OS 1700 ANOS DA ARMÊNIA


(18/9/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

Este fim de semana, o papa João Paulo II inicia uma visita histórica à Armênia. No ano 301, a conversão do rei Terdat II fez da Armênia o primeiro estado cristão, um século antes do império romano! Apesar dos terremotos e dificuldades da história, cujo auge foi o genocídio perpetrado pelos turcos em 1915 e o domínio comunista, a fidelidade da Armênia ao cristianismo nunca falhou. Sinal de esperança e orgulho, os armênios do mundo inteiro estão celebrando seus 1700 anos de cristianismo. A Bíblia sempre foi o centro de uma tradição religiosa que permitiu ao povo da Armênia enfrentar tormentos e perseguições, muitas das quais os trouxeram ao Brasil e a Campinas.

Essa tradição começou no século V, com a criação de um alfabeto destinado a permitir a transcrição da Bíblia, para que os armênios pudessem rezar e meditar em sua língua. Os comentários dos padres da Igreja também foram traduzidos e alguns desses textos só chegaram até nós graças as traduções em armênio, as únicas que sobreviveram aos séculos. Em muitos casos, dada sua qualidade e rigor, essas versões armênias são utilizadas até para corrigir outras fontes dos mesmos textos.

Por sua autenticidade, surgiu na Armênia uma igreja apostólica diferente de Bizâncio e de Roma, dotada de uma cristologia original, com uma liturgia própria que lembra muito o patrimônio cristão da Terra Santa. Aliás, na cidade de Jerusalém, o bairro armênio mantém-se há quinze séculos, como exemplo de estabilidade e tolerância, em tempos de tanta violência!

A Armênia foi a única nação soviética onde todas igrejas haviam sido fechadas! Hoje, a Faculdade de Teologia de Erevan sucedeu à antiga Faculdade Marxista-Leninista. Forma professores de religião, que voltou a ser ensinada em todas escolas do país. O papa visitará a catedral da cidade santa de Etchmiadzine onde o patriarca e catholicos dos armênios, Karekine II, presidiu a celebração de páscoa, envolta numa riqueza simbólica, litúrgica e de cânticos admiráveis. Presidente, ministros, autoridades e embaixadores… todos estavam presentes. Após o ofício, houve uma visita ao monastério de Khor Virap, aos pés do Monte Ararat (Gn 8,4), cidadela onde ficou encarcerado Gregório Iluminador, o evangelizador da Armênia.

Uma relíquia de S. Gregório Iluminador, conservada em Nápoles, foi enviada pelo papa João Paulo II ao catholicos e será instalada na cripta da nova catedral de Erevan. A luz de um enorme círio aceso na catedral partirá para igrejas armênias do mundo inteiro, incluindo o Brasil, onde a comunidade armênia tem presença expressiva. Aqui em Campinas, perfeitamente integradas ao Brasil, dezenas de famílias de origem armênia, contribuem com o desenvolvimento da cidade e região. Fáceis de serem reconhecidos pelo final ian em seus nomes, como os Atarian, Avian, Bojikian, Kerijian, Kilian, Kechichian, Tilkian ou Bolissian, os armênios exercem profissões liberais, carreiras universitárias. A família Kuyumjian, por exemplo, teve atuação destacada na construção das barragens do rio Tietê.

“Ninguém pode nos separar da fé: nós temos o santo Evangelho como pai e a Igreja católica como mãe.” Assim, os armênios responderam, em 451, aos persas que queriam impor-lhes a religião masdeísta. Hoje, na praça da capital da República, Erevan, onde antes havia uma estátua de Lenin, uma enorme cruz foi erigida e cercada por 1700 velas acesas. Após sua viagem seguindo os passos do apóstolo S. Paulo na Grécia, Síria e Malta, o Papa João Paulo II chega à Armênia, durante o outono europeu. Mais uma primavera para essa terra eleita por Deus para o renascimento após o dilúvio, onde Noé plantou suas vinhas.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Os 1700 anos da Armênia. Correio Popular, Campinas – SP, p. 2, 2001.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *