PORQUE CONTINUO CATÓLICO


(1/2/2003)

Evaristo Eduardo de Miranda

O caro leitor já deverá ter visto muitos livros, apostilas e declarações com o título “Porque eu sou católico”. Isso é quase banal. Razões não faltam. Um pouco, como em certos folhetos e cartilhas: porque eu não sou (ou sou) protestante, umbandista, ateu, espírita, budista e outras coisas mais. A pergunta deste artigo é diferente: porque eu continuo católico? Porque você continua católico? É de toda uma outra dimensão, alguém responder porque é padre ou porque continua padre, continua freira ou católico.

Talvez o leitor aguarde agora, uma explicitação sobre valores, esperanças, tesouros, doutrinas e bênçãos que levam alguém a continuar católico. Se é isso, pode parar a leitura por aqui. Não haverá uma linha sobre esses deleites espirituais. São coisas que vejo pelo Brasil, em geral. Advirto que escrevo sem mirar ninguém, mesmo se acertar, sem querer, alguém em particular.

Eu continuo católico quando vejo a Igreja fazer uma opção preferencial pelos pobres e estes, o objeto e sujeito principal dessa opção, eles – os pobres -, descuidadamente, fazerem uma opção cada vez mais majoritária pelas seitas ditas evangélicas.

Eu continuo católico quando ao ir à missa dominical sou submetido a uma homilia pequenina, pobre, improvisada, sem criatividade ou criação, moralista e moralizante, e, às vezes, até oportunista. Uma fala solta, sem continuidade, nem vínculo, com as pregações anteriores, com o caminhar da comunidade. Diante dessa pobreza, as leituras bíblicas do dia permanecem luminosas, intactas, elas que teriam permitido o despertar da vida e de coisas tão essenciais ao ser humano. E tão desejadas pelos fiéis. Mas não.

Eu continuo católico quando vejo alguns sacerdotes que realmente não meditaram, nem prepararam sua pregação. Improvisam, fora da tradição e sem o carisma dos grandes pregadores. E os fiéis, que vieram buscar o alimento na Palavra de Deus, agüentam, em silêncio. Mais. Eles buscam com a lupa do coração e a peneira dos ouvidos, alguma pequena semente que possam plantar em sua boa terra. Como seria bom se esses pregadores lessem, estudassem – assim como os seminaristas – o Sermão da Sexagésima do padre Antonio Vieira. Ele saúda o evangelista Lucas por dizer em seu texto grego, literalmente: Saiu o que semeia a semear. E não o semeador. Porque há diferença entre o título e a função. E assim como há semeador que não semeia, há pregador que não prega, pastor que não pastoreia e governo que não governa.

Eu continuo católico quando vejo o pastoreio da Igreja submetido a interesses e prisioneiro do poder de algumas pessoas, que ao dirigir obras e instituições, assumem uma atitude contra a caridade, a esperança e até, contra toda lógica. Pessoas que sacrificam o futuro dos outros pelo seu orgulhoso desfrute familiar do presente. Ai dos pastores que vivem da gordura de suas magras ovelhas. “Ai dos pastores que apascentam a si mesmos! Não é o rebanho que eles devem apascentar? Comeis as partes gordas, vos vestis com a lã, sacrificando os animais cevados, mas o rebanho, não o apascentais!” (Ez 34,2-3).

Eu continuo católico quando vejo iniciativas evangelizadoras, carismáticas, de qualidade, inovadoras, capazes de atrair os jovens para um encontro pessoal com Deus, serem marginalizadas por outros membros de pastorais e comunidades, e até por dioceses inteiras, pois não correspondem à sua prática eclesial, aos seus planos pastorais, suas ideologias e seus costumes.

Eu continuo católico quando canto e medito nas sofríveis letras e nas terríveis músicas da liturgia atual, das campanhas de fraternidade, de tantas missas adjetivadas, onde rimam-se “métodos” com “todos” e Javé com José.

Eu continuo católico quando vejo a recomendação do Papa João Paulo II, sobre os riscos da introdução na liturgia dos objetos e símbolos de outras religiões, passar como uma pregação no deserto, sem eco e sem conseqüências, sem lugar na agenda do zelo apostólico, nem das comissões de liturgia locais e nacionais, aparentemente.

Eu continuo católico quando vejo ministros e pastores da Igreja combatendo o que faz a força histórica do Cristianismo: seu paganismo. Essa religião visceral, essa fé afirmada contra tudo e contra todos, tão desqualificada pelos senhores da razão. Essa fé de avô, de avó e de cozinheira, essa fé de entranhas, que ainda leva as pessoas a duvidarem de sua suficiência, de sua onipotência, e a buscar o divino, e a dizer como Teresa d´Ávila: Só Deus basta!

Eu continuo católico quando vejo padres, freiras, leigos e operários da messe que tanto trabalham e trabalharam no cotidiano das comunidades, engajados nas lutas, orações e esperanças do povo, sacrificando seus anseios e legítimos desejos pessoais, serem esquecidos nas visitas, nos reconhecimentos necessários, na partilha do perdão e nos incentivos simbólicos e materiais.

Eu continuo católico porque na tradição cristã, os santos e místicos sempre ensinaram uma coisa: a acolhida e o carinho que você não encontra na Igreja; o incentivo e o entusiasmo que você não encontra na Igreja; o reconhecimento e os meios que deveriam ser melhor distribuídos e não o são; a palavra de vida e de esperança, a justiça e a fraternidade… enfim, tudo aquilo que falta, tudo aquilo que você sente falta na Igreja, é exatamente aquilo que você deve dar a ela. É isso: o que falta na Igreja, é o que devemos dar a ela. Continue católico. Shalom!

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Porque continuo Católico. A Tribuna, Campinas – SP, v. 94, p. 10 – 11, 2003.

1 comment for “PORQUE CONTINUO CATÓLICO

  1. Antônio Carlos
    1 de outubro de 2015 at 03:47

    Como é maravilhoso uma pessôa tão preparada intelectualmente nutrir uma rara devoçåo ao mistério que é DEUS !
    Louvado seja sempre N S Jesus Cristo N Senhora e o Espírito Santo.

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