PESSACH OU O EGITO INTERIOR


(13/3/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

Pessach evoca a história de um homem, Moshé. De repente, ele toma consciência da escravidão interior que sua situação exterior revelava. Ele toma a decisão de “sair”. Essencialmente de libertar-se das servidões interiores, dos ódios, reivindicações, medos etc., que o tornavam prisioneiro de si mesmo.

Isto o leva concretamente a deixar o Egito, num primeiro momento. Num segundo, ele retorna ao Egito para libertar a totalidade dos hebreus, os ivri. Faraó, que dispunha de uma mão de obra excepcional, opõe-se violentamente. Sob a proteção divina, a saída do Egito desse povo ocorrerá, apesar de tudo. Hoje celebrado pelo povo judeu sob o nome de Pessach, esse evento mítico contém pelo menos dois registros possíveis:

O primeiro de ordem histórica, não considerado aqui;

O segundo, no qual todos podem decifrar suas alienações interiores e o caminho proposto para “sair”. Este será o desenvolvido aqui.

O Hebreu simboliza aquele em quem abre-se um espaço de consciência, que vai ampliando-se por mutações sucessivas. O Egípcio representa aquele que mantém-se bloqueado pelas forças da servidão interior e que opõe-se a toda emergência da consciência. Hebreu e Egípcio são nomeados por sua função simbólica no relato de Pessach e não pelo que hoje, historicamente falando, possam representar.

O nome Adam é talvez o nome do primeiro homem, mas aqui é o nome da humanidade de todos os tempos, o nome de cada um de nós, homens e mulheres. Ele é o Homem. “Criado” no sexto dia da Gênese, “à imagem de Deus”, ele é chamado a ser “feito à sua semelhança”. Esse “fazer” é nitidamente distinto do “criar”. É obra divino-humana de toda uma vida, a dinâmica de nossa história, pessoal ou coletiva.

Esse Adam é criado “macho e fêmea”; do ponto de vista do plano animal – o do sexto dia. Isso significa que biologicamente homens e mulheres são capazes de reprodução. Mas para o plano do Homem emergente à sua real dimensão de Homem, acima do animal (capaz de mutações para ir rumo a “semelhança” – a do sétimo dia) o significado é diferente:

Todo ser humano é macho quando se lembra (mesma raiz ZChR) do imenso potencial que o constitui em suas profundezas. Esse potencial é chamado de Adamah, o pólo feminino, a mãe das profundezas, no coração do qual está selado secretamente (arquétipo) a imagem divina, semente de todo o ser. Ir da imagem à semelhança é realizar essas bodas místicas, essa harmonização, esse casamento macho-fêmea.

PESSACH

O visível se conhece a partir do invisível e

o invisível a partir dos símbolos que são as coisas visíveis.

Eugraph Kovalevsky

Pessah evoca e da conta da passagem, não tanto da passagem que faz o Homem, mas da passagem de Deus vindo verificar o Homem. Isso permite visualizar o crescimento do Homem, desde seu nascimento até o momento de deixar esta terra. Mas seria mais simples de reduzir esse tempo aos nove meses da gestação no ventre materno. O germe da criança leva a inscrição desse esquema de base.

A subida da seiva vem da semente, a partir de uma parte privilegiada da criança – análogo ao papel do povo de Israel para toda a humanidade – e se faz durante os primeiros seis meses da gravidez. No sexto mês, vem a explosão de uma nova dimensão de informação original que invade a constituição mesma da criança e assegura a constituição de sua personalidade própria, de sua identidade espiritual, de forma que com nove meses a criança está pronta para o nascimento, pronta para aquilo para o quê foi criada.

A passagem do sexto para o sétimo mês da vida intra-uterina é análoga a passagem do sexto ao sétimo dia da criação, do Gênesis, onde o Homem sai do registro animal para tornar-se, sob o sopro do Espírito de Deus, “alma vivente”, no real registro do Homem.

A luz desse mesmo símbolo, passagem do seis ao sete, pode-se compreender porque Noah tem seiscentos anos quando entra na arca. O mundo do dilúvio corresponde a uma situação labiríntica de “seis” para passar para uma situação de “ sete”, a da arca onde ele realiza-se.

O mundo atual coloca o tema de pessach, de forma urgente:

Ou nós nos cortamos do sopro divino e postulamos como única realidade o visível do labirinto, que se fecha sobre nós, no qual morremos, análogo as águas do dilúvio no mito de Noah e ao Egito que mantém em escravidão o povo hebreu em sua própria história;

Ou nós postulamos o verbo divino, o sopro sagrado (ruach haqodesh) nossa semente e entramos no seu hálito e fazemos nossa pessach, a qual trará para nosso mundo exterior as novas realidades atingidas em nosso Egito interior, tecidas de uma outra luz, afinada a outros sons, tremulando de sua Presença (Shechiná).

Pessach leva o nosso olhar para a nossa atual e necessária saída do Egito.

A DESCIDA NO EGITO

A semente da Árvore que é o Homem, aquela presente em cada Homem, é YHWH, o santo NOME, HaShem.

A servidão pode ser entendida como o santo NOME amarrado, atado no Homem. Todo ser humano criado tem no seu núcleo o NOME, no seu centro EU SOU. Ao contrário do que afirmava Descartes: “EU SOU, então eu penso”, é porque EU SOU que amo, faço, e tomo o caminho de um devenir que deva realizar esse EU SOU que eu ainda ignoro. O caminho contrário, o da inconsciência e da alienação, gera todas as servidões. Gera as amarras que prendem e atam o EU SOU. Daí porque, libertar YHWH, EU SOU, dos vínculos que O prendem no interior de nós, é essencial!

Moshé, a quem YHWH revela-se, escuta o chamado. Seu nome hebraico é feito de retorno, de conversão, de teshuvá. De HaShem:

H Sh M < > M Sh H

A partir de seu próprio nome, Moshé nos conduz a reviravolta, a conversão essencial para que nos tornemos com ele aquele que – nas nossas profundezas, nós somos – EU SOU. Mas não é possível conhecer EU SOU em terras de Egito.

O Egito, Mitsraim, é essencialmente uma matriz de água (maim) que contém, que espreme, no seu interior (baentza) um feto mi>tsr<aim pela consoância de tsr (estreito). Oprimido nessa matriz, o feto-Israel só nascera pelo sopro da exigência de YHWH que quer que esse povo deixe o Egito “para prestar-lhe um culto”: para conhecê-lo.

A terra do Egito é um dos grandes berços culturais da humanidade. (O tema de Ham, terceiro filho de Noah, que descobre mistérios ao violar com o olhar o interior da tenda. Conhecimento dos mistérios não como experiência interior das coisas divinas, não integrada a sua pessoa. Magia. Outro caminho. O faraó recorrerá aos mágicos.)

A terra de escravidão é uma matriz para quem se eleva, se verticaliza e um túmulo para quem se apega. E o Egito glorificará os túmulos! Na linguagem bíblica, o Egito é a terra da “Queda”. Israel simboliza a realização fora do condicionamento da “Queda”, no acesso a “terra prometida”, terra interior da qual Jerusalém é a gêmea, no exterior, e na qual repousa o segredo do NOME, aquele de YHWH.

Nós vivemos o que somos. Não por punição mas para nomear o que se passa em nós, num inconsciente que nos escapa totalmente. A fonte de nossa provação está em nós mesmos. Basta de bodes expiatórios no exterior.

Os filhos de Israel descem ao Egito porque têm fome. História de Iossef. Capacidade de ler sonhos que nenhum mágico conseguia. Sob sua proteção ficam 430 anos (400: símbolo do espaço matricial, tempo da prova – 40 anos no deserto, 40 dias de Elias; 30 é o do crescimento nessa matriz).

Iossef, do verbo iasof, aumentar, crescimento, paradoxalmente sobre a raiz limite, sof. Revelação nas estruturas do hebraico das leis ontológicas: para crescer é necessário aceitar de entrar num limite. Escolhas e engajamentos são essenciais. Esboço da lei da circun-cisão, mas essencialmente da de-cisão.

Os hebreux entram nessa matriz do Egito sob a consuta de Iossef – Iasof e sairão no momento de seu nascimento, que será Pessach, a páscoa, ao atravessar o Iam-sof, o “mar do limite”, chamado pela tradição de “mar Vermelho”. Entre Iasof e Iam-sof, entre esses dois “limites”, Israel vai crescer.

E ainda hoje é assim. Somos colocados face a face com nosso dilúvio para que nos construirmos, para que tomemos consciência. YHWH diz então: “Não deixarei Meu Espírito no Homem para que se torne estéril.” (Gn 6,3) Em pessach, o potencial divino que habita o Homem exprime sua exigência de realização (accomplishment, acomplissement).

Exterior e interior do Homem são os dois pólos de uma mesma realidade. Deus conduz os Hebreu em terra de servidão para que eles possam ver e nomear suas escravidões. Só Moshé, num primeiro tempo, vai entender. Ele é em filigrana, sob o nome velado de HaShem, a consciência nascente, luz nas trevas da inconsciência de Israel. Em sua revolta inicial ele identifica-se com a violência, desembainha a espada e mata. Verte o sangue do Homem, o sangue pesado de Elohim; A-Dam, Elohim no sangue. Escravo de sua cólera, Moshé transgride a ordem mais sagrada de Israel. Ele se retira. Toma distância de sua inconsciência. Vê o assassino que ele é. Vê esse outro “lado” de si mesmo que desconhecia. Cortado de si mesmo. Ele está só. Confundido com seu inconsciente. Não é bom que esteja só (Gn 2,18). Um processo de diferenciação (no sentido Junguiano) tem início. Ele se casa em terras estrangeiras com uma estrangeira (Tsiporá). Casamento interior com a dimensão “feminina”, antes desconhecida. O homem-Moshé face a si mesmo, trabalha seu outro “lado” (costela). Repete a experiência de Adam.

Ele avança para um arbusto ardente. Ele quer ver o prodígio. Ele ouve a voz de YHWH-EU SOU dizer: EU serei quem EU serei (Ex 3,14). Revelação fulgurante. O NOME sem liames, nem amarras, mas de forma não realizada. Ele deve retornar no Egito, onde está o povo “não-realizado”, nas trevas. O medo. Incircunciso dos lábios = prepúcio para o sexo masculino = túnicas de pele (ain-or) face à luz (alef-or) (Gn 3,21).

O RETORNO, A CONVERSÃO, A TESHUVÁ

Construídos para a liberdade e mantidos prisioneiros; Empurrados para uma passagem e atrasados na sua efetivação; Chamados a transformação e mantidos num labirinto; Homem espaço de encontro de forças opostas mas concertadas: Uma resiste a outra, para que esta desenvolva – no espaço do homem – a totalidade de sua medida. Artes marciais do Oriente. Obstáculos aos cavalos. A função de “adversário” do Faraó.

Nove meses, nove vezes, para nascer uma criança. Hebreus = laboratório de uma alquimia intensa. Gestação na matriz Egito. Nascimento na passagem. Entrada numa terra nova, rica de um novo paradigma: uma real qualidade do Verbo, do Sopro, a habitará. O povo de Israel nascendo para essa nova terra será o primeiro “filho” interior da humanidade.

O nome dado a Iacov, por sua vitoriosa “luta com o anjo”, dança da vida tendo YHWH como parceiro de luta, povo chamado a viver. A passagem de Iacov, efetuada na torrente do Iaboq, foi “sua” Páscoa, sua “saída” do Egito. Agora o povo inteiro deve tornar-se Israel, nome dado ao terceiro patriarca ao final de seu combate, pois está dito: “tu as lutado com o Homem e com Deus”. Saro (lutar), Ish (homem) El (Deus).

Faraó traz a raiz ra (mal), que deveria ser entendida, dentro da dinâmica da Árvore do Conhecer Bem e Mal, como irrealizado, inacabado. Lembra o potencial infinito desse outro “lado” (costela) em cada pessoa, em cada povo e em toda humanidade. O , , que precede a construção do nome evoca “o verbo que liberta”. A vocação (evocação) do faraó é libertar o povo de seu potencial irrealizado, marcado até então pela esterilidade. Toda força oposta, todo adversário, toda adversidade em nossas vidas pode cumprir esse papel.

Faraó tem as mesmas letras, e então com as mesmas energias, da palavra poeira, pó, afar. Pó do qual Adam foi modelado, a multiplicidade de riquezas que habitam suas trevas para as quais ele é chamado a transformar na luz (or). Esse pó sela em seu nome um poder enorme de fecundidade transformadora, presente na raiz Par, Far.

O chamado da conversão, da reviravolta, do retorno, da teshuvá são as ditas “dez pragas do Egito”. Saída paulatina, por etapas. Impossível de uma só vez. Sair da “normose” (J. Y. Leloup). Do estatuto de escravo, colado em nossa pele, normalizado, falsamente securisante, esgotador. As pragas nos lançam “sobre as águas do dilúvio” como Noah; Ou “longe da casa do pai, do país da infância” como Avraham.A todos Deus ordena mesmo o que a Avraham, como uma benção: Vai para ti (lech lechá) (Gn 12,1)

A redigir ou elaborar:

A simbologia psicológica de cada uma das 10 pragas (9+1).

O riso final de Pessach. O riso da esterilidade de Sarah, o canto de Miriam na saída do Egito: Israel inteiro se torna “filho” Itshaq; YHWH diz: Israel é meu filho primogênito (Ex 4,22).

Fontes: Annick de Souzenelle; Marie Balmary; Rashi; J. Y. Leloup; Eugen Drewermann; Carl Jung; S. Freud; Friedrich Weinreb; Talmud; Tanach.

Texto provisório para a Morá Dora.

EEM/CMP, 7/III/01

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