ORAÇÃO E MISTÉRIO


(4/9/2005)

Evaristo Eduardo de Miranda

Quando orares, entra no teu aposento,

e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em oculto;

e teu Pai, que vê secretamente, te recompensará.

Mateus 6,6

A oração nos transforma em seres misteriosos. Quem pratica a oração é introduzido no mistério. Em segredo, em silêncio, pode-se expor e secretar realidades guardadas e secretas. A oração nos leva a um lugar onde ninguém pode alcançar ou dominar o outro. Ela nos torna inacessíveis, uns aos outros. A oração ajuda a compreender que a comunhão não é um direito de livre acesso sobre os outros.

Esse é um dos segredos dos místicos e da espiritualidade. Na oração, sempre emerge essa fronteira do mistério. Ninguém pode atingir o inatingível ou tocar o intocável. Em Deus, pela oração, descobre-se também a inacessibilidade da pessoa e do ser. O Pai está em oculto e vê. O orante também oculta-se, do mundo e de todos, para poder ver. Esse paradoxo está inscrito na palavra secreto: como substantivo evoca algo escondido, não revelado e como verbo, algo expelido, exposto, secretado.

Uma parte de nossa vida espiritual é feita de desconhecimento, de realidades impenetráveis, como dizia Bernard Feillet. Uma pessoa em oração não alcança exatamente o que ela faz. Ela está ali, na presença de Deus, onde acaba todo conhecimento. A pessoa em oração ignora a si mesma, mas Deus a conhece. Oculto, Ele vê. Deus a entende num nível em que ela ainda não se conhece, nem naquele momento, nem quanto ao seu devir, ao seu futuro espiritual. “Porque o vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedires” (Mt 6,7).

A oração é um espaço de liberdade no coração da Igreja. A elaboração interior ajuda a destilar e secretar no silêncio. À força de bater, a porta se abrirá (Mt 7,7). A vida espiritual ensina: enquanto se espera, deve-se continuar batendo, confiando e tornando-se assim, homens de oração. Só a prática da oração nos faz homens de oração. E é essa a tarefa da oração: nos transformar, com o tempo, em verdadeiros homens de oração. Da mesma forma na natureza, as intempéries e as plantas transformam a rocha e o mineral estéril em terra fértil. Lentamente. Misteriosamente.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Oração e mistério. A Tribuna, Campinas – SP, p. 7 – 7, 2005.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Oração e mistério. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 6, p. 2, 2005.

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