OS FILHOS DA VOZ


(23/6/2003)

Evaristo Eduardo de Miranda

Quando se fala em voz, ouvir uma voz, pensa-se logo na voz humana. Na Bíblia, não é bem assim. São quase 600 citações da palavra voz. Em hebraico, a palavra voz é qol (kufvavlamed) e ela pode ser emprestada aos sons da natureza, do corpo, dos céus e a tudo que percebe o ouvido: ruídos, sons, gritos, vibrações, silêncios especiais e voz. O termo qol comporta expressões difíceis de traduzir em português, como a voz do silêncio, do recolhimento, da sarça ardente, dos passos (2Sm 5,24)… A voz está numa das expressões mais bonitas do zelo ardente por Deus, que faz vibrar os místicos cristãos há séculos, e em particular os carmelitas: a voz de um silêncio tênue (qol demamá daqá) (1Rs 19,12), durante a densa experiência de Deus, vivida por Elias no monte Horeb. Dessas vozes todas, eu gosto mesmo é da voz de uma folha voando no vento (Lv 26,36). É minha preferida.

Em primeiro lugar, é sempre Deus quem ouve a voz dos homens, como no emblemático episódio do menino filho de Hagar, em perigo de morrer de sede sob um arbusto do deserto (Gn 21, 17). Deus ouve também a voz do sangue derramado de Abel (Gn 4,10), a voz do soluço (Sl 102,6), do louvor (Sl 26,7), do clamor (Sl 3,4; 5,3; 66,19 e 86,6) e do povo (1Sm 4,6).

A Bíblia evoca com freqüência a voz, o grito dos animais. No texto bíblico, os cavalos tem vez e voz (Jr 8,16) e também as aves entre as folhas (Sl 104,12), os rebanhos (Jo 9,9), a pomba (Ct 2,12), os pássaros (Ecl 12,4), o leão (Ap 10,3) e até as asas dos gafanhotos (Ap 9,9).

Outra voz vibrando pelo texto bíblico é a dos instrumentos musicais. Existe a voz das trombetas (Sl 58,6), dos chifres dos carneiros (Js 6,5), das cítaras (Ez 26,13), dos citaristas e músicos (Ap 18,22) e até do som do cálamo (flauta) (Jó 21,12). A voz da flauta bíblica lembra a do flautista de Hamlim. Acaba atraindo o povo, exultante de júbilo, a ponto dessa voz de flauta e de multidão ser capaz de rachar, de fazer estalar a terra ! (1Rs 1,40).

A voz de Deus, aquela que vem dos céus, por entre as nuvens, raios e trovões é apresentada, textualmente e curiosamente, como “filha da voz”, bat qol. Talvez porque não teríamos como ouvi-la diretamente, então Ele nos envia uma filha de sua voz inaudível.

João, o do evangelho e do Apocalipse, gostava muito dessa expressão: voz. Usa e abusa da palavra em seus textos. João era um especialista em escutar, em ouvir a voz, principalmente a voz do Senhor. É ele quem deita, inclina-se sobre o peito de Jesus para ouvi-lo (Jo 13, 25). Junto à cruz, também ouve as recomendações derradeiras de Jesus: “Eis aí a tua mãe” (Jo 19,27).

No evangelho de João e no Apocalipse da escola joânica, a voz é em primeiro lugar a da natureza: a voz das grandes águas (Ap 1,15; 14,2 e 19,6), do sopro e do vento (Jo 3,8), – como a do golpe de vento violento nos Atos dos Apóstolos (2,6), – dos sete trovões (Ap 10,3; 19,6), do leão rugindo (Ap 10,3), das asas dos gafanhotos (Ap 9,9), a voz do rebanho e do pastor (Jo 10,4-5.16). O próprio galo, na paixão de Jesus, não canta como no Primeiro Testamento. O galo do Segundo Testamento, textualmente, “dá a voz”, megalephone (Jo 13,38; 18,26).

Um pouco como o galo, Jesus também, depois de falar, “dá uma voz forte”, grita com voz forte: “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11,43). Essa palavra de ressurreição, parece estar na última voz de Jesus, no evangelho de Marcos onde “soltando um grande grito, “dando uma voz forte”, Jesus expirou (Mc 15,37). O que haverá gritado Jesus ao expirar? Uma expressão de dor? Um som de sofrimento? Não creio. Sua expressão era outra. Jesus deve ter gritado da mesma forma que o fez, frente a morte de Lázaro, frente ao sepulcro aberto. Um clamor de ressurreição!

João sempre ouvia e andava atento a muitas vozes: a voz de uma multidão imensa (Ap 19,6), de citaristas e músicos (Ap 18,22), do pastor chamando as ovelhas (Jo 10,3), a voz dos estrangeiros (Jo 10,4) e a voz do esposo (Jo 3, 29), a voz dos filhos de Deus (Jo 5,25), a voz que as ovelhas ouvem (Jo 10,16) e a voz de quem é da verdade: “Quem é da verdade, ouve minha voz” (Jo 19,8).

A voz bíblica é, por excelência, a do som das palavras. Quem ouve está envolvido pela voz. Qual é o primeiro mandamento da lei de Deus? Amá-lO sobre todas as coisas? Não. Basta conferir esse texto sagrado, da entrega da Torá, da revelação do Decálogo, no livro do Deuteronômio, capítulo 5, que os judeus recitam em oração cotidiana. Começa assim: “Ouve Israel…” (Dt 5,1). Shemá Israel! O Decálogo começa com essa primeira palavra, essa primeira ordem, esse primeiro mandamento: Ouve Israel!

Essa voz deve ser ouvida pelo coração disponível, aberto, acolhedor, doce e carinhoso, vibrando na natureza, no cosmos, nos irmãos, nas criaturas. Como fez ao longo de sua vida o professor Newton Freire-Maia. “Hoje se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações…” (Hb 3,8). Essa escuta interior pede um acolhimento, um entendimento místico, profundo. Agora, o professor Freire-Maia, fora dos limites do tempo e do espaço, vibra e vive na plena harmonia da palavra do Criador. Como dizia São Francisco de Assis: “Não basta ouvir o canto dos pássaros, é preciso entender a letra”.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Os filhos da voz. A Tribuna, Campinas – SP, 2003.

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