QUEM AMA NÃO DESMATA


(6/7/2005)

Evaristo Eduardo de Miranda

Dois estudos importantes sobre a exploração florestal no Brasil acabam de ser publicados. O primeiro mostra: em quatro séculos de Coroa portuguesa e Império do Brasil foram extraídas cerca de 500.000 árvores de pau-brasil da Mata Atlântica Enquanto isso acontecia, a floresta amazônica e as matas de araucária dormiam em berço esplêndido. Yuri T. Rocha, da USP, chegou a esses números após consultar mais de mil livros e documentos no Brasil e em Portugal.

O segundo estudo foi realizado pelo IMAZON junto a 680 madeireiras da Amazônia. Só em 2004 foram cortados 6,2 milhões de árvores na região. O estudo considerou toras de uso comercial e não contabilizou as árvores cortadas em desmatamentos agrícolas e pecuários. Entre 2003 e 2004 foram mais de 24.000 km2 desmatados na Amazônia.

A exploração do pau-brasil não foi sinônimo de desmatamentos. Integrando critérios econômicos, políticos e silviculturais, o Regimento do Pau Brasil, implantado em 1600, forneceu às autoridades metropolitanas instrumentos essenciais para o planejamento e a gestão dos contratos de concessão: definição anual de cotas de exploração, cortes somente com licença, estímulo à regeneração natural mediante métodos silviculturais, rotação de exploração e delimitação de áreas reservadas. A implantação do Regimento, o planejamento da oferta de pau-brasil, o controle da pressão sobre as populações da árvore no tempo e espaço e os cuidados com a regeneração tomados pela Coroa portuguesa, diminuíram consideravelmente os riscos de esgotamento desse recurso.

A partir de 1850, a fabricação industrial da anilina começou a retirar o pau-brasil do mercado e não a devastação de suas matas. Em 1875, foi registrada a última exportação para a Europa. Por quatro séculos, a legislação e as medidas de controle e manejo das matas da Coroa portuguesa e brasileira, permitiram sua exploração sustentada e a manutenção das matas.

O grande desmatamento da mata atlântica foi um fenômeno do século XX. Entre 1945 a 1960, a cada 5 anos, desmatou-se mais do que o total entre 1500 e 1930! Entre 1985 e 1995, desmatou-se mais de um milhão de hectares.

O desmatamento é fruto do século XX e da república. A política florestal da Coroa portuguesa e do Império conseguiu, por diversos e invejáveis mecanismos, manter a cobertura florestal do Brasil praticamente intacta, até final do século XIX. Como assinala Carlos Castro, “em vez de imputar a Portugal a culpa por ter nos deixado uma ‘herança predatória’, talvez devamos aprender com as práticas conservacionistas que os portugueses preconizaram e tomarmos consciência de que a destruição das florestas brasileiras não é obra de 500 anos, mas principalmente desta geração”.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Quem ama não desmata. Correio Popular, Campinas – SP, p. 03, 2005.

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