelista Mateus. Depois do seu batismo, Jesus foi levado pelo Espírito, pelo Sopro Sagrado, para o deserto. Depois de 40 dias sem comer, devia estar com fome. Não é para menos. Na realidade, na tradição judaica o número 40 significa muitos. Podem ser 40 anos errando entre o Egito e Israel, podem ser 40 dias no deserto… enfim seu emprego evoca um tempo longo. Diante de um Jesus com fome e com sede de Deus, Shatan chega e o interroga. “Vamos ver como anda sua encarnação. Vamos ver até onde você é o que diz ou aparenta ser. Prove para você mesmo, quem você é.” É bem mais razoável e legítimo do que provar para os outros. O mal-igno é mal-andro e mal-icioso. O risco do ridículo era mínimo. O de ofender alguém, também. Jesus estava só. No meio do deserto. “Prove para você mesmo, quem você é. Se você é o filho de Deus, transforme estas pedras em pão. E coma. Merecidamente. Para mim, você não precisa provar nada. Prove para você.” Muito sutil.

Quando nos olhamos no espelho e perguntamos quem somos, colocamo-nos à beira de algo vertiginoso. Quem sou eu? Uma coisa é certa. Somos mais, muito mais, do que imaginamos. Aquilo refletido no espelho é apenas uma infinitésima parte do que somos. Somos imensidão e eternidade. Somos “além” de uma imagem no espelho ou de uma velha fotografia de infância ou juventude. Somos homens e mulheres em busca de nossa humanidade. No deserto, Jesus sabe disso. Vive progressivamente o mistério de sua encarnação e de sua filiação a Deus. Ele responde: não. Shatan cita as escrituras sagradas, a Torá. Jesus também cita as escrituras. Como judeu devoto, de linha farisaica, ele sempre cita as sagradas escrituras, sua amada e abençoada Torá. Nem só do pão viverá o homem, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus, dirá Jesus. Shatan não tem pressa.

Deus já havia constatado e declarado: o homem ganharia o pão com o suor de seu rosto. Desde quando deixou o jardim do Éden. O mesmo vale para o pão da palavra. É preciso trabalho e ardor, para receber o alimento celeste, a palavra de Deus. É necessário suar a camisa. Esse alimento não vem por casualidade, por andar com a bíblia debaixo das axilas ou por trocas mercantilistas e interesseiras com o divino: eu te dou isso em troca daquilo. Ele aponta um rumo de identidade interior. Buscar a Palavra de Deus. Esforçar-se na missão. Trabalhar-se interiormente. Sempre. Fazê-lo sem querer provar nada.

Não prove nada a você, nem a ninguém. Rejeite essa tentação. Sua vida é sua prova. Seja. Não diga. Seja. Não faça. Seja. Leve suas intuições interiores, seus chamados interiores, com fidelidade. Em meio à aridez cotidiana e à solidão existencial, fale com Deus e seja. Obedeça suas intuições interiores mais sagradas. Mesmo se elas exigem trabalho, esforço, suor e, por vezes, vão contra toda lógica. Suar é sadio, suar é santo. Ao cumprir sua missão até o fim, Jesus suou tanto que marcou um lençol por toda eternidade, um santo sudário. Uma das provas do que foi, Aquele que É o que É.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Quem você é! A Tribuna, Campinas – SP, 2004.

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