PRESENÇA REAL


(4/9/2003)

Evaristo Eduardo de Miranda

Quando o assunto é eucaristia, quase sempre aparece a questão da “presença real de Jesus” no pão e no vinho. A dúvida não deveria existir para os cristãos. A verdadeira questão, talvez a mais urgente, é a de saber se os cristãos estão realmente presentes na eucaristia.

Eucaristia não é um rito mágico que precipita Jesus sobre a Terra. Não se trata de uma presença manipulável que se possa ter à mão, manter à nossa disposição numa caixinha ou colocar no bolso. Se fosse assim, nós a reduziríamos a um ídolo. A presença real não é presença local, fisicamente acessível, mas sacramental. Como dizia São Tomás de Aquino, a comunhão é um encontro entre duas presenças e uma abertura para toda a humanidade. É em comunhão, uns com os outros e com a natureza, que nós comungamos com Ele.

Ao observar a forma e a atitude de muitas pessoas aproximarem-se da eucaristia, como quem segue a fila de um restaurante, pode-se realmente duvidar da sua presença real. A antiga liturgia iniciava vários momentos celebrativos com a frase: “Coloquemo-nos diante de Deus!” Hoje em dia, diz-se simplesmente: “Oremos!” Talvez, a ordem correta seria dizer, em primeiro lugar: “Coloquemo-nos diante de nós!” De nós mesmos. Quem não está presente em si mesmo, como pode estar presente diante de Deus? Isso exige silêncio, falar ao coração e aquietar a mente. Depois viria o: “Coloquemos-nos diante de Deus” e por fim: “Oremos!”

Durante sua vida, muitas vezes, Jesus disse aos discípulos: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, lá estarei no meio deles” (Mt 18,20). Por essa promessa, inscrita na tradição judaica, Jesus assegurou a seus discípulos que, na eucaristia, fazendo isso em sua memória, reencontrariam o contato com o Absoluto e renovariam sua fé. Esse contato direto e íntimo, os discípulos haviam conhecido junto de Jesus. Naquelas horas benditas em que Ele estava, não somente diante deles, mas neles. Quando a Sua palavra, diretamente saída dele mesmo, os penetrava, transformava, preenchia e fazia ser. Tradição, na Igreja católica, significa: atualizar no presente o que recebemos no passado. Além dos primeiros discípulos, o mesmo chamado e a mesma promessa de Jesus dirige-se a todos aqueles que os sucederam na fé.

Os cristãos não devem reunir-se somente por solidariedade diante do mesmo destino ou dos desafios na defesa da vida, mas para unirem-se em Seu nome, presentes em torno de Sua lembrança. Basta fazer o sinal da cruz ou dizer “no nome de Jesus”, para que Ele esteja no meio de duas ou três pessoas? Não é verdade. Estar no nome de Jesus, não é algo para ser dito da boca para fora. Estar no Seu nome tem um alcance espiritual preciso e profundo. Está no nome de Jesus, o cristão que já caminhou bastante em sua estrada espiritual, como um verdadeiro discípulo.

Não é o caso de quem somente freqüentou igrejas, militou em pastorais, doou sua vida aos pobres ou estudou doutrinas. Está no “Seu nome” quem descobre, manifesta e amadurece a presença do Seu Reino, numa compreensão inteligente de sua própria vida. Quando dois ou três – com essa experiência de vida – se reúnem, Jesus está no meio deles. E eles o fazem em Sua memória. Quando dois ou três – com essa experiência de vida – se reúnem, Deus está no meio deles. Fazei isso em memória de mim! (Ex 12,14; Dt 16,3 Lc 22,19).

Durante o tempo que viveram com Jesus os discípulos ouviram muitas vezes essa frase. Talvez Jesus pensava nas multidões ruidosas que reuniam-se no templo de Jerusalém e afirmava assim o contraste entre o que ele desejava dos seus e o que se fazia naquele tempo. Não devia ser somente pelo pequeno número de seus discípulos que ele falava de dois ou três, mas visando a qualidade de sua comunhão espiritual. Num trabalho de aprofundamento pessoal, esses homens não deveriam juntar-se ou reunir-se somente levados por solidariedade diante do mesmo destino, mas unir-se em seu nome, em volta de sua lembrança. Nesse clima fraterno, eles animariam mutuamente suas recordações, se tornariam mais ativos, esclarecedores e inteligentes do que Jesus foi para eles, do que eles seriam agora, fortificando-se uns aos outros, juntos. Seriam capazes de afirmar sua fé.

Por esse chamado, alimentado por um passado ainda tão intensamente presente, Jesus pedia aos seus discípulos, de entregarem-se juntos e pessoalmente na fé, à atividade da lembrança, à eucaristia, para não serem levados insensivelmente a perder o sentido profundo daquilo que ele lhes havia trazido. Aquilo que eles haviam recebido sem serem capazes, no momento mesmo, de perceber a novidade radical e a potência criadora. Senão, eles seriam tomados pelos problemas da vida cotidiana, levados e arrastados pelos eventos da vida e cederiam finalmente ao seu atavismo espiritual, à pressão das tradições e à influência das mentalidades que enfrentariam no apostolado.

Por essa promessa, Jesus assegurava a seus discípulos que fazendo isso em sua memória, eles reencontrariam o contato com o Absoluto, renovariam sua fé. Além dos seus primeiros discípulos, o mesmo chamado e a mesma promessa, dirigia-se a todos aqueles que os sucederiam na fé. Num feliz futuro que os apóstolos concebiam na medida do seu tempo e de suas esperanças. Futuro que Jesus, numa resposta evasiva, não queria medir e confessava ignorar (Mt 24,36; Mc 13,32).

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Presença Real. A Tribuna, Campinas – SP, 2003.

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