POR QUE PRESERVAR OU A ATUALIDADE DE NOÉ


(22/10/1996)

Evaristo Eduardo de Miranda

A arca de Noé poderia ter sido pequena e seu trabalho bem menor. Se Noé visse a natureza com olhos utilitaristas, teria se limitado a salvar animais que lhe serviam diretamente como bois, galinhas, cavalos, cachorros e outras espécies. Mas não. Noé não foi tão antropocêntrico. Nesse mito fundador, toda Criação foi salva da extinção, independentemente de qualquer consideração sobre sua utilidade ou não para o homem.

Na tradição judaico-cristã, Noé e outras passagens da Bíblia ensinam a necessária de transformação do Caos em Cosmos, preservando harmonia e diversidade. A visão de uma determinada cultura, grupo ou pessoa – sobre o que deve ou não ser preservado na natureza – é sempre parcial e limitada. O antropocentrismo tem as cores de seu contexto histórico particular.

Um exemplo: o AZT, importante medicamento no tratamento da AIDS, foi descoberto no espermatozóide de um peixe, hoje extinto em muitos lugares e ameaçado de extinção em outros. Caso esse peixe tivesse desaparecido, como seria possível dispor desse medicamento? Outro exemplo: a maior parte das três mil substâncias vegetais, testadas atualmente nos Estados Unidos no tratamento do câncer, vêm da floresta tropical que continua sendo destruída. Exemplos como esses são numerosos. Deveriam abrir os olhos de quem só concede direito de existência a seres que “possam servir para alguma coisa”. Não sabemos o que a natureza nos reserva. A prudência recomenda uma preservação dos ecossistemas menos utilitarista.

Ambientalistas e cientistas têm levantado essa bandeira. A RIO-92 foi um marco nesse processo de luta pela preservação do meio ambiente, como interesse direto da própria humanidade. Mas vale destacar outra perspectiva, mesmo se convergente com a anterior: a idéia de que existe uma cumplicidade secreta entre antropocentrismo e exploração da natureza. Porque não agir como Noé? Porque não preservar, independente de qualquer consideração humana? Foi na Alemanha que surgiram as primeiras leis de proteção do reino animal como um todo, sem a marca utilitarista.

Criticando a visão antropocentrista de uma proteção utilitária dos animais, as leis alemãs de 1933, 1934 e 1935 (Reichsnaturschutzgesets), no início do nazismo, reconheciam-lhes um direito intrínseco. Inspirados no romantismo alemão, elas criavam uma ligação entre a estética do sentimento e a idéia de que o mundo natural – nele mesmo – é digno de respeito, independentemente de toda e qualquer consideração dos seres humanos, como sinaliza Luc Ferry em seu trabalho “A Nova Ordem Ecológica“.

As constantes descobertas científicas mostram o quanto é arriscado propor uma defesa da natureza em bases unicamente utilitaristas ou antropocêntricas. O que aparentemente não servia para nada pode se revelar de um enorme interesse. Nós não sabemos, não temos a menor idéia, de todas as ligações existentes entre homem e natureza, entre o futuro humano e o destino do meio ambiente. É melhor seguirmos o exemplo de Noé!

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