POR AMOR


(28/3/2005)

Evaristo Eduardo de Miranda

Jesus não veio suprimir o sofrimento, nem sequer explicá-lo.

Ele veio para preenchê-lo com a sua presença.

Paul Claudel

Os últimos meses da vida de Santa Teresinha do Menino Jesus foram de intenso sofrimento. Sem um pulmão e, com a progressão da tuberculose, foi perdendo progressivamente a capacidade respiratória do outro. Vomitava e cuspia sangue. Em sua agonia, arqueada, engasgada, sufocando, ela ainda dizia, numa intimidade quase irônica com Deus: “Jesus! Está me faltando o ar da Terra. Me dê logo o ar dos céus!”

Os maravilhosos escritos de Santa Teresinha são claros: Deus abomina o sofrimento. Ele não quer sacrifícios. Deus não deseja que o homem sofra ou se sacrifique. A única coisa que Deus pede e deseja é amor. Porque o impulso de alguns para o sacrifício? Porque Caim e Abel são levados a sacrificar, como se estivessem em dívida com Deus, como se não houvesse um amor gratuito do Pai? Deus quer amor. Agora,… quem ama acaba sofrendo. Quem ama acaba fazendo sacrifícios. Mas por amor. E isso é muito diferente de uma autoglorificação pelo sofrimento ou pelos sacrifícios, atitude patológica de alguns cristãos, vítimas de seu próprio egocentrismo. E nem sempre o sofrimento não é opção. É uma realidade da vida. Chega com o acidente, a separação, as enfermidades, a velhice etc.

Os últimos meses da vida do Papa João Paulo II também estão sendo e serão de um intenso sofrimento. Sua Santidade santifica-se e sacraliza sua vida pelo testemunho de amor e não por atos de heroísmo. Sacrificar etimologicamente significa “fazer sagrado” (sacro faz). Esse é o verdadeiro sacrifício cristão, seguindo os passos do amor e da paixão de Cristo.

Há algum tempo, indagado sobre o tema de uma possível renúncia devido o seu sofrimento – e não por sua incapacidade de seguir dirigindo os destinos da Igreja – o papa João Paulo II respondeu: “Por acaso Cristo desceu da cruz?”. O Papa não equiparou-se a Cristo. Ele pertence a Cristo. Pertencemos mais a Cristo do que a nós (1 Co 6,19-20). E se isso é verdade, o que é de Cristo nos pertence mais do que o que é nosso. E a morte de Cristo é mais nossa, do que a nossa (1Co 3,22-23). O Papa vive sua páscoa, sofre por amor, numa entrega incondicional, como em sua divisa: Totus tuus, Todo teu.

Muitos elogiam a coragem, admiram a determinação desse polonês rústico, sobrevivente da Grande Guerra e das perseguições dos comunistas. Outros criticam sua atitude. Não cabe criticar, nem elogiar o papa. Ele não é um modelo de amor cristão. Ele é um exemplo de amor, fé e adesão ao mistério pascal. Na paixão e ressurreição de Cristo, o sofrimento e a morte deixaram de somente uma pedagogia terrível, uma ameaça, uma advertência sobre o sentido passageiro desta vida. Pela Páscoa de Jesus, o sofrimento e a morte se tornaram mistagogia, uma via para penetrar no coração do mistério cristão. E nesse Mistério, como nunca, o Papa caminha a passos largos. O cristão que sofre e morre pode dizer: cumpre na minha carne o que falta na morte do Cristo (Col 1,24) e, de forma ainda mais paradoxal, não sou eu quem morre, mas Cristo que morre em mim (Ga 2,20).

O caminho de sofrimento do Papa passa por realidades infinitamente mais profundas do que questões de sacrifício, aceitação, dores, heróica resistência ou persistência. Ele poderia repetir as palavras de Simeão: Nunc dimitis… (Lc 2,29). Ele poderia, tal qual Moisés, deixar esta vida, como quem cumpre mais uma ordem do Senhor, a de morrer (Dt 34,5). Ele poderia até retomar as palavras do apóstolo Paulo: “O momento da minha partida chegou… Combati o bom combate” (2Tm 4,6-7). Mas não. Para cada um de nós, Deus preparou uma páscoa. Um tesouro de crescimento, ascese e encontro com o amor de Deus. Um dia Jesus lhe dirá, como a cada um de nós: “Passemos a outra margem…” (Mc 4,35). E a pedra que os homens rejeitaram, continuará sendo o alicerce sobre o qual o Senhor edifica sua Igreja e a missão do papado. O Pontífice é uma ponte (ponte faz). Ele se faz ponte entre o absurdo do mundo e a loucura do mistério de um Deus, que por amor, morreu na cruz.

Ao rezar pelo Papa; com o Papa, na comunhão dos santos e com Maria, é como se num louvor, do fundo das entranhas e do coração, lembrássemos aos seus ouvidos, com carinho e caridade, as palavras mesmas de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, mesmo se morre viverá; E todo aquele que vive e crê em mim, nunca morrerá” (Jo 11,25-26). Amén!

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