QUE OS ANJOS DIGAM AMÉM


(2/9/2006)

Evaristo Eduardo de Miranda

Costumo rezar a oração do anjo da guarda com minhas filhas, antes de dormirem: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador…”. Uma manhã ao entrar no quarto, uma de minhas filhas, com 4 anos, me chamou com um sinal das mãos. Aproximei-me e ela murmurou bem baixinho: – Pai. Eu acordo, e sem fazer barulho, olho para um lado e para o outro; para cima e para baixo e não vejo o anjo da guarda!

Como vê-lo? A indagação trouxe-me à mente uma imagem de infância. Um anjo da guarda protegendo duas crianças à beira íngreme de um lago ou rio de águas revoltas. Procurei essa imagem nas casas de artigos religiosos. Não foi fácil achá-la. Por fim ela veio ornar as camas de minhas filhas gêmeas. Elas adoraram. E ele é mesmo bonito, todo mangueirense, verde-rosa, grandes asas e mãos estendidas, enquanto as crianças passeiam e brincam descuidadas, como devem ser mesmo as brincadeiras infantis.

Com a chegada do anjo, minhas filhas quiseram saber para que servem os anjos, a quem nos confiou a Bondade Divina! O que faz mesmo nosso zeloso guardador que, em pesquisa nacional, mais de 80% da população disse acreditar na existência. A palavra guardar é germânica: wardón, warten. Significa cuidar. Proteger. Conservar. Preservar. Zelar. Como será que os anjos conjugam esses verbos? A dinâmica da vida de uma criança se acomodaria mal com um anjo que simplesmente a protegesse, limitando sua ação no mundo, impedindo experiências negativas ou positivas. Um anjo assim reduziria a Vida na vida da criança. A guarda do anjo não é a instalação de uma redoma de vidro. Qual o sentido dessa “guarda”?

Meu referencial de leigo e pai tem sido o dos Evangelhos. As intervenções dos anjos no Novo Testamento mostram o contrário de algumas imagens e ideias tradicionais sobre os anjos. Eles chegam trazendo a possibilidade de novas experiências, ampliando o horizonte de vida das pessoas. Seus anúncios levam-nas a se exporem, a saírem de si, de seu meio, de seu mundo, de sua imobilidade… Para Zacarias e Elizabete (Lc 1,11-25), para Maria (Lc 1,26-38), para José (Mt 1,18-25; Mt 2,13-15 e 19-21), para Maria mãe de Tiago, Salomé e Madalena (Mt 28,1-8; Mc 16,1-8 e Lc 24,1-9), para os galileus olhando para os céus (At 1,10-11). Os anjos chegam sempre para retirá-los do imobilismo. Eles anunciam e os enviam para novas aventuras e venturas! Eles representam um chamado à mobilidade e não ao medo paralisante. Sua proteção é levar-nos à Vida e ao encontro do Outro no Outrém. Eles não nos conservam mumificando-nos, mas transformando-nos. Os anjos da guarda nos protegem de nós mesmos, de nossas ilusões e de sua paralisia. São a vanguarda da fé.

Todos os anos ocorrem casos de mortes em hotéis e residências de pessoas saltando, em geral à noite, em piscinas vazias que creem cheias. É muito difícil ver através da transparência absoluta! Por isso nos concursos de salto ornamental uma pessoa fica sentada na beirada sob o trampolim, agitando – como um anjo – a água com os pés. Isso é fundamental para o atleta visualizar a superfície da água, materializando a distância. Diferenciando o aparente do real, no caminho da Vida e na busca da nossa Verdade e Realidade pessoal, o nosso Anjo da Guarda nos protege de saltarmos em tantas piscinas vazias. Às vezes nossa cegueira e insistência é tanta que o jeito é deixar a gente quebrar a cara, ou um braço ou uma perna.

Na imagem colocada junto a cama de minhas filhas, a mão estendida do anjo sobre as águas talvez aja de outra forma do que nos inspira uma primeira dedução. Nessa figura de “santinho”, as crianças não tem sua imagem refletida no fascínio do espelho das águas. O anjo protege as crianças sim, mas agitando as águas. Ao deixá-las sem reflexos ele elimina o jogo de espelhismos. A agitação impede as crianças de ficarem presas, como Narciso, a uma idealização de suas imagens. O anjo as protege, em primeiro lugar, de si mesmas. Ao fazê-lo, gera distâncias e diferenciações. Quebra uma possível narcótica atração da autoimagem com um chamado à consciência. Quem sabe o anjo as prepara para refletir e saltar, e não para especular ou cair (Is 14,12). Como o Anjo do Senhor fazia na piscina de Bezatha (Jo 5,4), eles nos trazem o caminho da liberdade e do autocontrole.

Nossos filhos são, também, mensageiros muito especiais de Deus. Chegam às vezes, quando a gente começa achar que não há maior referencial para nós do que nós mesmos e nossas obras. Querubins flamejantes ou alvos serafins, eles chegam rompendo nossos espelhos, nossas bífidas representações. Vêm como a Branca de Neve, para libertar a Rainha de seu espelho e de sua imagem idealizada. Aceitar isso às vezes é difícil. Muitas vezes vemos nossos filhos como nossos reflexos. Espelhos refletem mal e às vezes de forma confusa (I Co 13,12). Nos descobrimos na diferença, na alteridade. O outro diferente é quem revela nossas semelhanças, mais do que nossos iguais. Temos muito a crescer com todos esses anjos que, de modo multiforme, nos trazem o sal da diferença no nosso dia a dia. Devemos estar atentos para reconhecê-los, ouvi-los e servi-los, como fez Abraão (Gn 18).

Todos temos nossos anjos da guarda. Eles são mais nossa vanguarda que nossa retaguarda: para preservar a Vida em nossa vida. Sem o menor merecimento. Como o Menino de Belém os filhos são mensageiros cujo nascimento vem agitar nossas águas batismais, sanar nossas paralisias, com a surpresa do renovar permanente da Graça. O vento de suas asas expulsa a poeira de tristes passados, levanta as velas do nosso barco e nos retira de lugares e situações onde há muito tempo havíamos parado.

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