QUEM ESCREVEU A BÍBLIA?


(9/9/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

Bíblia: uma biblioteca complexa

Não é um livro e sim uma biblioteca

Um conjunto de livros numerosos

De gêneros e estilos literários disparates:

romances, épicos, históricos, poéticos, lendários, jurídicos…

Escritos em línguas diferentes (hebraico, aramaico, grego)

Em tempos, lugares e contextos diversos

Sua composição estende-se sobre uma dezena de séculos

Bíblia: uma história complexa

A reunião em biblioteca e em Bíblia foi feita progressivamente

A partir de vários centros de redação e edição

Por diversos motivos políticos e religiosos

Cada um de seus livros não foi composto de uma vez,

Quase nunca por um único e mesmo escritor ou autor.

Foram compostos sobre a base de tradições orais esparsas e

Redações parciais de diversas origens

Através de múltiplas re-escrituras e remanejamentos complexos

Re-trabalhados e compatibilizados durante longos períodos.

Quando foi escrita a Bíblia (Tanach)?

Semitas seminômades do semi-árido de Crescente Fértil

Grupo semita sai do Egito (1250 a.C.)

Federação de tribos na Palestina. Experiência multiétnica

Tradições orais diversas

Primeiros escritos durante a monarquia 1000 a.C. (2Sm 5)

Essencial da redação durante dominação achemenita (VI ao III a.C.)

Dois grandes conjuntos na Biblioteca do Tanach

1 – Israel Antigo: Aliança, Patriarcas, Êxodo e Reis:

documentos e livros significativos

permitem um comparatismo com culturas estrangeiras vizinhas

das quais empresta cosmogonias, corpus legislativos, históricos etc.

2 – Retorno do Exílio na Babilônia (VI e V a.C.):

Composição da Bíblia (Tanach) na Judéia sob domínio persa e grego.

Os livros da Bíblia (Tanach) se escrevem entre Jerusalém e Alexandria.

No princípio, a Carta (terceira parte da biblioteca)

Pregação de Jesus dá origem a uma nova literatura,

Nascida da matriz judaica e escrita em grego

Ela não invalida o Tanach

Mas leva uns e outros a fixarem seus escritos definitivos

Mais do que livros são cartas (21 dos 27 livros do NT)

A primeira, do ano 50, à igreja de Tessalônica e depois Corinto

Duas perguntas modernas

Qual o valor histórico dos fatos, acontecimentos e personagens apresentados na Bíblia (Tanach), do Gênesis ao II Livro dos Reis? Ou seja, da origem do universo até a libertação, por volta do ano 555 a.C. do rei Joiakin ao longo de seu exílio na Babilônia (2R 25,27-30)?

A que momento essa história começou a ser escrita, sabendo-se que nunca começou a ser escrita pelo começo? Ou seja, se a história de um povo supõe a existência de uma consciência de si mesmo e de sua genealogia, a que momento pode-se datar o início da escritura da história de Israel?

No princípio, o Exílio

David, rei de Israel (1015 a 975 a.C.). Salomão. Templo

Roboão. Secessão do centro e norte em 933 a.C.

Dois estados mais ou menos rivais: reino do Norte (Israel) e do sul (Judá)

Onri (886-875), rei de um próspero e rico de Israel (1Re 16,24)

Em 722, assírios tomam o reino israelita do Norte (Samaria)

Deportam parte da população e instalam colonos

Reino pobre de Judá, acolhe refugiados (Josafat, Ezequias, Osias)

Reis judeus vs. Império Babilônico: controla Oriente Médio desde 605 a.C.

Em 598, sítio de Jerusalém, com deportação de intelectuais e da corte

Em 587, destruição do Templo e incêndio da cidade. Exílio babilônico

Fim do reino da Judéia, um século e meio após o do reino de Israel

Visão bíblica

Dá impressão de uma Judéia esvaziada, desértica durante o exílio (2Rs 25,21)

Apenas entre 5 a 10% da população foi deportada

Essa “minoria exilada” inventará e escreverá a maioria das respostas dadas na época para a crise do Exílio

Exílio babilônico, não destruiu o povo judeu, mas deu origem ao judaísmo

Ele buscará toda sua identidade a partir do século IV a.C. na Torá

Primeira edição. Tradição deuteronômica (D)

Grupo de antigos funcionários da corte edita, no exílio, um afresco histórico

Ele se estende do livro do Deuteronômio até o dos Reis

História deuteronomista

Baseada num primitivo Deuteronômio da época de Josias (630 AC).

Israel deve respeitar a aliança com Yahvé (YHWH).

Autores redatores

Nem historiografia, nem relato no estilo grego.

Primeira tentativa de visão global do passado de Israel

Busca dar sentido ao seu presente (anacronismos).

Os autores dessa primeira história de Israel são seus redatores.

Não partem do zero: textos da época da monarquia (Dt, Josué, livro dos salvadores do reino do Norte = estrutura do livro dos Juizes, uma história sobre a ascensão de David (1Sm 16, 2Sm 15))

Do Templo para os lares

Tentativa de composição coerente das origens ao Exílio.

Prepara o caminho para a religião do Livro

Dt 6,9 convida os destinatários a inscrever as palavras da Lei sobre suas casas

Pratica tradicionalmente reservada aos santuários

Após a destruição do Templo, toda casa se torna um santuário

No qual escuta-se a palavra de Yahvé.

De certa forma, uma origem ao culto sinagogal

A formação do corpus profético

Profetas do VIII a.C. denunciaram injustiças, desregramentos no culto

Anunciaram um julgamento divino

Marginais tornam-se críveis com o Exílio

Deuteronomistas editam: Amós, Oséias, Jeremias

Complemento profético à história deuteronomista

Profetismo: haveria um futuro?

Em 539 a.C., Ciro II, rei da Pérsia, toma a Babilônia

Autoriza judeus deportados a regressar e reconstruir o Templo

Profetismo otimista de salvação a partir de 540 a.C.

Segunda parte de Isaías, chamado Deutero-Isaías (40 ao 50)

Profetas anônimos reeditam Isaías atualizando. Anunciam o fim do Exílio

Apresentam retorno como novo Êxodo ou nova criação (Is 43, 18-10)

Coabitação da profecia de julgamento com a profecia de salvação

Tradição patriarcal

Maior parte da literatura do AT deve-se aos exilados e seus descendentes

Mas a tradição patriarcal teve outra origem

Veiculada pela população rural não deportada e do reino do norte

A religião dos patriarcas não conhece mediadores, sacerdotes ou profetas

Ez 33,24 mostra o quanto população que ficou identifica-se com Abraão

Não-exilados serviam-se do patriarcado a fim de legitimar sua posse do país contra as pretensões de parte dos exilados

Exílio ou coabitação?

Primeira redação do ciclo patriarcal no período do Exílio

Autor no círculo dos Guedalias

Colocados pelos babilônicos para gerir os assuntos da Judéia

Deuteronomistas exigem estrita separação de Israel das outras nações

Abraão insiste na necessária coabitação pacífica de todos povos da Síria-Palestina com quem tem vários vínculos de parentesco (Gn 12,25)

Tradição sacerdotal (P)

Oposição Patriarcas x Êxodo (1-15) e Moisés

No fim do exílio ou primeiras décadas da dominação persa

Sacerdotes unificam os relatos num rolo núcleo do Pentateuco

Distinguem três épocas da revelação divina (Ex 6,2-4):

Origens da humanidade (Deus = Elohim) (tradição Eloísta – E)

Época dos patriarcas (Deus = El Shadday)

Época de Moisés (Deus = IHWH, Yahvé) (Tradição Javista – J)

Insistem sobre o culto sacrificial (Lv 1 a 9)

Suma compósita da fé de Israel

Decálogo é dado duas vezes (Ex 20; Dt 5)

Ciclo das festas, quatro vezes (Ex 23; 34; Lv 23; Dt 16)

Duplas narrativas:

Da criação (Gn 1 a 2,4a e 2,4b – 25)

Da expulsão de Hagar (Gn 16 e 21)

Da vocação de Moisés (Ex 3-4 e 6)

Do fundamento do shabat (Ex 20,9 e Dt 5,12)…

Textos compósitos, como no dilúvio:

Dois animais (Gn 6,19) ou sete (Gn 7,2)?

Quarenta dias de inundação (7,17) ou cento e cinqüenta (7,24)

Situação da diáspora

Sacerdotes consideram o povo em dispersão

Colocam o shabat (Gn 2,1-4), as regras alimentares de base (Gn 9,4), a circuncisão (Gn 17), a Páscoa (Ex 12) antes da construção do santuário

Dão aos exilados ritos de identidade facilmente aplicáveis

Pátria portátil

Deuteronomistas e sacerdotes levam em conta a crise do Exílio

Na época persa, unem-se na redação do Pentateuco

Documento sacerdotal forma a história de base

Deuteronômio, separado da história deuteronomista, a final

Pentateuco torna-se a pátria portátil

A Torá pode ser lida e praticada:

tanto pela diáspora (descendentes judeus que ficaram no exterior)

como pelos judeus vivendo no país.

Herança dos pais

Na redação da Bíblia (Tanach), Israel se afirma como povo de Deus

O Êxodo é um midrash do relato do retorno do Exílio da Babilônia

Redatores destacam e promovem:

O vínculo fundamental entre o povo e sua terra

O direito dos exilados que regressam,

incluindo aspectos de propriedade fundiária.

Posse não valia propriedade.

A visão dos exilados é a que prevalecerá

Definição étnica do povo de Israel

Contornos do povo de Israel numa nova situação política?

Discernir quem está dentro ou fora

Importância das genealogias

Buscam vincular judeus a uma das tribos,

a um dos doze patriarcas, filhos de Jacó.

Proibições dos casamentos mixtos

Povo delimitado e protegido pela muralha da Torá

Reedificada por Neemias (Esd 9,9)

Povo de Israel vs pagãos

Terra santa vs resto do mundo

Cerca da Torá e anacronismos

Lei é objeto de proclamação solene (Ne 8, 1-8)

Proclamação projetada no passado

Relato da leitura da lei por Josias (2R 23,1-3), calcado no de Esdras

Lei josíaca é a promulgada por Moisés (Dt 31, 9-13) e achada no Templo

Cerca da Torá e novo governo

Governo da comunidade: civil e sumo-sacerdote

Presença de Josué junto a Zorobabel

De Esdras ao lado de Neemias

Modelo bicéfalo é levado ao passado:

Aaron, de linhagem sacerdotal, junto de Moisés

Sadoc, o grande sacerdote, junto de Salomão

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