ORAR PARA SE TORNAR HOMEM DE ORAÇÃO


(5/9/2005)

Evaristo Eduardo de Miranda

Quem entra numa catedral, numa igreja católica, fora dos momentos das celebrações, encontra o silêncio, a luz indireta, os vitrais coloridos, os altares, as luzes das velas nas capelas laterais, a diversidade de espaços sagrados e o odor de incenso. Qualquer pessoa tem a possibilidade de ficar sentado, meditando, em silêncio. Às vezes com direito ao som suave da música sacra ou de um órgão invisível. Pessoas, independentemente de suas religiões, buscam esse espaço sagrado, esse oásis de paz e silêncio, principalmente no centro de grandes metrópoles.

“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Quando orardes, não usem muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras. Não sejais como eles. Vosso Pai sabe do que precisais, muito antes que vós o peçais” (Mt 6,7-15). Em praças públicas e nas televisões, as orações de muitos pastores são verdadeiros discursos, com retórica e música de fundo. Eles apresentam um abaixo assinado de reivindicações para Deus, com quem negociam favores em troca de doações. Outros completam suas “orações” com gritos, lágrimas, bramidos e uma mistura de palavras incompreensíveis. Esse fenômeno conhecido como glossolalia, eles interpretam como um dom do Espírito Santo. Só isso.

A maioria dos católicos reza em silêncio. Colocam-se primeiro diante de si mesmo e depois diante de Deus. Para os católicos, a oração os transforma em seres misteriosos. Quem pratica a oração é introduzido no mistério. A oração leva a um lugar onde ninguém pode alcançar ou dominar o outro. Ela nos torna inacessíveis uns aos outros. A oração ajuda a compreender que a comunhão não é um direito de livre acesso sobre os outros. Esse é um dos segredos dos místicos e da espiritualidade católica. Na oração sempre emerge essa fronteira do mistério. Ninguém pode atingir o inatingível ou tocar o intocável. Em Deus, pela oração, descobre-se também a inacessibilidade e a sacralidade da pessoa e do ser.

Uma parte da vida espiritual dos católicos é feita de desconhecimento, de realidades impenetráveis, de aceitação do mistério. Ninguém é onisciente. Ninguém sabe e entende tudo. Nem sobre o mistério de sua pessoa, menos ainda sobre o mistério de seus familiares e irmãos. Quanto mais sobre o mistério divino. Cientes de que não são oniscientes, nem onipotentes, os católicos reservam um lugar para o mistério em suas vidas. Na Bíblia, o verbo meditar significa textualmente, em hebraico, falar ao coração. Em silêncio. Estilo zen budista.

O católico em oração não alcança exatamente o que ele faz. Ele está ali, na presença de Deus, onde acaba o conhecimento. A pessoa em oração ignora a si mesma, mas Deus a conhece. Deus a entende num nível em que ela ainda não se conhece, nem naquele momento, nem quanto ao seu devir, ao seu futuro espiritual. A oração é um espaço de liberdade no coração da Igreja católica. À força de bater, a porta se abrirá. Enquanto se espera, deve-se continuar batendo, confiar e tornar-se assim, homens de oração. Só a prática da verdadeira oração faz homens de oração. E essa é a tarefa da oração: transformar o orante, com o tempo, em verdadeiro homem de oração. Da mesma forma, as intempéries e as plantas transformam a rocha em terra fértil. Lentamente. Misteriosamente.

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