PESCADORES PECADORES


(29/1/2005)

Evaristo Eduardo de Miranda

Por que Jesus, filho de um carpinteiro de Nazaré, cidade rural distante das praias, escolheu seus discípulos entre pescadores? Os pescadores daqueles tempos não eram como alguns de hoje em dia, contadores de vantagens e pescarias maravilhosas. Eram trabalhadores intuitivos e persistentes. Ganhavam o pão sobre as águas e firmavam seus passos num campo líquido. Eram especialistas em vento, ondas, barcos, estrelas e peixes.

Jesus também escolheu os peixes para enquadrar seu ministério terrestre. Eles estão no início do seu ministério na Galiléia (Lc 5,1-11), com uma pesca milagrosa. E, antes da ascensão, Jesus participou de outra pesca milagrosa (Jo 21,1-14) e de um alimento eucarístico, prova de sua ressurreição (Lc 24,41-43). Por que peixes e pescadores?

Os pescadores visam o invisível. Naquele tempo, como hoje, pescar implica estar atento ao cosmos, interpretar seus sinais e os sutis significados de ventos, águas, lua, tempos, nuvens e cardumes. Onde estarão os peixes esta noite? Como alcançá-los? Encontrar os peixes e encontrar-se. Os pescadores são destemidos, enfrentam o desconhecido, o surpreendente. Flutuam sobre profundidades e águas escuras. Trabalham à noite. Seguem indícios e interpretam sinais. Têm seu jeito de arar o mar, penteando-o com suas barcas, linhas e redes. Não plantam sementes. Lançam iscas. Encontrar o sentido dos peixes, capturá-los e entregá-los ao povo, alimentando-o.

Jesus escolheu, um a um, seus pescadores, homens capazes de buscar o que parece inexistente, invisível, o sentido submerso e perdido das coisas, sem desistir. Homens de profundidades. De mar e de amar. O oceano é profícuo em sentidos e significados, habitado por multidões de peixes e pela fecundidade da imaginação humana. Os discípulos eram pescadores capazes de levar esses significados, até as pessoas, à comunidade. Como eles, nós também seremos pescadores de homens, quando entendermos o significado da vida humana do rabi de Nazaré, o caminho de nossa divinização e de sua encarnação, e de tudo o que, pela graça, nos foi dado conhecer e experimentar.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Pescadores Pecadores. A Tribuna, Campinas – SP, v. 96, p. 7, 2005.

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