QUEM ERA O DEUS DE JESUS?


(12/10/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

No ano 135, o imperador romano Adriano proibiu por um édito o ensino da Tora. As conseqüências desse édito imperial na Palestina foram funestas. Na Cesaréia, o rabino Aqiva é preso por desobedecer a ordem do imperador. O velho rabino vai sofrer uma morte terrível: a tortura dos pentes de ferro, passados em sua carne. Durante seu martírio, enquanto sua carne e ossos eram dilacerados, ele recita o Shema: “Escuta Israel! (Shema Israel, em hebraico), o Senhor, nosso Deus, é o Senhor que é UM” (Dt 6,4). Seu último suspiro será a palavra “UM” (Ehad, em hebraico). Há quase dois mil anos, ele testemunhava sua fé e experiência pessoal num Deus único.

Monoteísmo e politeísmo são palavras recentes de nossa cultura, forjadas no século das Luzes, como resultado da razão moderna e do desenvolvimento da história comparada das religiões. O chamado monoteísmo bíblico acabou dando origem a três monoteísmos: judaísmo, cristianismo e islamismo. É difícil imaginar o que poderia ser um único monoteísmo, puro e purificado. Ao longo da Antiga Aliança, a dificuldade de comunicação com esse Deus único é real e frágil. Desde o início, o relato mítico de Adão, Eva e seus filhos mostra essa dificuldade de comunicação e compreensão mútua.

Paradoxalmente, esse Deus único e uno, logo nas primeiras páginas do Gênese, é apresentado como fonte de diversidade. Ele cria os dias e as noites, os astros e as estrelas, os mares e as terras, a multiplicidade de seres vivos, a divisão dos sexos, a disseminação dos povos e a pluralidade das línguas. Como o humano dividido e confrontado ao outro (estrangeiro e estranho) e ao exílio poderá comunicar-se com o Uno? Essa situação é ainda mais forte no salmista que descobre a divisão e os inimigos entre os seus e até em si mesmo. O desejo do Uno cresce na adversidade, nas situações de divisão e exílio.

O Deus único é múltiplo, pois é transcendente e pessoal. Quem era o Deus de Abrahão? O Deus pessoal de Abrahão é o Deus das promessas de fecundidade, prosperidade e do sonho de um território. Quem era o Deus de Moisés? O Deus da libertação da escravidão e da lei mosaica. Ao longo da Bíblia, o Uno será também o Deus do exílio, dos eleitos, do reino davídico etc. O Deus pessoal de Isaías não era o mesmo de Elias, nem tão pouco o dos macabeus. O Deus de cada patriarca, sábio ou profeta não é simples de ser identificado e definido. Salvo num caso.

Quem era o Deus de Jesus de Nazaré? Como Jesus falava com ele e o que dizia dele? O Deus de Jesus Cristo era o pai. O papai, o paizinho, abba. Nunca na Bíblia alguém havia manifestado essa intimidade com Deus. Jesus, em sua experiência pessoal de humanidade, em continuidade e solidariedade profunda com as tradições judaicas sobre o Deus de Israel, inova. Ele desloca, recapitula e acentua determinadas representações de Deus. Mas ao tema da paternidade divina, Jesus dará um lugar sem precedentes na comunicação com o Uno, em toda história de Israel.

Essa expressão original de Deus será a do Pai, que doa e perdoa, sem medida, compassivo e misericordioso. Enquanto Filho, Jesus pede que o reconheçam como único mediador pessoal e verdadeiro caminho para o Pai. A fé não é em primeiro lugar um ato de inteligência, mas uma atitude de profunda confiança naquele que, por excelência, é fiel e bom. É a ternura do Pai pelos excluídos e perdidos e a dimensão infinita de sua bondade, que Jesus oporá ao que muitos acreditam ser a justiça divina (Lc 18,9-14). Sua morte infame na cruz equivale a desqualificação de toda sua vida profética. Mas a ressurreição, pela qual Deus levanta o servidor rejeitado, anula essa leitura e anuncia ao mundo que o caminho para o Pai, passa por Jesus.

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