OS HOMENS E AS ÁRVORES


(23/8/2008)

Evaristo Eduardo de Miranda

O profeta Ezequiel foi, sem dúvida, o mais jardineiro dos mensageiros de Deus. Seu nome significa “Deus tornará forte ou fortalecerá”: Iehazeq (fortalecerá) e El (Deus). Ele falava muito de árvores (e de ossos). Numa bela alegoria sobre reis, reinados e nações, Ezequiel descreve o plantio por Deus de um pequeno rebento de cedro, tirado da ponta de um ramo, numa montanha elevada de Israel. No capítulo 17, Ezequiel fala desse cedro plantado diretamente por Deus, senhor das leis da natureza. O Salmo 104 (v. 16) fala que os cedros do Líbano foram plantados diretamente por Deus!

“Ele estenderá ramos, produzirá fruto, tornar-se-á um cedro magnífico. Todos os tipos de aves ali habitarão. Elas habitarão à sombra de seus ramos” (Ez 17,23). E Ezequiel retoma o tema da árvore em outra passagem alegórica sobre o reino do Egito: “Todas as aves dos céus faziam ninho em suas ramagens, todos os animais selvagens procriavam debaixo de seus galhos e toda a multidão dos povos habitava à sua sombra” (Ez 31,6). O cedro do Líbano é uma planta muito especial na História Sagrada. Foi com eles que o rei Salomão construiu grande parte de seu palácio, do templo de Jerusalém e de seus altares.

Jesus, filho de carpinteiro, acostumado aos odores das madeiras e conhecedor das árvores, numa alegoria sobre o Reino de Deus compara-o ao pequeno grão de mostarda. Depois de semeado, germina, cresce, deita ramos, torna-se a maior das hortaliças “de tal forma que, à sua sombra, as aves dos céus podem fazer seus ninhos” (Mc 4,30-32, Mt 13,31-33). Na Galiléia, os pés de mostarda podem atingir três metros. São arbustos, e não árvores, da família das crucíferas. Têm a flor em forma de cruz. Lucas não insiste tanto na diferença de tamanho entre a semente e a planta adulta. Destaca claramente o destino de crescimento do Reino de Deus, como a expansão do Evangelho entre os povos do mundo.

Quem planta árvores sabe que como as pessoas, elas têm gostos e destinos difíceis de controlar. Algumas crescem, desenvolvem raízes e troncos magníficos e parecem verdadeiras montanhas vegetais. Outras ficam raquíticas e muitas árvores morrem de enfermidades, quebradas num acidente ou calcinadas numa queimada. O mesmo ocorre com nossas palavras, com nossas idéias, com nossas catequeses, com nossos anúncios do Evangelho e com nossas vidas.

No texto bíblico, nenhuma árvore é meramente uma árvore e sim um lugar de encontro entre a criatura e o Criador. São muitos os encontros de Jesus com árvores. A simbologia da árvore representa a vida em perpétua evolução e a ascensão rumo aos céus. A árvore evoca a comunicação entre, de um lado as realidades cósmicas subterrâneas, terrestres e, do outro, as celestes ou aéreas. A árvore é um símbolo do caminho ascensional entre o visível e o invisível, um lugar das manifestações do divino, uma escada para os céus, um sinal de salvação como na árvore da cruz.

Em hebraico, a palavra ossos (etsem) têm a mesma raiz de árvore (ets), poder (etser), poderoso (atsum), poderio (otsum), exatidão (etsem) ou ainda conselho (etsá). Os ossos nos mantém de pé, verticalizados, eretos, como cedros. Eles representam uma realidade última da vida, pois permanecem depois da morte. Na tradição judaica e cristã, a árvore plantada no centro do jardim do Éden ou junto a um ribeirão de águas (Sl 1) reúne a iluminação necessária à compreensão do humano e de sua imperiosa verticalização e ascensão para Deus.

No evangelho de Marcos, Jesus abre os olhos de um cego e lhe pergunta: – Vês alguma coisa? O cego, cujos olhos abriram-se à primeira visão, a primeira dimensão humana, responde: “Vejo homens como árvores; vejo-os andando”. Num segundo momento, Jesus abre seus olhos para a visão espiritual. “Então, ele novamente impõe as mãos sobre seus olhos: ele vê claramente, está restabelecido; e fixa tudo distintamente o homem viu claramente. Estava curado e via tudo distintamente” (Mc 8,23-25). Nos dias de hoje, a cura da nossa cegueira deveria nos permitir de enxergar as árvores como homens e a natureza como um imenso tesouro espiritual de Deus, colocado diante de nós.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Os homens e as árvores. A Tribuna, Campinas – SP, p. 13, 2008.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Os Homens e as Árvores. Jornal Universidade, Campinas – SP, p. 5 – 5, 2012.

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