PRESENÇA DE UMA AUSÊNCIA


(18/12/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

Manuel é o nome de muitos portugueses e brasileiros. Também na América hispânica, o nome é bastante freqüente, assim como o seu feminino: Manuela. A origem dessa palavra é o hebraico Immanuel. Significa: El está conosco (Dt 2,7). Em francês, o nome é assim mesmo: Emmanuel e Emmanuelle. El é uma das abreviações de um dos nomes de Deus do Primeiro Testamento: Elohim. Em todo o texto da sagrada escritura ninguém nunca imaginou, nem teve a pretensão, de chamar alguém com esse nome. Uma boa explicação pode ser encontrada no profeta Isaías e nas preocupações do rei Ahaz (Is 7,14).

Foi um longo caminho até o nome Manuel, chegar nas certidões de nascimento. Boa parte desse caminho, começou com os cristãos. Eles designaram Jesus, Iehoshua ben Iossef, como sendo Immanu El. E assim como existem pessoas chamadas Cristo, Jesus, Cristina, Cristiano etc., logo surgiram os denominados Manuel, os carinhosamente chamados de Mané. Até os judeus, também foram adotando esse ambicioso nome. Tenho um querido amigo judeu, um sábio da cabalá, cujo nome é José Manuel.

Numa estrada longa e cheia de desvios, as derrapagens são freqüentes. Os nazistas, por exemplo, utilizaram esse nome como seu slogan, durante a última grande guerra: Got mit uns. “Deus está conosco”. Eles proclamavam, escreviam e inscreviam essa frase como algo duradouro, destinado a marcar a humanidade por milênios. Gritavam-na no campo de batalha e sinceramente, em sua grande maioria, deviam acreditar no seu Emanuel. Enquanto milhões de homens morriam na Rússia e nos campos de concentração nazistas ou nas fornalhas atômicas de Hiroshima e Nagazaki, diante dessas tragédias incomensuráveis do século passado, Deus provavelmente não estava com ninguém, com lado algum.

O que proclamavam os encaminhados para as câmaras de gás, para os pelotões de fuzilamento? O que pensavam as vítimas dos bombardeios, da fome, do frio e das epidemias? Edith Stein nos deixou pistas preciosas. A maioria dos fiéis ao Deus único, os cristãos e principalmente os judeus, repetiam uma pergunta desesperada de David, que os evangelhos põe na boca de Jesus crucificado, o salmo 22: – Meu El, meu El, porque me abandonaste? Eli, Eli, lamá asavtani? O evangelista Marcos, em particular, constrói toda a paixão de Jesus, sobre esse salmo. Grupos e multidões, em meio a carnificina, diziam e ainda dizem: “Deus não está conosco”. “Deus nos abandonou.” Às vezes, basta um pequeno infortúnio e esse sentimento aflora. Onde estava Deus, que não evitou essa tragédia? Por que Deus não me poupou dessa desgraça ou dessa tristeza?

– Meu El, meu El, porque me abandonaste? Entre essa frase e a expressão Immanu El, entre a certeza do abandono ou da presença de Deus junto de si, estendem-se todas as posturas e vivências da pessoa de fé, daquele que crê. Todo fiel, pelo menos uma vez na sua vida, fez a experiência pessoal dessas duas fases. Isso pode durar anos, meses… ou acontecer em questão de dias e horas. Ao longo de uma eucaristia, de uma celebração de Páscoa, de Pessach, de uma meditação ou oração. Este ano também será assim. No que pese a gratuidade das esperanças natalinas e a ilusão dos desejos fraternos do Ano Novo. Esse é o caminho da fides, da maturidade e da verdadeira fidelidade interior. Feliz Advento.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Presença de uma ausência. A Tribuna, Campinas – SP, v. 94, p. 10 – 11, 2003.

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