PROCURE UMA BENZEDEIRA


(2/2/2013)

Evaristo Eduardo de Miranda

No Brasil não faltam benzedeiras. Em toda cidade tem uma, duas e até centenas de benzedeiras. Só em S. João do Triunfo e Rebouças no Paraná foram identificadas 295 benzedeiras ou rezadeiras. Elas atendem, especialmente, crianças.

Pessoas católicas e não católicas procuram a benzedeira para receber uma reza para afastar o mal, curar um cobreiro, proteger de um quebranto, afastar um mau olhado, curar uma cólica abdominal, uma dor de cabeça, uma picada de inseto ou uma angústia. Ninguém vai lá para curar uma espondiloartrose anquilosante ou um câncer terminal.

As benzedeiras costumam atender em casa, num cantinho repleto de imagens de santos católicos. Elas pronunciam rezas sobre a pessoa sentada, tendo na mão alguma erva e, por vezes, um copo de água benta. E recomendam chás e simpatias. As benzedeiras não têm associações ou sindicatos. Elas são um elemento da cultura popular do Brasil e têm suas origens em Portugal e no sincretismo religioso. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional classificou essa cura por meios não tradicionais como patrimônio imaterial da cultura brasileira. Essas mulheres ocupam um lugar privilegiado no mundo católico.

Ao contrário de curandeiros e charlatães, a benzedeira é alguém da comunidade e recebeu seus ensinamentos dos antigos de forma oral. Algumas mantêm em segredo as orações proferidas. Generosas, nenhuma benzedeira proíbe o uso de remédios ou sugere suspender um tratamento médico. O conhecimento da fitoterapia é tão característico delas quanto o fato de não cobrarem e nem se negarem a dar a benção. Seu atendimento é mais rápido do que no SUS e os resultados comparáveis, em muitos casos. As pessoas vão de um lugar para outro visitar alguma benzedeira reconhecida.

A palavra maldição vem de maldizer. Benção vem de bendizer. Abençoar significa falar bem, amar sem distinção: falar bem dos irmãos e de Deus. Se alguém fala bem de Deus, para Ele talvez não seja tão essencial. Contudo, se Deus fala bem de alguém… Aí a coisa muda, e muito. Hoje, tem cristão por aí “tomando posse” de suas bênçãos identificadas com ganhos materiais, dinheiro e poder, adquiridos numa espécie de supermercado religioso.

Papa, bispos, padres, pais e pessoas de Deus, abençoam. Ao benzer, eles traçam o sinal da cruz no ar ou sobre as pessoas, selando esse ato com a graça divina. No cotidiano, além de expressões como “Benza Deus!” e “Deus te abençoe”, os católicos se benzem com o sinal da cruz ao entrar ou passar diante de igrejas, ao iniciar o trabalho, o esporte etc. Na linha tecnológica existem os bentinhos. Esse objeto de devoção, composto por dois saquinhos ou pedaços quadrados de pano com orações escritas, relíquias e outros elementos, é trazido pendente no peito e nas costas. Mas, bendizer é algo intrínseco do feminino para os católicos.

Há homens benzedores e rezadores, mas nada como uma benzedeira. As benzedeiras são mulheres bendizentes, carinhosas e caridosas. Elas lembram o bem e o Deus da bondade, tão associado à Maria e ao feminino na Igreja. Elas são mais uma das várias manifestações do poder feminino na Igreja. Para os católicos, essas mulheres receberam um dom dos céus, louvam a Deus, propiciam a cura e consagram com boas palavras. São verdadeiras terapeutas.

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