QUEM ESCREVEU A BÍBLIA? (2ª. PARTE)


(9/9/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

A Bíblia não define qual é o seu catálogo ou quais livros devem ser integrados ou excluídos, ou que autores são aceitos ou rejeitados. Esse índice é fruto da tradição apostólica e eclesial. Vimos no artigo anterior que a Bíblia atual é resultado da tradição católica. Sua formatação nos séculos II a IV levou em conta o problema do diálogo com os judeus nos Concílios regionais de: Hipona (393), Cartago II (397), Cartago IV (419) e Trulos (692), e foi reafirmada nos Concílios ecumênicos de Florença (1442), Trento (1546) e Vaticano I (1870). E a autoridade papal. A Bíblia completa é tradição da Igreja.

Com exceção do Pentateuco, não havia ordem nos livros bíblicos. Os rolos bíblicos eram justapostos. A ordem dos livros no Novo Testamento é a da tradição católica. A ordem do Antigo Testamento também é a da tradição católica, a da Septuaginta, a Bíblia grega. A ordem rabínica, a estabelecida em Iavne pelos fariseus, e adotada por Lutero, é outra. Ela não termina com Malaquias, mas com Crônicas: Ciro convida o povo judeu a retornar a Jerusalém. A ordem dos livros no Novo Testamento não corresponde à cronologia, à ordem temporal, como no Antigo Testamento. Os evangelhos são posteriores às epístolas em termos de escrita, e Marcos, o primeiro evangelho escrito, é anterior a Mateus.

A Bíblia católica é a Bíblia completa: 46 livros no Antigo Testamento (45 se contarmos Jeremias e Lamentações juntos) e 27 no Novo Testamento, ou seja, 72 ou 73 livros no total. A Bíblia protestante tem 27 no Novo Testamento, mas difere da católica com 39 no Antigo Testamento, ou seja, 66 livros no total. Lutero rejeitou: Tobias, Judite, Sabedoria, Baruc, Eclesiástico (ou Sirácida), 1 e 2 Macabeus, além de Ester 10,4-16; Daniel 3,24-20; 13-14, adotando a Bíblia rabínica. Chegou a rejeitar o Apocalipse no Novo Testamento, mas depois mudou de ideia.

A Bíblia católica do Antigo Testamento era a de Jesus e a dos apóstolos. Ela serviu para a redação do Novo Testamento. O vocabulário e gramática do Novo Testamento seguem a Septuaginta, a Bíblia da Igreja primitiva, mesmo quando essa discordava da Bíblia hebraica, a adotada por Lutero (Mt 21,16 e Sl 8,3 ou Hb 2,7 com Sl 8,6).

Das 350 citações do Antigo Testamento no Novo Testamento, 300 são tiradas da Septuaginta, a Bíblia completa! O Novo Testamento está repleto de citações dos livros rejeitados pelos protestantes: Mt 11,29s refere-se a Eclo 51,23-30; Mt 27,43 refere-se a Sb 2,13.18; Jo 1,1-3 refere-se a Eclo 24,3; Sb 7,21; 8,6; 9,1-19; At 26,6-8 refere-se a 2Mc 7,9 e 23; Rm 1, 12-13 refere-se a Sb 13,1-9; Rm 13,1 refere-se a Sb 6,3; Ef 6,11-17 refere-se a Sb 5,17-23; Tg 1,19 refere-se a Eclo 5,11; Hb 11,4 refere-se a 2Mc 6,18; 7,42 e Ap 8,2 refere-se a Tb 12,15.

Os judeus quase não leem diretamente os livros do Antigo Testamento. Sua leitura predileta é o Talmude. Um imenso comentário de textos bíblicos, feito pelos sábios rabínicos. Leem em ocasiões especiais alguns livros, como o de Rute, por exemplo. Os católicos leem a Bíblia completa. Leem Tobias, Judite, Sabedoria, Baruc, Eclesiástico (ou Sirácida) e Macabeus como Jesus e os apóstolos. O tempo todo. E também os comentários elaborados pelos Padres da Igreja, pelos santos, pelo Magistério Eclesial.

A Bíblia é um tesouro da nossa tradição. Passível de muitas leituras, segundo a maturidade e a inteligência de cada um. Por isso, o Magistério da Igreja orienta e esclarece sobre a leitura da Bíblia e recomenda também a prudência em determinadas interpretações subjetivas, políticas ou literais da palavra de Deus. A Bíblia serve a todos, mas não para tudo. Por outro lado, existem correntes cristãs que buscam na Bíblia uma fonte de inspiração para tudo, até para fazer compras no supermercado.

Tudo o que possa ser dito sobre essa biblioteca estará sempre muito aquém do que ela representa. A Bíblia é um dogma cristão. Foi inspirada por Deus, ou seja, Ele é seu autor, mesmo se não é seu escritor. Deus desejou que sua palavra fosse escrita e que esse livro fosse escrito da forma que o lemos hoje. Para ser transmitido à universalidade dos homens, pela Igreja, por toda a duração do tempo até a eternidade.

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