QUEM É MAIS PODEROSO?


(9/3/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

Durante a Idade Média, verdadeira primavera da humanidade, ouve um monge muito sábio. Era um místico, conselheiro do rei, famoso por sua sagacidade e respostas rápidas às questões mais difíceis. Certo dia, seu rei – que gostava de testá-lo – perguntou-lhe abruptamente: “- Qual dos dois é mais poderoso: eu ou Deus?” O monge sem hesitar respondeu: “- É Vossa Majestade! Não há a menor dúvida possível.” O rei ficou surpreso, notou um aparente descuido e disse-lhe que ele havia cometido um grande equívoco.

O monge reiterou: não havia a menor dúvida possível. Entre Deus e o rei, o mais poderoso era o monarca. O rei, beirando a indignação, quis saber no que ele – um mortal limitado, enfermo e envelhecido – era mais poderoso do que Deus. O monge respondeu serenamente: “- Quando alguém em seus domínios transgride uma lei, comete um crime, desrespeita sua autoridade e ofende sua coroa, Vossa Majestade pode expulsá-lo do seu reino. Deus, Deus não pode fazê-lo. Ninguém é excluído e não há exclusão no reino do Senhor.”

Essa parábola sempre desperta muitas perguntas e reações. Uma parte das perguntas tem a ver com o reino de Deus, o reino dos céus. Na tradição judaica, o nome de Deus é impronunciável. Por isso não se falava: reino de Deus e sim reino dos céus. Mas será que esse reino dos céus é celeste? Muitos entendem esse reino dos céus como um lugar, algo espacial. Quem voa num avião fica mais perto do reino dos céus? Esse reino dos céus estaria nas alturas? Que reino é esse? Onde ele está? Como chegar até ele?

No capítulo 3 do evangelho de Mateus encontramos João, o batizador, avisando que o reino dos céus está próximo e pedindo a conversão de todos, o retorno de todos, o arrependimento, a teshuvá. Muitos entenderão essa proximidade do reino como algo temporal. O reino dos céus não está aqui, chegará com a vinda de Cristo e esse dia está próximo. Poderia ser também o dia da morte individual. Após a morte, eu entrarei no reino dos céus. Ou poderia ser ainda, a chegada do fim “deste mundo” (olan hazé) e a chegada do “mundo por vir”, do “ mundo que vem” (olan habá).

Dando seqüência à leitura desse comovente evangelho de Mateus, no capítulo 4, aquele de quem João disse não ser digno de desatar suas sandálias, inicia sua pregação, seu ministério. Jesus, Iehoshua ben Iossef, começa a pregar dizendo praticamente as mesmas palavras de João: – Arrependei-vos porque o reino dos céus aproximou-se! (Mt 4,17).

Jesus, o Anúncio vivo, o fruto da Anunciação, tem um anúncio a fazer. Ele tem uma boa nova para anunciar: – O reino aproximou-se! Para Jesus, não se trata de uma realidade espacial. Ele mesmo, mais tarde, vai explicar: muitos dirão que o reino está aqui ou ali, mas ele não está em lugar nenhum e está em toda parte. Para Jesus, também não se trata de uma realidade temporal no sentido de um além, de um futuro remoto, de algo para depois da morte ou do fim. Seria muito desagradável e um reino assim cheiraria cadáver.

O reino dos céus está próximo. O reino de Deus está dentro de nós. Quando na liturgia respondemos a interpelação: O Senhor esteja convosco! Dizemos: Ele está no meio (dentro) de nós. Todos estamos grávidos do reino de Deus. Essa é nossa anunciação. Como Maria, também recebemos um anúncio. Cada um de nós tem a graça dessa anunciação. Podemos, pelo Espírito Santo, conceber o reino. O reino dos céus está dentro de nós. O reino aproximou-se! Está em nós! Esperamos o reino dos céus! Mas esse reino não se espera como uma encomenda que virá pelo correio. As mulheres sabem o sentido de “esperar” um filho. Não se trata de uma espera passiva. É preciso cuidar, alimentar, acalentar, amar, fazer crescer.

Diante disso alguns imaginarão uma espiritualidade voltada para o interior, para dentro. Vou fechar meus olhos ao mundo. Vou me refugiar na minha interioridade. Vou abandonar o mundo e seus problemas. Vou ficar quieto em contato com minha vida interior, com meu reininho. Não! O reino está em nós para ser explicitado. Para ser colocado de manifesto. Devemos trabalhar para que o reino se manifeste em cada homem e em todos homens. Transformar o profano e o profanado, em sagrado. Esse é o batismo no fogo. Esse é o verdadeiro trabalho messiânico, responsabilidade dos batizados.

Quando a sagrada escritura fala do reino que vem, do mundo que por vir (Olan habá), esse “vir” em hebraico tem o sentido de revelar, de manifestar, de tornar visível. Esse é nosso chamado: ouvir o anúncio feito a cada um, descobrir o reino dos céus em nós e em cada ser humano. Cada excluído da sociedade, leva dentro de si o reino de Deus. Cada vítima da violência leva dentro de si o reino dos céus. Esse reino depende de nós para tornar-se manifesto. Nele não há exclusões, como na mesa do Senhor e como deveria ser em nossas mesas, em nossas casas e em nossas vidas.

Na Páscoa, não somos nós que passamos. Não foram os hebreus que passaram. Foi Deus quem passou, para ver e visitar seu povo. Que Suas visitas nos encontrem construindo seu reino, trabalhando pela justiça, sacralizando o profano. Proclamando com os santos e santas de Deus, vivos ou falecidos, na comunhão dos santos: Bendito o que vem! Baruch habá!

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Quem é mais poderoso? A Tribuna, Campinas – SP, 2001.

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