PADARIAS E TEOFANIAS


(1/11/2011)

Evaristo Eduardo de Miranda

Como Deus aprecia as padarias no Brasil! Anos atrás, eu estava numa padaria quando irrompeu um homem negro, mal cheiroso, mal vestido, mal encarado… Desrespeitou a fila em direção ao balcão. Imaginei um assalto. Os clientes ficaram paralisados. Tentei proteger meu filho de sete anos, com síndrome de Down, colocando-o para trás de mim. E rezei. Imóvel.

O homem retirou do bolso algumas moedas. Pediu dois pãezinhos e foi pagar no caixa. Nessa hora percebi que meu filho desaparecera. Comecei a procurá-lo. Logo o vi aproximando-se desse homem. Meu filho o abraçou e o beijou. , todos na padaria percebemos que era um velho mendigo, com fome. Suas moedas permitiram comprar dois pãezinhos e nada mais. O homem chorou.

Lembro-me bem da expressão de alguns médicos, brancamente vestidos, em minha direção. Todos percebíamos nossa reação preconceituosa e inadequada. Deveríamos ter-lhe ofertado um litro de leite, um sanduíche. Mas não. Talvez, há muito tempo, esse velho não recebia um carinho. Foi uma teofania. Comovido, ele disse algo nos ouvidos de meu filho e saiu. O menino deficiente retornou com ar de moleque. Parecia dizer: – Eu fiz a minha parte. Vocês...

Outro dia alguém me falou da dificuldade de visitar a mãe, doente com o mal de Alzheimer, em uma cidade distante. Ela não o reconhece mais. E ele hesitava em ir até lá no meio da semana. Chegaria de madrugada. Ficaria com ela poucas horas e retornaria, ainda de noite, para seu trabalho. Talvez ela dormisse o tempo todo da visita. Mesmo assim, ele viajou. Algo o impulsionava. Chegou às duas da madrugada e antes de ver a mãe, parou numa padaria para comer alguma coisa. Ao entrar, uma teofania: sua mãe tomava uma média junto com um médico.

Sem identificar-se, ele pediu para sentar com eles. A mãe não o reconheceu. O médico aquiesceu. E explicou, tratando-a com carinho, que tivera um momento livre e decidira sair com aquela senhora para distraí-la um pouco. O médico perguntou quem era ele: – Sou filho dessa senhora e agora seu irmão.

muitas histórias sobre as manifestações de Deus em padarias. Sobretudo, quando geridas por portugueses que as denominam Padaria Nossa Senhora de Fátima, Panificadora Nossa Senhora das Graças e por aí vai. Para seguir no meio de nós, Deus se fez homem e pão. Pão da vida. Quem sabe, por isso mesmo, pelo menos no Brasil, Ele goste tanto de manifestar sua compaixão entre homens de boa vontade, clientes das padarias.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Padarias e Teofanias. A Tribuna, Campinas – SP, p. 13 – 13, 2011.

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