OS CASAIS DA ALIANÇA


(13/8/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

Os casais da Bíblia são um verdadeiro desastre. Do desastre de suas histórias emerge um cainho terapêutico para o masculino e o feminino. Ao casal humano, Deus havia determinado: “O homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá (davaq) à sua mulher e eles serão numa só carne (Gen 2,24)”. Em hebraico o verbo conhecer, penetrar, é iodea. Ele comporta uma idéia de unilateralidade. Um sujeito ativo e um objeto passivo. Eu conheço, eu penetro. Há algo de negativo nessa forma de relacionar-se. É como em português, quando dizemos, em tom de crítica negativa: – Eu te conheço… O Adão penetrou Eva, como tantos outros homens suas mulheres. Ele não cumpre o primeiro mandamento cronológico na apresentação da Bíblia: unir-se a esposa. O verbo davaq, unir em hebraico, não possui a unilateralidade do verbo iodea. Ele representa um consentimento mútuo e implica na reciprocidade no ato de união, mais do que em nosso verbo unir. Dois sujeitos ativos, diferentes e livres, decidem unir-se, aliar-se.

A não adesão a união recíproca (para uma só carne) começa com Adão e Eva. Essa mulher, penetrada por Adão, proclama o sonho mítico da maternidade sem homem: eu tive um filho com Deus! Seu nome será Caim (qaniti) e significa eu adquiri, eu obtive. E assim nasce esse filho, de uma produção independente, como se diz tanto hoje em dia. Obtido, como quem compra um produto num mercado. O segundo e espectral filho será Abel ou ainda névoa, bruma, indefinição na fusão. Depois da tragédia fratricida, Adão conhece Eva. Muda o verbo: de penetrar para conhecer. E filho será, enfim, imagem e semelhança do casal. É a partir dessa descendência “suscitada por Deus”, como diz o Gênesis (4,25-26), que “se começou invocar o nome do Senhor”. O casal que começara tão mal, acaba bem.

Logo a seguir, temos Noé e sua esposa, outro desastre. A mulher de Noé, nem nome tem no texto bíblico. Ela é incapaz de cobrir a nudez do esposo, exposta aos filhos. Descobrir a nudez designa, na Bíblia, as alianças matrimoniais tidas como incestuosas. Mas o desfile dos casais que não se unem mais se conhecem, continua.

O caso de Abrão e Sara é pior ainda: uma mulher estéril e um marido inexistente. Abrão oferece – como um proxeneta – sua mulher aos soldados do Faraó. “É bonita, pode levar, é minha irmã”. A conjugalidade desaparece. Será o próprio faraó, ao ouvir seu eu profundo, quem perceberá que ela é casada. O egípcio pagão acaba por respeitar a mulher do hebreu patriarca. Numa relação de posse, como a desse casal, a esterilidade imperava. Depois de muitas passagens, cheias de graça, eles vão superar essa condição. O nome de Abrão é mudado para Abraão e o de Sara também. De Saraí “minha princesa” o nome muda para Sarah “princesa”. Desaparece a posse na evocação da esposa. O filho Isaac virá selar a nova aliança, entre dois seres diferenciados. É fim da esterilidade.

Mas os maus exemplos são tantos: as esposas de Esaú – Iehudit e Basmat – tornam penosa a vida de Isaac e Rebeca (Gn 26,35). Essa mesma Rebeca – mais tarde – vai enganar o marido, instruindo e ajudando o filho Jacó a roubar o direito de primogenitura do irmão Esaú. Outros exemplos: Sansão e Dalila; Davi e a esposa de seu melhor general, assassinado pelo desejo sexual do rei salmista. Que casal constitui esse famigerado rei? E também, Jó. No auge de sua provação, a esposa o questiona: onde está o teu Deus? Amaldiçoa-o e morre! (Jo 2,9).

Pois bem, depois de tantos casamentos e casais fracassados, distantes da lei da união, Lucas nos conta, em seu evangelho, uma história diferente: uma jovem camponesa recebe a visita de um anjo. Pior, ele fala com ela. Absurdo maior: anuncia-lhe que vai ser mãe. Terá um filho com Deus! O sonho da Eva, no sentido psicanalítico do termo, é levado à plena realização. A mulher gerará sem homem, o parceiro desaparece da relação. A mulher só depende de si para ser mãe, e sem remorsos: é Deus quem determina. Maria poderia dizer sim e viver o sonho de Eva plenamente justificada: não o faria por puro desejo, mas por vontade divina. E essa moça faz o que? Ela evoca o casal, a sua relação com o amado e introduz o esposo nessa história. Ela ousa questionar o anjo: E o José?! Para responder o anjo vai ter que retomar o discurso, sofisticá-lo evocar o Espírito etc.

Bem, de José é Mateus quem conta a história. José descobre a mulher grávida. O homem justo (vir justus diz a Bíblia) pensa: disso eu não participo, com esse adultério eu não compactuo. Ele poderia condená-la à morte, lapidada. Seria aplicar a lei. Mas ele ama essa mulher, acima da lei dos homens. Ele diz: não serei o juiz de minha esposa. Recusa-se a difamá-la publicamente. José se retira, em silencio, secretamente. Como um anjo, como o anjo, José estende sobre Maria sua sombra, sua proteção eficaz.

Logo depois, na escuta de seu eu profundo, buscando a mulher no torpor como Adão, num sonho, José terá a revelação: o que acontece em Maria é fruto do Sopro Sagrado. E essa Maria será seu caminho espiritual para viver algo extra-ordinário. Ele é convidado por um anjo a nomear seu filho de Jesus. José terá assim, entre outros, esse papel capital de conferir à criança a sua filiação davídica. Nomeado pelo pai, ele será Jesus, o filho de Davi. De um caminho matrimonial concebido como ordinário, o casal passará a viver sua aliança na dinâmica poética do extra-ordinário.

A aliança, símbolo do matrimônio e da união de duas pessoas, ao ser colocada no dedo, o divide em dois. Assim, a aliança simboliza união e separação, a preservação das identidades. Os verdadeiros casais se constróem na diferença, na alteridade, no respeito da identidade do outro. E não na indiferença ou no desrespeito do outro. Na paixão – tão fascinante! – o casal está fundido e por isso acaba confundido. Dois voltam a ser um, como no ventre materno. Doce e ilusório retorno. Essa confusão pode levar à catástrofe – o mais freqüente – ou ao amor, o mais difícil. A Bíblia está cheia de maus exemplos, mas ofuscados pela aventura luminosa do José e da Maria.

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