ONDE A TERRA DEPENDE DA SEMENTE


(2/3/2011)

Evaristo Eduardo de Miranda

“Estamos às portas da Quaresma, que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na Igreja, e em que ela se arma contra os vícios. Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades. Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum.” Assim o padre Antonio Vieira conclui o Sermão da Sexagésima, pregado na Capela Real de Lisboa em 1655. Mas sua reflexão agronômica vale para todo o tempo.

Os agricultores sempre procuram uma terra fértil para suas sementes. Na vida sacramental é o contrário: é a semente quem fertiliza a terra. É a palavra de Deus que torna a terra fecunda. Plantar a boa semente é o que se tenta, desde o início, no dia do Batismo das crianças. Muita semente diferente ainda será plantada nessa terra infantil. Na parábola do joio e do trigo, após o plantio da boa semente, vieram uns inimigos e semearam ervas daninhas. Quando as plantas cresceram, alguém propôs de arrancar as ervas más. Para o Senhor das terras, o tempo não era de colheita. Para o bem e a proteção da boa planta, era melhor deixá-la ao lado da má. Na colheita, elas seriam separadas e teriam destinos diferentes (Mt 13, 24-43).

O profeta Ezequiel, o mais jardineiro dos mensageiros de Deus, descreve o plantio pelo Senhor de um pequeno rebento de cedro, tirado da ponta de um ramo, numa montanha de Israel. Os batizados, como os cedros do Líbano, foram plantados diretamente por Deus! (Sl 104). “Ele estenderá ramos, produzirá fruto, tornar-se-á um cedro magnífico. Todos os tipos de aves ali habitarão. Elas habitarão a sombra de seus ramos” (Ez 17,23).

As árvores têm destinos difíceis de controlar. Algumas crescem e têm troncos magníficos. Outras ficam raquíticas ou morrem de enfermidades ou acidentes. O Batismo busca evitar que isso aconteça com as crianças. Que elas cresçam em majestade, como as altas árvores, no seio da família cristã.

As águas de março fecharam o verão e a agricultura brasileira entrou no tempo das colheitas. Para a Igreja é sempre tempo de semear. É sempre hora de plantar a boa semente. Cuidemos para que nenhum grão fique fora do celeiro do Senhor. Que ninguém deixe de batizar seus filhos e netos. A misericórdia infinita de Deus e as águas batismais abençoam e transformam qualquer terra estéril em solo fértil. Como dizia Santa Teresinha: Deus não nos ama porque somos bons. Ele nos ama para que nos tornemos bons.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Onde a Terra Depende da Semente. A Tribuna, Campinas (SP), p. 13 – 13, 2011.

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