QUEM EXPERIMENTA, SABE


(6/10/1999)

Evaristo Eduardo de Miranda

A pedra que os construtores rejeitaram

foi a que se tornou pedra angular.

Mateus 21,42

Era um dia muito especial. Felipe, do alto de seus treze anos, acabava de participar pela primeira vez eucaristia. A primeira comunhão é uma passagem na vida das crianças: deixa-se a terna infância para penetrar na pré-adolescência. Na igreja, a emoção era grande. Felipe seguira, com muita aplicação, dois anos de catequese. Vencera muitos obstáculos desde o seu parto, quando foi vitimado pela paralisia cerebral.

Após a celebração, as pessoas conversavam no interior da igreja. Um tio, muito “estudado”, aproximou-se da mãe. “Parabéns. Foi uma bela cerimônia.” A mãe agradeceu. Ele agregou: “Pena que essa pobre criança não entendeu nada.” Diante dessas palavras, a mãe inclinou a cabeça. As lágrimas brotaram em seu rosto. Felipe estava um pouco distante. E se é verdade que talvez ele não tenha entendido tudo da celebração, ele entendeu plenamente a tristeza da mãe. Com seu andar cambaleante, aproximou-se, abraçou-a e, com sua fala fanhosa disse: “Mãe! Não fique triste. Deus me ama como eu sou!”.

Como dizem os místicos: quem experimenta, sabe! Não era da primeira, mas de toda a comunhão da Igreja que o Felipe participava. Quem pode medir a compreensão do outro sobre os mistérios celestes? O que esse tio entendeu do evangelho? Felipe entendeu o essencial. Nele cumpriu-se, mais uma vez, as palavras de Jesus: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, por teres ocultado isso aos sábios e aos inteligentes e por tê-lo revelado aos pequeninos (Mt 11,25).”

Este episódio nos coloca a dificuldade da acolhida dos deficentes na Igreja, em particular nos sacramentos. As experiências positivas são poucas. E as orientações pastorais e litúrgicas inexistentes. Não são uma minoria. São cerca de 15 milhões de deficientes motores, sensoriais e mentais no Brasil, sistematicamente ignorados.

O exemplo mais flagrante é o da Campanha da Fraternidade. O texto-base, todos os anos, recusa-se a consagrar uma página. um parágrafo, a esses irmãos. Em 98, evocou-se todo o possível e imaginável sobre o tema da Educação, mas nada sobre a situação dos deficientes. No ano em que a Lei de Diretrizes e Bases consagrava a inclusão escolar, matéria na qual os colégios católicos estão longe de ser exemplo de iniciativa! Em 99, o tema foi o desemprego. Cegos, surdos, deficientes mentais enfrentam há décadas taxas de desemprego altíssimas. Nem uma linha sobre sua realidade, num texto cheio de análises circunstanciadíssimas do desemprego. Como será no ano 2000?

Quando se vê o excelente documento de orientação do episcopado norte-americano sobre a acolhida dos deficientes em cada sacramento; a manifestação belíssima do episcopado português sobre o assunto; o profundo e elaborado documento do episcopado francês sobre a genética e os deficientes; as recentes exortações do Papa João Paulo II sobre a importância da acolhida das crianças deficientes na catequese e nos sacramentos… enfim, quando vê-se tantas maravilhas a caminho, é lamentável ver a Igreja, numa campanha dita da fraternidade, esquecer esses pequeninos (Is 49,15). É muito triste ver a falta de orientação e empenho pastoral quanto a sua acolhida nas comunidades e sacramentos. Como será no ano 2000?

Na última viagem à França, o Papa João Paulo II recolheu-se junto ao túmulo do professor Jérôme Lejeune, um grande cientista, cristão de vida exemplar, presidente da Academia Pontifícia de Ciências, descobridor da origem genética da síndrome de Down. O que Lejeune dizia, aplica-se a cada um de nós: “Uma frase, uma única, dita a nossa conduta; argumento que não engana e que aliás julga tudo, a palavra mesma de Jesus: “o que fizestes a um destes mais pequenos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40)”.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Quem experimenta sabe. Revista de Liturgia, Cabreúva – SP, p. 6 – 7, 2006.

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