PAIS E FILHOS


(31/1/1993)

Evaristo Eduardo de Miranda

Alguns de meus amigos tiveram filhos recentemente. Todos vivem experiências parecidas. Os filhos, como os pais, costumam nos puxar para trás. Entra-se de novo em relação com um período esquecido de nossa vida: a primeira infância. Difícil de ser lembrado, ele é revivido pelas comparações inevitáveis impostas pelo filho recém chegado. Revalorizamos o papel de nossos pais. Imaginamos o que foi para eles criar-nos, com menos recursos do que temos hoje. Ao mesmo tempo emergem os conflitos da vida com os pais. Eles se tecem em conflitos conosco mesmos, agora pais e criando filhos.

Todos meus amigos optaram por seus filhos. Hoje parecem tolhidos em sua liberdade externa de ir e vir, mas têm se quiserem a possibilidade de viver uma grande libertação interna. Saint Exupery dizia: liberdade não é o vazio, a planície diante de nós, para ir em qualquer direção. Ao contrário trata-se de um muro intransponível com duas portas. A nós de escolher por qual vamos passar. A liberdade está nessa possibilidade de escolha. Sem a influência de nada ou de ninguém. Ganha-se e perde-se. Liberdade significa opção consciente. Nem sempre as pessoas podem fazê-lo. Nem sempre querem fazê-lo. Deixam às vezes, como Eva, que a serpente decida por eles.

Boa essa imagem de Saint Exupery mas talvez sejam três portas. A realidade não é tão maniqueísta ou simples. Entre as portas dos nossos pais e a nossa, e diante do risco da polaridade, surge a ventura da trindade. O casal com o filho se torna três. Para o filho três portas se abrem. A dos pais e a dele. Ele deve seguir a dele. Para isso é preciso descobrí-la. Quantos pais criam o filho obrigando-o a passar por suas portas. Com o tempo a criança, o jovem – ajudados por uma Força interior – descobre o caminho e opta por sua porta. Eu também sou semente estrelar. Eu sou três com o Pai.

Muito do que a Graça nos deu de entender na infância, perde-se com os anos. O mais difícil a compreender é o que já se tinha compreendido. Os pais de Jesus ilustram isso várias vezes. O mesmo acontece com João Batista, com os apóstolos, com as primeiras comunidades, com todos nós. Da mesma forma como é mais difícil fazer o que se sabe que deve ser feito. Quantas vezes nós não fazemos, apesar de sabermos o que deveria ser feito. Porque José e Maria interpelam Jesus no Templo? Por acaso eles já não sabiam o que lhes é dito na resposta de Jesus? Porque eles lhe pedem uma prestação contas? Porque nossos pais nos pediam contas indevidas? Porque nós pediremos também, talvez ainda mais, aos nossos filhos? Mesmo sabendo o quanto isso possa ter nos incomodado um dia. Porque o saber não basta. O saber não nos livra de nada, caro amigo. Não nos dá livre trânsito em nenhuma alfândega. São necessárias outras questões para que possamos ir mais longe. Esse saber da vida do outro é pura castração. O que busca saber S. José nesse templo? Talvez descobrir mais uma vez que não estamos sós.

Mesmo quando as portas são estreitas e quase fechadas, Você sabe que não está só. Buscar o diálogo íntimo com essa Força Interior. Essa busca do Outro, cresce com a chegada dos filhos. Nascer de pais violentos ou ausentes. Ser marcado pela tirania de suas palavras ou pela crueldade de seus mutismos e abandonos. Nascer de pais com taras mentais ou biológicas, de alcoólatras ou drogados. E encontrar sua liberdade. Se tornar um ser extraordinário. Como nos romances de Zola, tantas pessoas de nosso povo vivem essa ventura. Pessoas que, apesar de terem tido pais fracassados, apesar do mutismo da progenitura, foram capazes de beber da água viva da árvore da cruz. Tocados pela força da Graça souberam que não estavam sós. Também haviam nascido de um outro Pai. Eram semente estrelar. De um Pai que no Filho também se fez falta e limite. De um Pai que se encarnou e por isso se limitou, se impos até uma certa cegueira carnal por amor a nós. O Pai Nosso que está no céu.

A nossa porta é a do Pai. Superar pai e mãe, e mais ainda, perdoar pai e mãe. Sua confusão é a semente que eles deixaram por terem comido do fruto da árvore. Se somos confundidos por pai e mãe, é também uma sorte enorme a de tê-los. Foram eles que nos deram raízes, talvez por isso quiseram nos armazenar, conservar. Com maus pais disputa-se. Com bons pais compete-se. Nos dois casos a ruptura é necessária. Sem pecar. Não estamos sós e temos outra Paternidade também a nos guiar e inspirar. Tenho dito a amigos que não podem ficar presos as duras lembranças dos conflitos com seus pais sem pecar. O pecado é uma queda na existência. É a dificuldade de ficar em relação. A gente se esquece do Céu. Pensa que está só. O pecado é uma amnésia. A herança que eu deixo a meus filhos não me pertence. O que herdamos de nossos pais também não lhes pertencia.

Destinados a partir, os filhos nos preparam para a morte. O medo da morte para quem tem filhos passa a ter dois lados inéditos. Todos os pais vivem essas duas realidades: se uma vida deve ser tomada, toma a minha, não a de meu filho. Isso de alguma forma já é uma ajuda no morrer porque, pelo amor, a vida do outro realmente importa. É o belo gesto do capitão do Titanic. É a regra do primeiro as mulheres e crianças. A outra realidade é a do: mas não me tires a vida. Eu tenho um lar para alimentar!

Nesse complexo tecido de pais e filhos, de infinitos diálogos, mutismos e conflitos, as vezes é necessário parar de amassar a massa. Dê chance e tempo ao fermento de agir. Retire-se. Medite e apazigue seu espírito. No terceiro dia o pão terá crescido. Sejam quais forem as marcas e os medos não lute com a sombra, nem com seu lado escuro. Não tema a sombra por mais entranhada que pareça estar em Você. Jesus no deserto falou com ela. Fale com ela através da sua luz, através do Anjo que está em Você. A harmonia é um encontro de luzes que se alimentam da escuridão. Assim como a Graça se alimenta do pecado. A potência da Palavra cura e liberta. Redescubra o que já sabe. Você também é filho e filha do Deus da Palavra.

Pais ou filhos, se a solução de seus conflitos depende de um “milagre”, saibam que o milagre é quase sempre fruto de uma transgressão. Como o do cego Bartimeu. Ele grita e não se cala ao sentir Jesus por perto. Grita contra tudo e contra todos. Até Jesus ouví-lo e curá-lo. Alguns agem arrebentando o teto da casa para descer um paralítico até Jesus! Ou como no comovente episódio da mulher com fluxos de sangue (LC 8:40). Do meio da multidão, ela toca o manto de Jesus para ser instantaneamente curada. Quem me tocou, pergunta Jesus. Mas como Senhor! São as multidões que te apertam e comprimem, diz Pedro. Alguém me tocou pois eu senti que saiu de mim uma força! Reze. Não com um prosaísmo que desossa, mas com a coragem e a fé dessa mulher emergindo da multidão. Toque em Deus!

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