OS LIMITES DA CLONAGEM


(27/6/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

A clonagem é uma técnica de duplicação de um ser vivo, sem passar pela via sexual. O clone tem exatamente o mesmo patrimônio genético do ser clonado. Pela via sexuada, o filho sempre tem metade do patrimônio genético do pai e metade da mãe. Na natureza, o caso dos gêmeos idênticos é análogo a clonagem. Um ser vivo, no início um ovo fecundado, dividiu-se em dois e deu origem a dois seres geneticamente idênticos, do mesmo sexo e muito parecidos em termos de aparência. A clonagem tem duas finalidades: reprodutiva e terapêutica. Na primeira, busca-se repetir alguém: artista famoso, milionário, cientista genial… A pessoa doa uma célula e a partir dela é gerado um ser geneticamente idêntico, sem passar-se pela via sexual. É o que foi feito, de certa forma, no caso da ovelha Dolly.

Na clonagem terapêutica busca-se gerar, com células indiferenciadas (células tronco), tecidos, órgãos ou outros componentes do corpo. Qualquer célula tronco pode ser induzida, em laboratório, a produzir partes do corpo, transplantáveis sem risco de rejeição. Isso é feito para tratar-se de um ser humano, o próprio doador. A principal fonte de células indiferenciadas é um embrião gerado especificamente para essa finalidade. Ao extraírem-se essas células, o embrião morre. Sua morte acarreta a destruição de uma vida humana ou, pelo menos, o impedimento de um processo que naturalmente culminaria numa vida humana, com implicações éticas e religiosas.

As células tronco existem também em tecidos adultos (músculos, medula óssea, intestino, neurônios, cordão umbilical etc.). Podem ser usadas para finalidades terapêuticas, sem acarretar a morte de embriões, mas trata-se de um processo mais difícil e menos eficiente.

Muitos laboratórios e centros de pesquisa exigem uma liberdade irrestrita para trabalhar com células tronco, sobretudo a partir de células de embriões, as mais acessíveis e adequadas para a pesquisa. Justificam essa demanda de liberdade, com a possibilidade de curar doenças graves, salvar vidas etc. Além do mais, com as técnicas de fecundação in vitro, geraram-se milhares de embriões que – ao envelhecerem nas geladeiras dos laboratórios – não podem mais ser implantados em mulheres e assim estariam “disponíveis”!

O tema é absolutamente novo. A clonagem reprodutiva está proibida na Europa, nos Estados Unidos e deve ser proibida por lei, em breve, no Brasil. O tema da clonagem terapêutica é mais complexo e está autorizada em muitos países. Refletir sobre o assunto e impor limites e orientações à pesquisa científica é fundamental.

Duas dimensões, muito simplificadamente, fundam o humano: o de limite e o vínculo. O humano é capaz de autolimitar-se de forma estruturante. Um pai não faz sexo com sua filha. O humano proíbe o incesto. Isso, por um exemplo, é um eixo estruturante de nossa humanidade, face a animalidade. Essa limitação, como tantas outras ontologicamente instaladas no humano, e tão bem explicitadas na Lei de Deus, também tem a ver com a noção de vínculo. Não sou filho do nada. Tenho ascendentes e descendentes. Existe um vínculo entre minha origem e meu destino, inclusive no sentido escatológico.

Alguns psicanalistas chamam esse vínculo de inserção genealógica, sem a qual perde-se a identidade humana. Herda-se das gerações passadas a vida individual, no sentido genético, e também a vida social. A linguagem é talvez um dos exemplos mais claros dessa vinculação relacional que nos faz homem pelo outro. Eu não inventei minha língua, o português. Por mais que alguém possa sozinho realizar coisas em sua vida, sua língua é sempre um tesouro herdado. Mas, as ideologias do momento tentam subverter os princípios de nossa humanidade, visando poder e lucro.

O problema da clonagem não está em gerar-se uma pessoa idêntica a outra, como a mídia apresenta a questão e a televisão delira explorando tudo, menos o essencial. A questão é outra. O clone de uma pessoa será seu irmão e simultaneamente seu filho. Uma ruptura do fluxo em cascata das gerações, como na bela expressão de Tertuliano, com conseqüências inimagináveis para nossa humanidade. A clonagem reprodutiva é um incesto consigo mesmo. Um incesto ao quadrado! Quando alguém pratica o incesto é condenado, no direito, por crime contra a genealogia. É igual na clonagem. Só que com muitos cúmplices a serem levados as barras da Justiça. Até porque, do ponto de vista teórico alguém poderia ser clonado sem sabê-lo e a sua revelia.

Ao proibir a clonagem humana, os países impõem limites necessários a pesquisas e desvarios de alguns cientistas. Em nome de uma ideologia cientista, que daria à ciência a liberdade de fazer o que quiser, alguns pesquisadores reagem. E têm boa mídia. Eles não aceita limitações, orientações e muito menos objeções à sua utopia enganadora. Alguns cientistas – manipuladores de embriões e opiniões – também vendem sua utopia gênica, reparadora e sanitária anunciando que doenças serão curadas, bebes serão geneticamente perfeitos, acabará a dor e o sofrimento: um corpo eternamente são numa sociedade sadia. Quando a ciência deixa de ser descritiva e explicativa, para tornar-se normativa, a sociedade deve reagir. Simplificando: não cabe à ciência dizer como deve ser nossa sociedade. Cabe à sociedade definir a ciência e as pesquisas que quer.

Leis divinas, inscritas no ser profundo de cada um, clamam na defesa de nossa humanidade. Essa voz de Deus, na tradição cristã, deve ser sempre buscada e ouvida, no fundo do coração, na oração, na doutrina da Igreja e no Magistério. Às ameaças ao princípio de humanidade, deve-se responder como dois judeus o fizeram, Pedro e João, face aos poderosos e autoridades de seu tempo: “Julgais vós se é justo, diante de Deus, ouvir-vos antes a vós do que a Deus? (At 4,19)”.

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