QUARESMA, SEMANA SANTA E ECOLOGIA


(1/4/2008)

Evaristo Eduardo de Miranda

Passada a Semana Santa, cabem algumas reflexões sobre a data.

A Semana Santa tem muito a ver com ecologia. Nela os cristãos relembram a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Completando os 40 dias da Quaresma, a Semana Santa é um tempo silencioso, em que as pessoas, em sinal de penitência, abstêm-se de comer carne e impõe¬se outros limites. Para aumentar e crescer é necessário aceitaros limites e enfrentar as adversidades. Não se colocam obstáculos aos cavalos nas competições para que caiam. O objetivo é que, ao ultrapassar o obstáculo, o cavalo se ultra-passe, vá além. Este exemplo resume uma das leis fundamentais do humano: é no húmus das dificuldades, derrotas e fracassos que ocorre a verticalização das árvores humanas. Quem sabe crescer, elevar-se diante do solo dos limites, faz deles um adubo.

A Quaresma e a Semana Santa são um tempo para viver-se e aceitar-se limites: limites de saber, no uso de nossa potência tecnológica e econômica. Sem limites, o humano faz da natureza uma vítima. Sabendo respeitar limites, faz dela uma aliada. Atualmente, a Igreja Católica recomenda aos seus fiéis de não comer carne na Quarta¬feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, ou de se abster de algo importante a que se está habituado, em sinal de penitência. Largar a Internet, o Ipod, a televisão ou os e-mails, por exemplo. Além desse autocontrole de dois dias, a Igreja recomenda, se possível, o mesmo jejum ou abstinência em todas nas sextas-feiras da Quaresma. Hoje em dia, para muitos, passar todas as sextas-feiras sem música, televisão ou Internet, sem e-mails ou jogos eletrônicos, seria uma abstinência quase inimaginável. Mas só isso não basta. Além desse sinal de autocontrole e abstinência, a Igreja Católica recomenda uma atenção especial à prática da caridade e da oração durante todo esse tempo de conversão.

O máximo da limitação para os cristãos ocorre no tempo sabático da Sexta-feira Santa, o único dia do ano em. que não ocorrem missas em igrejas. É dia dejejum. Para a tradição popular, o diabo anda solto. Andar à noite, nem pensar. Viajar, idem. É arriscadíssimo desrespeitar esse dia santo de guarda, principalmente trabalhando, cortando mato, derrubando árvores ou capinando. Até os animais sabem disso. Para protegerem seus donos, de uma profanação da Sexta-feira Santa, são capazes até de falar, em muitas histórias católicas que andam por aí, como a do Boi Falô. O dia é uma espécie de 10 de Maio católico, mais antigo. Nem padre celebra missa.

O sentido sabático e sagrado da Sexta-feira Santa, de denúncia da violência contra a natureza e a vida, contra a matança dos inocentes da Criação foi bem captado e traduzido pelo maestro Tom Jobim em sua composição “Borzeguim”:

Deixa o mato crescer em paz Deixa o mato crescer Deixa o mato Não quero fogo, quero água (deixa o mato crescer em paz) Não quero fogo, quero água (deixa o mato crescer) Hoje é Sexta-feira da Paixão Sexta-feira Santa … ”

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Quaresma, semana santa e ecologia. A Tribuna, Campinas – SP, v. 99, p. 12, 2008.

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